VI.1.2 Localisation et Fréquence
IV.3 Prise en charge de la maladie initiale
IV.3.7 Traitements palliatifs
A partir das lembranças das idosas entrevistadas, é possível identificar quais eram os meios pelos quais experienciavam música. O rádio está muito presente nas lembranças das idosas e foi uma ferramenta muito importante nas experiências com a música. Como mencionado, isso se deve ao fato de que, até a década de 1950, o rádio “cumpriu um destacado papel social tanto na vida privada quanto na vida pública, promovendo um processo de integração que suplantava os limites físicos e os altos índices de analfabetismo no Brasil” (CALABRE, 2004, p. 7). Segundo Calabre (2004), “o rádio foi lançado como uma novidade maravilhosa, e transformou- se em parte integrante no cotidiano. Presença constante nos lares converteu-se em um meio fundamental de informação e entretenimento” (CALABRE, 2004, p. 8).
Para Aguiar (2010), “bastava ligar o rádio. Um gesto simples de girar um botão, ouvir um „trique‟ abafado, e pronto! As vozes invadiam o ambiente. Ninguém ficava indiferente. A verdade é que, de tanto ouvir, sabíamos todas ou quase todas as letras das canções” (p. 13). Em seu livro As divas do Rádio Nacional, Aguiar (2010) homenageia as divas do rádio, pois, para ele, o jeito de se escutar música era diferente,
era uma época em que tínhamos mais tempo para ouvir as canções do rádio e aprender suas letras. Uma época nem melhor nem pior que a atual – apenas diferente. Épocas tão diferentes que chegamos a pensar que o ontem e o hoje não pertencem à história do mesmo país. Duas realidades que não parecem ser dois momentos históricos de uma mesma sociedade (AGUIAR, 2010, p. 14).
As lembranças das idosas relacionadas ao rádio aparecem entremeadas no vai e vem da memória. Essas lembranças são voltadas para a compra do aparelho, para as saídas para casa dos vizinhos, no passado e no presente, e para os programas que eram apresentados.
Pode-se dizer que as experiências musicais vividas por meio do rádio estão ambientadas nas casas das famílias, amigos e vizinhos. D. Marisa Estevão (Entrevista, dia 14/07/2010) escuta rádio desde que ganhou um de seu pai quando era mocinha. Conta que, para escutar o rádio, “esticava uma antena em um bambu,
no alto mesmo, [...] para sintonizar melhor” (p. 12). À medida que se locomovia dentro ou fora de casa, carregava consigo o rádio.
D. Marisa Estevão (Entrevista, dia 14/07/2010), quando chegava em sua casa, vestia uma roupa mais simples de trabalhar e, então, a primeira coisa que fazia “era ligar o radinho” (p. 7). O rádio que ganhou do pai ficava dentro de seu quarto e de sua irmã. Conta que combinava com sua irmã o seguinte:
Como ela era mais nova do que eu, eu falava assim pra ela: “Eu bato as roupas e torço e você põe no varal”. Ela [sua irmã responde]: “_Então tá”. Que era pra eu não sair de perto do som! Porque lá dá notícia de tudo quanto há, né!? E ali sempre... se eu fosse pra dentro, a antena ficava lá, no bambu, mas eu levava ele [o rádio] pra dentro. Lá dentro eu já ligava (D. Marisa Estevão, entrevista dia 14/07/2010, p. 12).
Ouvir rádio, muitas vezes, reunia a família, os vizinhos. Isso pode ser observado a partir do relato de D. Ana Lima (Entrevista, dia 23/07/2010, p. 6), a seguir: “aí a gente sentava, às vezes um ou outro vizinho que não tinha rádio, ia pra lá [para sua casa] nesse horário pra ouvir as músicas”.
É importante destacar que a escuta e o interesse por essa escuta estava associado ao repertório veiculado no/pelo rádio. D. Lara (Entrevista, dia 17/03/2010) fala que “tudo o que era novidade saía nas rádios... essas músicas vinham e se reinventavam no rádio” (p. 19).
D. Ana Lima (Entrevista, dia 23/07/2010) também se lembra dos programas que eram veiculados. Como o rádio, no início, no interior do país, não contava com muitos recursos financeiros, a programação era mais limitada, e as pessoas organizavam o tempo em função da programação. Depois de terminado o trabalho doméstico, D. Ana Lima se sentava para ouvir o rádio. Havia os horários dos programas sertanejos de São Paulo e os que ela mais gostava de ouvir: o programa das seis horas da tarde, o Programa da Ave Maria, e, à noite, as duplas sertanejas cantavam, se apresentavam.
D. Rosalina (Entrevista, dia 28/06/2010) se lembra que no rádio eram veiculadas novelas e músicas. Recorda-se do programa apresentado por Francisco Alves, na Rádio Nacional, e, com precisão, D. Rosalina se lembra do horário que este era veiculado: “era todos os dias ao meio dia” (p. 18). Menciona os cantores
que eram tocados nesse programa: Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira: “Tudo que estava no rádio. Era a maneira de comunicar que eles tinham” (p. 18)
É importante destacar que, como se tratava de uma nova tecnologia para a época, as pessoas não entendiam muito bem como o rádio funcionava, como saíam aquelas vozes de dentro de uma caixa. D. Eleonora conta uma situação bem curiosa:
Era sempre à noite que a gente parava pra escutar o rádio. Aí eu lembro direitinho de uma vez que uma mulher, uma velhinha chegou lá, chegou lá pra ver o rádio. Enquanto o rádio tocava ela virou pra mim e falou assim [narrando a fala da velhinha]:”- Fala pra ele tocar o
Juca Mané”. Ela queria que eu mandasse o rádio tocar a música
Juca Mané [cantando]: O Pedro quando escutou a intriga da sua mulher saiu a danada procura do moço Juca Mané.... e ela
continuava pedindo [narrando a fala da velhinha]: “- Vê cantar o Juca Mané, manda tocar...”. Que jeito, que jeito que eu mando tocar! [risos] (D. Eleonora, entrevista dia 22/07/2010, p. 27).
Nessa situação que D. Eleonora conta, observa-se uma dança do tempo nessa lembrança porque nela estão presentes várias gerações. D. Eleonora, em 2010, conta sobre uma lembrança acontecida em meados da década de 1950, ilustrando que uma senhora nascida provavelmente na década de 1890 tem dúvidas em relação a como o rádio funcionava. Se já era uma novidade para D. Eleonora o funcionamento do rádio, a produção dos programas, como era isso para a outra senhora?
O conteúdo da programação do rádio muitas vezes era controlado. Sabe-se que a programação era fortemente ligada ao mercado de patrocinadores, fazendo com que alguns programas tivessem “a cara” do produto que estava patrocinando o horário. Segundo Calabre (2004) “existiam fortes ligações entre a produção da programação das emissoras e o mercado, como pode ser observado nos sugestivos nomes dos programas irradiados, tais como Rádio Almanaque kolinos,
Acontecimento Aristolino, Repórter Esso, ou Cancioneiro Royal” (p. 29) (Grifos do
autor). Ademais, “muitos programas eram produzidos e gravados nas emissoras cariocas, em especial na Rádio Nacional, e depois redistribuídos para todo o país” (p. 29).
Essa prática reforçava “a fama obtida pelos artistas da emissora e o fascínio que a Capital Federal [na época a cidade do Rio de Janeiro], exercia sobre o interior. A modernidade que chegava pelo rádio tinha características urbanas, difundindo
para os moradores do interior, hábitos das grandes cidades” (CALABRE, 2004, p. 30). Enquanto aguardavam notícias, “os ouvintes se divertiam com os programas humorísticos, se emocionavam com os dramas radiofonizados e cantarolavam os últimos lançamentos musicais interpretados por seus cantores prediletos” (CALABRE, 2004, p. 30).
O que era veiculado no rádio tinha um porquê de ser transmitido naquele momento. As músicas provavelmente também, pois as rádios tinham controle do que ia ser tocado. Essa regra só era quebrada nos programas interativos nos quais a plateia podia escolher as músicas, por meio das gravações e dos long play – LPs. Dessa maneira, a construção e a constituição do gosto musical passaram a ter participação desse tipo de mídia e, da mesma forma, da programação do rádio.