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Aos olhos dos viajantes havia outro entrave ao progresso do país: o mercado de almas. O sistema escravocrata constituía o principal obstáculo para o progresso e dificultava a introdução da mão de obra livre e europeia no Brasil. Segundo Suzannet: “Além de tôdas as causas de desordens naturais em uma sociedade ainda na infância, que passava sem transição do despotismo cego de Portugal a uma liberdade da qual só compreendiam os abusos, veio juntar-se a questão da escravidão.”179

Para esses atores sociais, a inclusão dos negros como trabalhadores livres e assalariados não representava as bases para o crescimento social e econômico da nação, pois acreditavam que somente a imigração poderia sanar esse problema. O fato de os viajantes se oporem à escravidão não significava que não admitissem à hierarquização racial e/ou cultural.

Maximiliano de Habsburgo não entendia como os cidadãos do Brasil acreditavam que o país poderia prosperar tendo o sistema escravista como base. Durante sua passagem pela Bahia, observou que os sujeitos que degradavam os escravos se denominavam “cidadãos livres de um país livre”, e pretendiam que este florescesse sob tais circunstâncias, sem perceberem a “ironia e humilhação que tais palavras contêm”.180

Dando mostras de sua visão liberal, observou a emergência da civilização, julgando ser o trabalho regular e a busca por capital sua mola propulsora.

Assim, chamou-me atenção a grande preponderância dos negros, em comparação com os brancos. Dentre os últimos, os poucos que se viam

178

Ibidem, p.240. (grifo nosso)

179 Ibidem 1957, p. 233.

pertenciam, na maioria das vezes, as classes mais altas. Podiam-se perceber, em seus, movimentos, a grande pressa, a ânsia incessante por lucro. Seu lema também aqui, como no resto da América, é: time is money, um princípio pelo qual, no fundo, sou apaixonado, pois ele é a base do esforço, da atividade que fortifica o corpo e ativa o espírito, o verdadeiro realismo que impulsiona a raça humana para a frente e que torna o socialismo possível. Pois, se todos trabalham, exclui-se a inveja, e a justiça surge, de novo, com a igualdade. Só os escravos não se enquadram bem em tais princípios.181

Notou que os homens brancos do Brasil também ansiavam por lucros e os escravos convertiam-se um obstáculo para o desenvolvimento social. A presença dos cativos impedia qualquer movimento do país no sentido de ajustar-se às sociedades capitalistas.

O alemão Avé-Lallemant teve contato com proprietários de terras preocupados com a falta de mão de obra resultante da proibição do tráfico negreiro e do surto de cólera. Para ele, os imigrantes não teriam condições de prosperar enquanto houvesse mão de obra escrava no país. Daí o seu clamor: “Por isso, por Deus, não se tente introduzir essas raças [germânicos] na província de escravos da Bahia, se não se lhes quiserem deixar todos os seus direitos, se os quiserem deixar expostos às arbitrariedades d‟alguma rica empresa de colonização ou capataz de escravos.”182

Ainda opinou que seria “muito melhor navegar novamente para a costa da África e arranjar-se, como dantes, com Moçambique, Luanda e Inhambana [...]. É muito melhor o tráfico de escravos, do que o embuste contra pobres imigrantes alemães”.183

Avé-Lallemant reivindicou com bravura melhores condições de vida para os imigrantes europeus. As raças nórdicas, de homens brancos e livres, não podiam ser compatíveis com a escravidão. Sendo assim, os africanos poderiam sofrer com as mazelas do trabalho escravo, mas os “pobres imigrantes alemães” não.

Para o visitante, a existência simultânea dos modelos de trabalhos livre e escravo revoltaria o cativo, pois “quando um recebe no sábado à tarde o seu salário duma semana, o outro recebe uma roda de açoites.”184

Observou, ainda, que outro problema seriam as diferenças culturais entre os proprietários de terra e os alemães, assim como a dificuldade de adequar o tratamento dispensado aos trabalhadores livres, acostumados a outro sistema laboral.

181 Ibidem, p., 223-224.

182

AVÉ-LALLEMANT, Robert. Op. Cit., 1961, p.40.

183 Ibidem, p. 9. 184 Ibidem, p.37.

O mais difícil para os senhores de escravos quando tomam gente livre, quando recebem trabalhadores alemães ao seu serviço, é habituarem-se ao tom e a maneira exata como devem tratar seus subordinados livres. O eterno ralhar, descompor, gritar com a escravatura em que os feitores se tornaram grandes, não se contem facilmente diante do trabalhador livre, que esses senhores julgam ser-lhes quase incondicionalmente e inteiramente subordinado, só por se ter alugado a eles.185

O médico alemão sugeriu a imigração portuguesa como possível solução para suprir a carência de trabalhadores na Bahia, já que brasileiros e portugueses seriam “da mesma raça, da mesma família,”186

conheciam as terras um do outro e os portugueses não teriam dificuldade para entender os contratos e lançar mão da justiça, caso fosse necessário.

Segundo Mattoso, no período de 1852 a 1889, 7.815 portugueses do sexo masculino vieram para a Bahia. Cerca de 35% desses imigrantes tinham entre oito e catorze anos e trabalhavam com seus conterrâneos como aprendizes do comércio.187 Compartilhando a mesma língua e diversos itens culturais, os lusitanos não sofreram um impacto cultural tão grande.

De fato, a relação entre fazendeiros e imigrantes se mostrou bastante tensa devido às diferenças culturais e de interesses. Os conflitos muitas vezes exigiam a intervenção da força pública, que se posicionava a favor dos fazendeiros; enquanto os consulados tentavam defender os direitos dos estrangeiros.

Para Avé-Lallemant a imigração de alemães só poderia prosperar na Bahia quando não houvesse mais a mão de obra escrava e o os colonos pudessem viver em colônias independentes, trabalhando em terra própria, pois só assim poderiam revelar todo “o seu valor e significação.”188

Maximiliano de Habsburgo fez o mesmo tipo de consideração, apontando para a impossibilidade de conciliar trabalho escravo e do colono livre: “Escravos e emigrantes honestos não podem existir um ao lado do outro. Senhores de escravos não podem ser justos. Exterminar a escravidão seria, por conseguinte, o nascimento do novo Brasil.”189

Opinou que só após a abolição o Brasil poderia pleitear um lugar entre as nações civilizadas e mostrou o quanto a escravidão imprimia sua marca ao país. Enquanto os “emigrantes honestos” não poderiam trabalhar ao lado de escravos, correndo o risco de serem tratados da mesma forma, o que aconteceria com o ex-escravo diante da liberdade e da

185 Ibidem, p.37.

186 AVÉ-LALLEMANT, Robert. Op. Cit., 1961,p.38. 187

MATTOSO, Kátia M. de Queiros. Op. Cit. 1992, p. 201.

188 AVÉ-LALLEMANT, Robert. Op. Cit., 1961, p.38.