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TRAITEMENT DU VIH

Dans le document RAPPORT MONDIAL (Page 97-123)

Existe certa tradição em ver a cidade como um texto, interpretando-a com o ferramental da literatura e da semiótica. Cidade mídia, como afirma Lucrécia Ferrara6 ou mesmo Roland Barthes em seu texto fundador “Semiologia y urba-

nismo”7. Indo em outra direção, gostaria, tendo em vista a primeira cena do táxi,

de pensar quais são hoje em dia os textos da cidade.

Poderíamos tomar The Legible city de Jefrey Shaw (1989) para nos conduzir nesta segunda cena. Na pioneira obra de Shaw ao pedalar e conduzir uma bici- cleta, fixa no espaço expositivo, passeamos por uma cidade de textos, com suas ruas e quarteirões construídos com palavras em uma enorme projeção diante da bicicleta. Pedalar pela cidade de Shaw é o mesmo que ler esses textos. A cidade traz em si seus textos que se revelam a nós conforme a experimentamos.

Tomando a obra de Shaw, podemos nos perguntar quais são os textos que atualmente vemos na cidade? Hoje podemos pensar que os novos textos são criados de forma a dar visibilidade aos traços mais ordinários e cotidianos da nossa experiência. Redimensionando espaço e tempo essas mensagens expan- dem a experiência urbana nos colocando em interação a distância o tempo todo. Tagarelice digital criando uma textualidade aberta e fluida que registra o entor- no, planeja o encontro e aciona as subjetividades na intensidade do espaço urba- no ampliado. Um texto que vem na cidade pelos expressivos volumes de trocas simbólicas feitas especialmente nos serviços instantâneos de mensagem como o Whatsapp ou nas redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter).

O texto formado no “aqui e agora” da cidade, de forma instantânea. Estamos dentro da cidade escrevendo o texto da vida cotidiana, o diário e a conversa em tempo real, efeitos de uma complexa proximidade entre “lá, aqui e agora”. Essas conversações e as trocas simbólicas on line ativam novas percepções do espa- ço urbano dotando-lhe de uma nova textualidade, agora incrustrada no espaço entre real e virtual, reconfigurando o universo urbano em um texto escrito pela força vital do cotidiano.

6 Conferir as importantes reflexões de Lucrécia Ferrara (1988, 2008).

Uma das obras que antecipou esse jogo entre textos e sujeitos foi Poétrica8

(2003) de Giselle Beiguelman. Na obra era possível enviar mensagens via SMS, WAP ou pela internet que eram convertidas em fontes não fonéticas (dings e fon- tes de sistema) e transmitidas simultaneamente para três painéis dispostos na cidade de São Paulo, entre as avenidas Paulista, Consolação e Rebouças, locais de intensa circulação de pessoas. Além disso, as mensagens eram reenviadas on line por webcams e replicadas em outros dispositivos (celulares, palm tops, computadores) e arquivadas no site do projeto. Após enviar uma mensagem, era possível receber uma confirmação do envio e a data e hora da veiculação. A te- leintervenção, como Beiguelman caracteriza Poétrica, ficou disponível entre 14 de outubro e 08 de novembro de 2003 e ainda se desdobrou em uma instalação na Galeria Vermelho, onde era possível ver projeções das webcams trazendo ima- gens em tempo real dos painéis e naturalmente enviar mensagens.

Talvez aqui seja possível retomarmos o pensamento Guattari (1992, p. 171) em torno da cidade. Para o autor uma questão importante é a restauração da cidade subjetiva, essa “que engaja tanto os níveis mais singulares da pessoa quanto os níveis mais coletivos”. As trocas simbólicas como as que a obra de Giselle sugere podem nos fazer reconectar com o espaço urbano marcando-o com nossa pluri- presença pelos espaços que percorremos. Tornamos esses espaços quase domés- ticos, porque ao escrevermos muitas vezes nos apropriamos intensamente deles. A produção audiovisual parece ter captado isso e tem sido um recurso recorrente trazer a troca de mensagens instantâneas para assim compor a cena, marcando muito nitidamente a relação entre espaços, territórios e textos, como em diver- sas cenas da premiada série House of cards produzida pela Netflix.

Pode ser que, ampliando a afirmação de Guattari, as tecnologias típicas das redes sociais nos ajudem a intensificar nosso engajamento em níveis singulares e coletivos para com isso restaurarmos a experiência subjetiva da cidade. Assim o caráter pessoal e subjetivo – característico das trocas simbólicas ordinárias e cotidianas das redes – pode colocar a cidade como o lugar onde esses novos tex- tos, na força da imprevisibilidade e do afeto, possam se inscrever renovando-a em sua dimensão subjetiva.

Cena 3: Cityselfie

Entre as contemporâneas formas de representação de si, o selfie tem um lugar privilegiado. A guinada subjetiva, percebida por alguns teóricos, alcançou uma enorme centralidade na vida contemporânea tornando-se um importante modo de se mostrar e construir formas de visibilidade no universo das redes. Na arte, o autorretrato é um importante gesto, inclusive em suas manifestações contem- porâneas que sempre problematizam e questionam o lugar do eu e da identidade na construção da subjetividade. Na era das redes e das trocas simbólicas digitais, qual o lugar do eu e do outro nesse jogo da representação de si?

Boris Groys chama todo esse gesto de autorrepresentação, tão evidente, hoje em dia, de self design, uma forma de moldar-se para os olhos do Outro. A reflexão de Groys se desdobra em dois textos9 que afirmam, às vezes de forma irônica,

a construção de si pela superfície. Expandindo as ideias de Groys (2008, p. 3, tradução nossa) poderíamos incluir também as formas de difusão em rede como uma linha de força para a construção de si.

Enquanto Deus estava vivo, o desenho da alma era mais impor- tante para as pessoas do que o design do corpo [...] A alma tornou- -se o conjunto das relações em que o corpo humano está inserido. Anteriormente, o corpo era a prisão da alma; agora, a alma tornou-se a roupa do corpo, sua aparência social, política e estética.10

Podemos pensar que se distribuímos nossa presença pelos diversos disposi- tivos que acionamos no dia a dia, a cidade pode aparecer como um importante função nestas caracterizações ou fabulações de si. Talvez esse seja o lugar onde a cidade-espetáculo, típica de certo tipo de turismo, aparece de forma ainda mais evidente, materializando-se no universo pessoal. Nation Branding ou city bran- ding são conceitos do marketing e da comunicação institucional também usados

9 Boris Groys desenvolveu a ideia do self-design em dois textos: “The obligation of self design” (e-flux

journal#0, 2008) e “Self-design and aesthetic responsability” (e-flux journal#7, 2009) disponíveis em: <http://www.e-flux.com/journal/>

10 As long as God was alive, the design of the soul was more important to people than the design of the body. [...] The soul became the sum of the relationships into which the human body in the world ente- red. Previously, the body was the prison of the soul; now the soul became the clothing of the body, its social, political, and aesthetic appearance.

para acionar as cidades para a experiência do selfie, ampliando o gesto do turis- mo, reforçando a centralidade dos pontos turísticos para a experiência urbana controlada.

Se historicamente vemos a cidade ser celebrada pelas muitas formas de re- presentação, hoje podemos perceber, como Jean-Louis Comolli (2008, p. 179) que

[...] estamos no momento em que as cidades reais preferem essa exaltação, essa cinegenia, e começam a se parecer com a sua versão filmada. Triunfo do espetáculo perceptível também na mutação dos cenários cotidianos, cada vez mais conforme a tipologia que o cine- ma propõe deles, à imagem, como dizemos, aquela que os filmes fi- xaram.

Ultimamente, muitas cidades sinalizam seus pontos turísticos e os delimi- tam, aos olhos oficiais, para garantir o melhor lugar para realizar o selfie. A cida- de, com isso, parece se tornar o palco para “o show do eu”, parafraseando Paula Sibilia (2008),já que as formas contemporâneas do espetáculo acionam as sub- jetividades e os afetos para se construir. A relação entre selfie e cidade é bastante intensa e motivou o projeto Selfiecity (selfiecity.net) reunindo artistas, teóricos e o público em geral para ver como se estruturam os selfies em Nova York, Moscou, São Paulo, Bangcoc e Berlim mostrando a relação e a recorrência de gestos e pos- ses em cada uma das cidades. A cada cidade corresponde um selfie, explicitando a trama que junta cidade, imagem e subjetividade.

Podemos ainda pensar o selfie tanto como procedimento quanto como gê- nero, mantendo com isso uma relação paradoxal de filiação com o autorretrato, gesto típico das manifestações contemporâneas que assume uma postura de ruptura, mas ao mesmo tempo de continuidade. Afinal agora trata-se de um gesto voltado ao self-design, ligado a uma forma de se posicionar e alcançar visibilidade diante do Outro. O gesto de colocar os dispositivos de produção imagética diante de si ganhou ainda mais espaço com os smartphones e as pos- sibilidades de compartilhamento nas redes. O autorretrato, especialmente na arte contemporânea, questiona o estatuto do sujeito abrindo-se para inúme- ros jogos, passagens e contaminações com o Outro. Esse gesto torna-se nítido em Self portrait as Kurt Cobain, as Andy Warhol, as Myra Hindley, as Marilyn

Monroe (1996) de Douglas Gordon que leva a proposição ao limite, ampliando ainda mais a multiplicidade que caracteriza as relações entre eu e outro. No caso do selfie, o Outro aparece como um horizonte de expectativa, como um alvo a ser acertado e que pode ser medido pelos likes nas redes sociais. Selfie me. Precisamos do Outro para que o selfie realize seu estatuto na rede.

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