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Dans le document LA SPONDYLARTHRITE ANKYLOSANTE (Page 33-42)

A memória histó rica, conceb ida, no âmbito da AD, como constitu ída por relações inte rdiscursivas po ssibilita detectar as descontinu idades que a e laboram a partir de grande s fraturas que justapõem reco rte s de memória. Essa concepção de História implica romper radicalmente com qualque r bu sca das origens ou de um sistema de causalidade, substitu ídos por u m caráte r de mu ltip licidade de dizere s: a busca de coerências significantes entre discursos que na aparência não têm outras rela ções se não a de simultane idade.

É justamente o de scentramento do sujeito que indu z a uma nova relação com a temporalidade e com a historicidade: entendendo-o como dispersão em múltiplas tempora lida des. Podemos, numa leitura de Dosse (2001 ), con ceber o discurso como objeto de acontecimentos que lhe são e xte riores. E ssa persp ectiva p luriforme permite dar um sentido no vo à no ção de acontecimento.

É exatamente a partir dessa noção de acontecimento qu e emerge uma abordagem discursiva , pois a Histó ria é constitu íd a pelas lutas, pelas batalhas discursivas. A problematização da História, enquanto

aquilo que pode e deve ser dito, nos le va a in vestigar o campo dos

enunciados a fim de entender os acontecimentos discu rsivos que possib ilitaram o e stabelecimento e a crista lização de certos sentidos em nossa cultu ra.

Há nas formações discursivas uma articula ção entre

sin gula ridade e re petição: de um lad o, é um ge sto; de outro, liga -se a uma memória, tem uma materialid ade; é único, mas está aberto à repetição e se liga ao passado e ao futuro.

O discu rso é co nstitu ído pe la sin gularidade e pela repetição; sua análise de ve, p ortanto, le va r em conta a dispersão e a regu laridade na medida em que institu iu o território da História como o campo das formações discu rsivas. Histó ria e materialidade dos enunciados se interpenetram para constitu ir os sentidos:

O a c o n t e c im e n t o n ã o é n e m s u b s t â n c i a , n e m a c id e n t e , n e m q u a l id a d e , n e m p r o c e s s o ; o a c o n t e c im e n t o n ã o é d a o r d em d o s c o r p o s . E n t r e t a n t o , e le n ã o é im a t e r i a l; é s e m p r e n o â m b it o d a m a t e r i a li d a d e q u e e l e s e e f e t i v a , q u e é e f e it o ; e le p o s s u i o s e u l u g a r e e s t e c o n s is t e n a r e la ç ã o , c o e x is t ê n c i a , d is p e r s ã o , r e c o r t e , a c u m u la ç ã o , s e l e ç ã o d e e l e m e n t o s m a t e r ia is ; n ã o é o a t o n e m a p r o p r ie d a d e d e u m c o r p o ; p r o d u z- s e c o m o e f e i t o d e e e m u m a d i s p e r s ã o m a t e r i a l ( F O U C A U L T , 1 9 8 6 , p . 5 7 - 5 8 ) .

Podemos pensar n osso trabalho de a nálise do discu rso midiático, procurando bu scar o que não é “e vidente ”, fa zendo irromper a sin gula ridade, a raridade: as con exõe s, os jo go s de força, as estraté gias que formam, num dado momento histórico, aquilo que a segu ir vai ser dad o como evidência – olhar o aconte cimento a partir dos proce ssos múltip los que o constituem (a s prática s, que são a s condições pa ra a sua inteligib ilidade).

Tomar os acontecimentos sign ifica e stabelece r uma no va noção de tempo (temporalidades múltip las) e de espaço (emaranhado, rede de relaçõe s). Essa s concepções, qu e tra zem o descontínuo e a multiplicidade.

Na formulação do discu rso da Histó ria, o histo riador re aliza uma escolha, organ iza, elimina alguns documentos e conserva outro s (NORA, 1993). Essa seleção denuncia a orientação político -ideo lógica de uma época, já que o s documento s conse rvados são aque les que se configuram como essencia is para a compreensão da pró pria sociedade, sob os condicion amentos de um lu gar social. Ao desmontar os documentos e interpretar as suas con dições de produçã o, o analista de discu rso p rocu ra interpreta r a forma como a sociedade se rep resenta. Por isso, a memória não é pensada em seus aspecto s psíquicos ou neurobioló gico s: trata-se de entende r os condicionante s da memória

como condição de seu funcionamento discursivo, produ zindo efeitos de sentido num momento e silenciando, pelo esquecimento, outros.

Entendendo a História como interp retação, e não como resultado buscamos em nossa análise, o s efeitos d iscu rsivo s. As co isas e os sujeito s não pré-e xistem aos discu rso s, ao contrário, sã o esses que os constituem. Os su jeitos e os ob jeto s existem em espaços e tempos constru ído s, que d efinem representações.

Sujeitos, espaço s, tempos são, portan to,

n o ç õ e s h is t ó r ic a s , d e n s a s e m s u a m a t e r i a l i d a d e , c a r r e g a d a s d e t e m p o , d e f i n id o r a s d e e s p a ç o s , q u e n a s c e m e m a l g u m m o m e n t o e q u e t ê m e f e i t o s p r á t ic o s ( . . . ) D e s i g n a m u m a g a m a d e p r á t ic a s q u e p r e c i s a m s e r h is t o r ic i za d a s , d e s c o n s t r u í d a s , d e s n a t u r a li za d a s ( R A G O , 2 0 0 2 , p . 2 6 5 ) .

O suje ito, quand o se filia a uma FD, ap ropria-se d a condição dada aos sentidos no interio r dessa rede de formulações que se impõe como memória a ser repetida. Nesse processo, há, simultaneamente, um apagamento das cond ições d e produção de outros sentidos.

Quando pensamos em esquecime ntos, implicamos outras dimensões da me mória, uma ve z que esse pro cesso de instituição do sujeito e dos se ntidos é simultân eo e re veste o sujeito de uma totalidade e de uma consciên cia sobre o dize r co mo sendo sua propriedade, permitindo -lhe articu lá-Io. Com isso, o sujeito supõe dominar os sentid os de forma racio nal, esquecendo que eles e stão inscrito s e anco ra dos em uma FD que, sem ele o sab er, masca ra os sentidos com um efeito de acabamento. É uma ilusão do sujeito, po is o movimento do sentido sempre e scap a ao seu domín io, por não Ihe pertencer.

O funcionamento discu rsivo do sentido condiciona o que lhe é constitutivo, o seu deslo camento, a cadeia significan te, os re stos, a tensão de sua red e, constituindo a memória discursiva que é desde sempre Iacunar. A memória discursiva não é única, não é homogênea ou um Iugar de limpide z. Ela é constitu ída de d iferenças, é um comple xo, tendo, em seu funcionamento, uma memória oficializada e sentidos dominante s.

Podemos dize r que , em todo p rocesso de constitu ição do sentido, sempre há o “encontro da me mó ria co m u ma atualida de ” (PÊCHE UX, 2002, p.17). Este encontro dete rmina a retomada de uma repetib ilidade memorativa com os e le mentos de uma atualidade inscrita numa rede de formulações que possui uma histo ricidade, uma materialidade. Fun dam-se, a í, os sentidos que podem se r re ite rados ou tornar-se pa ssíve is de serem outro s, transmutando-se, transformando- se, no encontro de sses ponto s de ten são que imp rimem, por sua ve z, a manutenção do mesmo ou a instau ração de algo no vo.

O suje ito a rticula os pré -constru ídos, os "se mp re -já -aí', que são condicionantes da formulação do discu rso. Mas toda retomada

discu rsiva implica ressign ificação , podendo faze r desprende r

fragmentos outro s que podem compor o mesmo de forma diferente, opacificando um já-dito. Os já-d itos podem surgir no discu rso como algo e stranho, efeito de outros sen tidos, de outros d izeres, de outros jamais dito s; isto é , podemos pensar a memória discursiva como efeito do interd iscu rso, como constitu ída a partir dele, sendo o que se mostra no intrad iscu rso a penas um recorte do interdiscu rso. Dessa forma, estamos reconstituindo fronteira s sempre móve is, redescob rindo resqu ícios que ne m sempre podem ser recoberto s ou iluminados pelos sentidos já posto s.

Por essa ra zão, po demos dizer, com Orland i (1996 ), qu e o sujeito não é uma máquin a de reprodu zir se ntidos, po is é intrín seco ao próp rio processo discu rsivo ha ver e spaços d e interp retação. E ntre o d ito e o não dito, abrem-se, então, brechas, equ ívo cos, deslocamentos, debates, articulaçõ es, va cilos do sujeito, possibilidades de anáIise e de questionamentos. Sem essa concepção de sujeito, não poderíamos falar em memória discu rsiva, ma s apenas em memória, pois o indivíduo, p lenamente consciente, a dominaria a ponto de controlá -Ia e de transformá-Ia e m um arquivo de dados a ser a cessado de forma plenamente racional.

Dito isso, é po ssíve l a ssumir que é a partir da lín gua que chegamos ao d iscurso e , atra vés do discurso , (re )constru ímos a memória discu rsiva. Não contempla mos, desse modo, apenas o fato

passado e oficializado socialmente, mas as ressonâncias do discu rso outro, dos outros sentidos constru ídos em tempos anterio res e impensados. Nessa perspectiva, podemos falar de uma memória discu rsiva como o dispositivo que faz funciona r o memorial dos sentidos, isto é , o interdiscurso.

A memória discu rsiva faz parte de um processo histórico resultante de um esforço de interp retações para os acontecimentos presentes ou já ocorridos. Constitu i a possib ilidade de dizere s que se atualizam no momento da enuncia ção, como efeito de um esquecimento correspondente a um processo de deslocamento da memória como virtualidade de significações.

Ao problematiza r memória discu rsiva, Orlandi (1988 ) evidencia que o su jeito toma como suas as pa lavras de uma vo z anônima que se produ z no inte rdiscurso, ap rop riando -se da memória que se manifestará de diferentes formas em discu rso s. A memória,

p o r s u a v e z, t e m s u a s c a r a c t e r í s t ic a s q u a n d o p e n s a d a e m r e la ç ã o a o d is c u r s o . E n e s s a p e r s p e c t i va , e la é t r a t a d a c o m o i n t e r d is c u r s o . Es t e é d e f in i d o c o m o a q u i l o q u e f a l a a n t e s , e m o u t r o l u g a r , in d e p e n d e n t e m e n t e . O u s e j a , é o q u e c h a m a m o s m em ó r i a d is c u r s i va : o s a b e r d is c u r s i v o q u e t o r n a p o s s í v e l t o d o d i ze r e q u e r e t o r n a s o b a f o r m a d o c o n s t r u í d o , o j á - d it o q u e e s t á n a b a s e d o d i zí v e l, s u s t e n t a n d o c a d a t o m a d a d e p a l a vr a ( O R L AN D I , 2 0 0 2 , p . 3 1 ) .

É a lín gua que d á forma ao discurso e o discurso é o que materializa a memória e os p rocesso s discursivos são responsá veis por fazer eme rgir o que, em uma memória coletiva, funciona como um mecanismo de iden tificação de um determinado pro cesso histó rico.

Achard (1999 ) observa que aquilo qu e se constitui com o regu lar

pode ruir sob o peso de aco ntecimentos d iscursivos no vo s,

constitu indo-se uma nova série que pode deslocar ou desre gula r as relaçõe s estabelecidas com a ante rio r. E ssa pe rcepção re vela também que se constró i um jogo de força na memória, atrave ssada pelo acontecimento, qu e desloca ou desregula o s implícito s associado s ao sistema de re gula riza ção. Para Pêche ux

“ a m e m ó r ia d is c u r s i v a s e r ia a q u i l o q u e , f a c e a u m t e x t o q u e s u r g e c o m o a c o n t e c im e n t o a le r , ve m r e s t a b e le c e r o s ' im p l í c it o s ' ( q u e r d i ze r , m a is t e c n ic a m e n t e , o s p r é - c o n s t r u í d o s , e le m e n t o s c it a d o s e r e la t a d o s , d is c u r s o s - t r a n s v e r s o s , e t c . ) d e

q u e s u a le i t u r a n e c e s s it a : a c o n d iç ã o d o le g í v e l e m r e l a ç ã o a o p r ó p r i o l e g í v e l ” ( 1 9 9 9 , p . 5 2 ) .

Achard (1999), ao problematizar a qu estão, formula a hipótese de que ta is implícitos não se riam pe rce bidos e xp licitamente no discu rso - vu lgata do implícito, como formas estáve is e sedimenta das, visto que, sob a repetição qu e sofrem, ocorre a formação de um efeito de série que pe rmitiria u ma "regu larizaçã o", que funciona ria como um dispositivo de recolhimento de implícitos, sob a forma de remissões, de retomadas e de efeitos de pa ráfrase (PÊCHEUX, 1999) que poderiam, segundo o auto r, conduzir à que stão da constru ção dos estereótipos.

Esses implícitos podem se configurar como enunciados completos ou, até mesmo, como certos itens le xicais utilizado s isoladamente. Ainda que repetid os esse s dispositivo s discu rsivos podem acabar perdendo sua vinculação a um sentid o atribu ído. Esse processo ocorre pelo desencadea mento de um jogo semântico de constru ção de metáforas. No vos sentidos vão se con stitu indo na rede d e dize res. Há, então, um rompimento da memória como dispositivo guardado r de implícitos - o que significa que a memória funciona como dispositivo de conte xtos de le gibilidade de cada aco ntecimento discursivo e tem duas faces: a da tendência à estabilidade e a da tendência ao desarranjo e à instabilidade - re petição e dispe rsã o estão na ordem de constitu ição do discu rso.

A constituição da memória discursiva pode ser tomada como uma oposição aos processos histó ricos d e silenciamento (apagamento) tal como os compre ende Orland i (1996). Da r e vidência a aspectos apagados ou esqu ecidos co rrespond e a uma atitude político-ideoló gica que é con stitu tiva da memória histó rico-discu rsiva.

A formulação de interp retações histó rica s possíveis, mas apagadas, tanto n a ordem da e scrita, quanto do dizer auto rizado, permite que a so ciedade ou o suje ito formulem a determinação da interp retação que p rodu z as e vidência s histó ricas.

Assim, a quilo que não pode ser formulado, num dado momento histó rico , pode também não ser possível em outro. É certo que , pelo próprio funcionamento do discurso, nã o podemos pensar que todo não -

dito possa vir a ser enunciado em outro momento. Tornar o não-dito exp lícito pode fa ze r emergir inte rp retações ou memória s que e sta vam silen ciadas.

Esse pro cesso de formulação do discu rso, fazendo irromp er o que esta va silen ciado, re quer um tra balho simbó lico com a memória discu rsiva, uma relação entre formulações e silên cios, entre as diferentes memórias discu rsiva s em tensão, entre os saberes que já

eram do domín io do suje ito e os no vos que se a gre gam,

desestabilizando os discu rso s constituídos, na medida em que outras memórias discu rsivas passam a se r co nstitutivas dos mo dos de dize r.

Para pensar a rela ção entre o discurso da campanha “O Amor é a melhor herança ” objeto de nossa pesqu isa, com sua memória, assume importância (re )constitu ir a memória histórica silenciada no meio sócio -histórico.

Importante sublinh ar que há condiçõ es de produção específica s que re gu lam a possibilidade da memória poder se r dita , uma ve z que há múltipla s narrativa s constitu indo su jeitos. O trabalho d e constituição da memória adquire tem uma função sign ificativa no funcionamento mais amplo da memória que é constitutiva de uma formação social.

Pertinente perce ber também que a memória é um espaço móvel, de divisões, de disjunções, d e deslocamentos e de retomadas, de conflitos (PÊCHEUX, 1994). Encontrar, nesse espaço, fendas que alojam d izere s potenciais, ou simp lesmente dar luga r a dizere s simples que p recisam vir à tona nas cond içõ es cotid ianas do s sujeito s que se relacionam o temp o todo com o igu al e com o d ifere nte, num dado tempo e conte xto social, rep resenta que stão essencial quando se conside ra a formulação da memória d iscu rsiva..

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