II. 4.2.4.3 Microrecombinaison du pétrole brut
II.4.4 Traitement des données (Matlab)
É vulgar os historiadores ficarem esmagados pelo prolífero número de títulos de periódicos em Portugal no início do século. A.H. De Oliveira Marques não hesita em considerar: “ Portugal de então era um país de jornais (...). Nos começos do século, e contando somente os jornais com periodicidade inferior a um mês, havia em Portugal cerca de 368 periódicos, o que correspondia a um por 14 763 habitantes”133.
Rui Ramos pondera a análise deste dinamismo na produção de periódicos, à luz
de três características134: os periódicos portugueses não teriam âmbito nacional,
caracterizando-se pelas pequenas tiragens135, curta existência136 e amadorismo137.
Com alguma facilidade os números exorbitantes de títulos de periódicos anualmente registados, nas três últimas décadas da monarquia, ao serem referenciados com o vago termo de jornais, e associados a entusiásticas demonstrações do vigor da
133A.H. de Oliveira Marques, op. cit., p 600.
134 Rui Ramos, “A Segunda Fundação…”, op. cit., p.48.
135 Segundo Rui Ramos: “ Em 1897, segundo os cálculos do entusiasmado jornalista Brito Aranha,
Portugal tinha mais títulos por habitante (1 para 6500) do que a França e a Inglaterra (1 para 23000), para não falar da Turquia e da Rússia ( onde a proporção era de 1 para 300 000) de facto, isto não representava maior venda da imprensa, mas apenas uma diferente estrutura do mercado jornalístico. Na Inglaterra e em França, países dos mais centralizados da Europa em termos culturais, os jornais de Londres e Paris circulavam em todo o território, havendo poucos títulos, mas com tiragens gigantescas. Na maior parte dos outros países havia muitos jornais, e por isso com tiragens mais pequenas”, in idem.
136 Segundo Rui Ramos: “ Em 1891, o Boletim do Ateneu Comercial do Porto, contou 86 novos jornais só
nos primeiros seis meses (...).Quase todos iriam acabar antes da ninhada do ano seguinte, mas destas revoadas sucessivas tiravam os «escritores públicos» o sustento” in ibidem.
137 Segundo Rui Ramos: “ O jornal dependia do talento e desembaraço literário dos seus redatores. Em
1899, Eduardo Noronha e outro colega escreviam o noticiário internacional do Novidades de Lisboa numa hora” in ibidem.
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imprensa portuguesa, permitem estabelecer generalizações abusivas ao tomar a imprensa diária pela periódica.
O que nos trás aqui é procurar desfazer este equívoco. Não é pelo número de títulos que podemos tomar o pulso do jornalismo diário. Este constituía, uma realidade à parte.
A contínua expansão nacional de títulos de periódicos oculta uma realidade distinta da imprensa diária de Lisboa, a saber: a sua relativa estabilidade em número de títulos. Isto é, não era tão elástica quanto isso a possibilidade de criar um jornal diário em Lisboa, no início do século. Veja-se o Tabela 1, nele se pode observar que, entre 1901 e 1909138, mantém-se próximo da casa dos vinte o número de diários em Lisboa.
Tabela 1. Diários Portugueses 1901 a 1909
Localidades 1901 1902 1903 1904 1905 1906 1907 1908 1909 Lisboa 20 22 22 22 23 22 20 23 21 Porto 8 8 9 9 8 9 7 7 8 Évora 1 2 2 2 2 2 2 2 2 Coimbra 0 0 0 0 0 0 0 1 0 Setúbal 1 1 1 1 1 1 1 1 0 Angra 1 2 2 2 3 3 3 3 2 Horta 0 1 1 1 1 1 1 2 1 Funchal 2 2 2 2 2 3 3 3 3 Ponta 0 0 0 0 0 0 0 1 1 Total 33 37 39 39 40 41 37 43 39
A ideia de que os jornais “ surgiam como cardumes”139 tem de ser reavaliada.
No início do século, 64 % dos títulos da imprensa periódica eram semanais, se lhe juntarmos os bissemanais e trissemanais a percentagem sobe para 71 %. Em 1901, Portugal contava com 33 títulos de imprensa diária, 60,6 % eram de Lisboa (contra 24,4% da cidade do Porto).
138 Optámos por não incluir o ano de 1910 por o impacto do “5 de Outubro” poder distorcer a análise. 139 Joaquim Salgado, Virtudes e Malefícios da Imprensa, Porto, Portucalense Editora, 1945, p. 42.
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A imprensa não diária tinha uma característica, metade não chegava aos 500 exemplares. E se considerarmos só os semanários, 67% tirava entre 200 e 800
exemplares140. Rui Ramos considera que, na viragem do século, “este género de
imprensa devia pôr à venda cerca de 150 000 exemplares no seu conjunto, muito menos que a imprensa diária de Lisboa e do Porto”141.
Os títulos com tiragem superior a 3000 exemplares representavam, 1,9 % da
imprensa portuguesa142. Só em Lisboa e Porto se encontravam títulos com essas
tiragens, e apenas na imprensa diária destas cidades se ultrapassava a tiragem de 10.000 exemplares, apesar de outras capitais de distrito disporem de jornais de diários.
Em plena sessão do parlamento, a 19 de dezembro de 1906, o deputado regenerador liberal, Teixeira de Abreu, destacava os jornais de Lisboa da restante imprensa portuguesa: “não sou do métier (…) embora tenha já sido director de alguns jornais, e seja ainda editor, proprietário e director de algumas publicações periódicas, e autor de alguns insignificantes livros, convenho, com os grandes pensadores de Lisboa, em que ser do métier é tão somente ser jornalista na capital”143.
No período que estudamos, de 1900 a 1908, Lisboa impunha-se, desde logo, pelas tiragens dos seus jornais diários não pararem de crescer.
Em 1880, Eduardo Coelho, diretor do Diário de Notícias, apontava para uma tiragem média total de 100.000 exemplares dos quotidianos portugueses. Rui Ramos, refere que no início do século, os jornais diários lisboetas tinham triplicado a sua tiragem: “ em 1906, segundo o relatório do embaixador inglês, sete dos onze diários de Lisboa, aqueles que ele conhecia a tiragem, extraíam em conjunto 253 000 exemplares. Se atribuirmos a cada um dos outros uma tiragem média à volta de 10 000 exemplares, podemos calcular em 300 000 o número de exemplares impressos diariamente só pelos jornais da capital”. O número de 300 000 exemplares diários é intrigante, quando se sabe que a população de Lisboa rondaria os 430.000 habitantes em 1910.
Não possuindo nós documentos fiáveis sobre tiragens de jornais podemos partir do princípio que os números que dispomos estão inflacionados. A nossa dúvida ganha
140 As percentagens são avançadas por Rui Ramos in “A Segunda Fundação…”, op. cit., p.48. 141 Idem.
142 A.H. de Oliveira Marques, op. cit., p. 601. 143 Diário da Câmara dos Senhores Deputados.
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relevo quando procuramos enquadrá-la nas práticas de leitura daquele tempo. No final do século XIX , coexistem várias formas de leitura: “a leitura oral, praticada em voz alta, era ainda frequente nos grupos masculinos. Ela subsiste, quer nos círculos de sociabilidade burguesa, quer nos meios rurais ou operários. A leitura silenciosa individual, ganha, no entanto cada vez maior número de adeptos sobretudo nos meios urbanos”, e ainda, a leitura pública, “ expressão que é muitas vezes utilizada durante este período para designar leituras coletivas feitas em voz alta designadamente as que são praticadas nas bibliotecas populares”144.
É provável que, à semelhança do resto da Europa145, um jornal pudesse ser lido
por um elevado número de leitores. Que valor atribuir a estas tiragens se sabemos que a circulação destes poderia atingir níveis muito superiores à atualidade?
E veja-se como o jornal O Mundo146, em 4 julho de 1901, sob o título
Solidariedade Republicana, se queixava dos seus leitores não comprarem o jornal: “ O público republicano (…) parece ter a noção de que os jornais republicanos têm pessoal gratuito, não pagam a sua composição, não gastam com a sua impressão e não pagam o seu papel. (…). Os jornais republicanos são, é certo (…) os que têm maior extração. E, se a não tivessem, não poderiam viver (…). Mas muito maior extração podiam ter e muito maior influência podiam conseguir exercer se parte do público que deveria estar com eles mostrasse a sua simpatia por forma mais prática que pela leitura...gratuita”.
Mas podemos também interrogar-nos sobre o tipo de consumo deste produto cultural e, neste caso, não colocamos de lado a hipótese das práticas de leitura dos jornais diários obedecerem, em certos meios sociais, a uma lógica distinta da atual, isto é, poderem conter, a leitura e/ou compra de um ou mais títulos diários. E embora este não seja o objeto do nosso estudo fontes dispersas sugerem a existência de um sector de leitores que compra vários títulos diários. Por exemplo, numa reportagem de interesse humano, presente no jornal Vanguarda, encontramos uma vítima que assinava o O Século, o Vanguarda, a Folha da Tarde e o Diário Illustrado (1 de abril de 1906). No O Mundo, numa carta de um leitor deste jornal republicano, surge a referência à leitura
144 Carlos Alberto Rebelo, op. cit., p. 73.
145 Por exemplo os jornais radicais britânicos, nas décadas de 1830 e 1840, alcançavam mais de vinte
leitores por cópia, segundo James Curran e Jean Seaton in Imprensa, Rádio e Televisão, Poder sem
responsabilidade, Lisboa, Instituto Piaget, 2000., p.26.
146 Optámos nas citações dos periódicos consultados colocar apenas referência ao número de página
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assídua do Novidades (1 de abril de 1906). Em pleno governo de João Franco surge publicidade nos jornais monárquicos que apela ao militantismo republicano, é o caso do anúncio que associa António José de Almeida ao Licor Triunfo, inserto no Novidades, em 1 de abril de 1907.
Segundo Rui Ramos, em 1906, “os jornais mais vendidos eram o O Século (80 000 exemplares de tiragem diária) e o Diário de Notícias (70 000), em Lisboa”147.
Ambos bem longe da média de tiragem que ostentavam, no final da década de oitenta (com tiragens na ordem dos 20.000 exemplares).
Os números aqui avançados são tanto mais impressionantes quanto, tudo parece indicar, ser tímida a implantação nacional destes jornais. Até o Diário de Notícias era, no início do século, um jornal do concelho de Lisboa, não assumindo ainda o âmbito nacional que teria em quase todo o século XX. Em 1925, na edição comemorativa dos seus oitenta anos, pode ler-se: em 1919, “ a sua já grande tiragem era consumida quase exclusivamente em Lisboa”148; “ os exemplares do Diário de Notícias que iam para o
Porto e para o Norte (...) não excediam algumas centenas de exemplares” 149. Só em
1924 se procurara modificar esta situação, nesse ano “ o Administrador Delegado da Empresa resolveu estudar a fundo e dar-lhe solução capaz de atirar o Diário de Notícias de norte a sul do país”150.
O constante crescimento demográfico, a crescente complexificação das atividades económicas da capital, a maior diversidade social e política e a rede concelhia de transportes, explicam, pelo menos em parte, o sucesso dos jornais com vocação empresarial, Diário de Notícias e O Século. É conhecida a forma como se tende a relacionar a prosperidade do jornalismo de negócio com a dinâmica de industrialização e urbanização: “ A fase industrial da imprensa vai significar a rutura com a imprensa de elite. Aos pequenos grupos de leitores, com afinidades doutrinárias e religiosas, vão suceder os jornais “ para todos”, baseados em projetos que visam atingir toda a população alfabetizada. (…). Os processos de desenvolvimento urbano desencadeados pela revolução industrial, acompanhados pela transferência da população
147 In “A Segunda Fundação…”, op. cit., p.52.
148 Diário de Notícias, O grande jornal português, Lisboa, Empresa Diário de Notícias, 1925, p.48. 149 Idem, p.371.
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para as cidades, o surgimento de novas classes médias nos sectores dos serviços e o crescimento do operariado vão criar a necessidade de novos instrumentos de informação”151.
A larga projeção do jornal O Século e Diário de Notícias, é explicada, por Rui Ramos, de duas formas: eram jornais sem “ política definida” e “ o seu predomínio na imprensa consolidara-se vinte anos antes e iria continuar, graças à organização empresarial que tinham adquirido”152. O historiador associa o êxito destes jornais à falta
de filiação partidária e à vocação para o negócio das suas empresas. Esquece, porém, de chamar a atenção para uma característica do campo do jornalismo diário português: o surgimento de prósperas empresas jornalísticas, consolidadas pelo assinalável sucesso de vendas devido a um claro posicionamento político em conjuntura de crise, foi o que aconteceu em Lisboa, com o jornal O Século, durante a crise do Ultimato, em 1890, e no Porto, com o Primeiro de janeiro, durante a crise “ da peste”, em 1899.
Na viragem do século, seria a vez do jornal O Mundo ganhar preponderância na imprensa diária da capital. A.H. de Oliveira Marques adianta que, em vésperas do 5 de outubro, este jornal republicano quase vendia tanto como o O Século e o Diário de Notícias: “ o Mundo era um dos mais lidos periódicos portugueses, com uma tiragem
aproximando-se dos 50.000 exemplares”153. Isto é, um jornal político partidário
rivalizava com os jornais O Século e Diário de Notícias.
Rui Ramos, sem deixar de considerar que o jornal O Mundo se destacava, pela tiragem, rondando, em 1906, os 30.000 exemplares diários, explica, porém, esta vantagem, pelas distintas práticas jornalísticas dos jornais republicanos:“ O êxito da chamada «imprensa republicana» em Portugal deve-se menos ao republicanismo do que ao facto de terem sido alguns destes jornalistas radicais a fundar em Portugal a imprensa sensacionalista, que nesta época se desenvolveu em todos os países europeus”154.
Este historiador, ao remeter o crescimento de leitores na cidade de Lisboa para um campo alheio ao político, seja pela classificação dos jornais de negócio como apartidários, seja pela valorização da conotação emocional ( sensacionalismo) do jornal
151 Mário Mesquita, Teorias e práticas do jornalismo: do telégrafo ao hipertexto, Ponta Delgada,
Universidade dos Açores, 2004, p. 12.
152 In “A Segunda Fundação…”, op. cit., p.52. 153 In op. cit., p.606.
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republicano, O Mundo, tende a preservar o debate político, valorizável, como um terreno impermeável às transformações que ocorrem na imprensa diária no início do século XX.
Em contrapartida, outros historiadores optam por sínteses vagas, não discriminando jornais, ou diferentes práticas de jornalismo, remetendo para grandes períodos cronológicos, de trinta e quarenta anos, com linhas de tal forma genéricas, que pouco nos dizem sobre o debate jornalístico, na viragem para o século XX.
J. M. Sardica localiza a mudança, no último quartel do século XIX, “ desde o impulso renovador da Geração de 70 e da chegada a Portugal do jornalismo barato, noticioso, generalista, dirigido aos grandes públicos urbanos, até à transição do século, o espaço público português, nele se compreendendo as cambiantes da opinião pública e a atividade, variada, de jornalistas e jornais, sofreu uma recomposição multifacetada, de que os principais vectores foram a aceleração (mais e mais rápida comunicação) complexificação (géneros, temas e grafismos, e o alargamento de autores e públicos)”. Não deixando de salientar como dado novo: um “ espaço público e uma opinião pública em rápido processo de alargamento”. Adiantando: “ no centro da recomposição este jornalismo, tornado progressivamente «indústria cultural», na sua tripla função de informador, formador e divulgador de ideias, factos, fait-divers, modas, tendências, rumores, livros, espetáculos, personalidades e tudo o mais que preenchia a agitada vida quotidiana das multidões (…) fazendo dos jornais o melhor, mas também o pior, dos instrumentos de clarificação do debate político (…)”155.
Em nosso entender, permanece obscuro o lugar ocupado pelo jornalismo diário republicano, e em particular pelo O Mundo, no debate político, do início do século.