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Traitement à domicile des eaux destinées à la consommation

Chapitre 2 : Etude du procédé de la filtration sur céramique

2.1 Traitement à domicile des eaux destinées à la consommation

O sujeito só é sujeito quando é capaz de experimentar, em si mesmo, algo que o ultrapassa, algo que o faz, nunca ser idêntico a si mesmo. Uma experiência de des-identidade capaz de nos adoecer, mas também de nos fazer amar (Vladmir Safatle, ao analisar a obra de Lacan).

Analisaremos agora mais dois textos do Bordel. O primeiro é sobre uma exposição intersemiótica e o segundo é sobre os vinte anos da Tropicália (aproveitaremos para analisar os manifestos do grupo do Recife). Na verdade são duas críticas em escrita poética que

colocam a linguagem em crise, provocam o distanciamento e nos fazem refletir como reage JMB diante do mito sentimental.

Na vertigem dos níveis de discursos incrustados uns nos outros, em determinado ponto deste Bordel, discutem-se as conotações da palavra coração, que quando usadas, remetem a sentidos sociais e míticos nas engrenagens da sociedade, diante de existências submissas e de seu sistema de valores. Se há uma linguagem primeira que é parasitada por uma linguagem segunda, a do mito, resta inventar uma linguagem terceira, que desloque o mito (barthesianamente). Barthes acreditava, na época das Mitologias, que era mais importante e crucial desmistificar a sociedade do que celebrar o real.

Coração gravado em pedra e sangue / assim nos tempos em que se brincava, pla-to-ni-ca-mente, / de filosofia existencial e psicopatologia do cotidiano. / coração hic et nunc, aqui e agora, deflagrado. Dasein coração, ser aí, em presença, aurora e crepúsculo. Coração: o si mesmo enquanto outro? [...] coração azul e encarnado, bala de mascar entre línguas e dentes frementes [...] sempre balão de ensaio [...] ó Luizinho Costa Lima pensando, penando e respirando / nos trópicos entrópicos da crítica pelo coração acadêmico [...] versus Roberto Schwarz, corações conceituais? [...] tudo é controle do imaginário?20

Este texto expõe de forma alegórica algumas inquietações linguístico-existenciais, seu conhecimento dos recursos poéticos. Sua verve humorística, sua ternura com toque de sadismo, discute a alienação e/ou as possíveis conotações do termo “coração”. É texto que tem como base um fato que deve ser mencionado: o professor Chico Pereira montou Coração-latino-americano (exposição na Paraíba) como um “estudo semiológico, sociológico e artístico sobre a imagem do coração” e JMB comenta o referido projeto. A fragmentalidade do eu-poético, aqui observador da arte, corresponde à do real. O autor desconstrói o caráter aurático ou aureolar para substituí-lo ou multiplicá-lo pelas condições efetivas de uma participação e intervenção socializadoras, onde o “era uma vez” é substituído pelo “agora” e a totalidade do passado lança firme olhar para o presente e futuro.

Chico Pereira, segundo JMB, que se utiliza então da poeticidade crítica, trabalha os ecos da paixão segundo a mídia e além da voz centralizadora reconstrói, enquanto antiarte ou artevida um coração latino-americano sem pátria nem patrão, por exemplo na parte que exibe um coração de Jesus coração aceso, “Jesus olhando para todos os cantos”, desejos e dúvidas infantis “ na dialeticidade entre o mais próximo e o insondável”.

JMB define tal exposição como documento de cultura e ao mesmo tempo fragmento de barbárie, leitura fenomenológica de objetos (em sua pluralidade e durabilidade), fetiches,

uma antropologia de nós mesmos, enquanto singularidades e alteridades, identidades e mutações, historicidades e subjetivações. É interessante observar como ele defende a educação permanente de todos os sentidos. Aqui o artístico é tratado como situação-limite entre o fazer e o expressar-se, a individuação e a comunidade. Através da crítica JMB desenvolve o seu projeto de existencialidade, politização da cultura enquanto humanizadora. Algo que lembra a atitude tropicalista.

Já em outro texto de 1988, comentando sobre o manifesto que assinara vinte anos antes, com Aristides Guimarães e Celso Marconi (os “três cavalheiros do após-bumba-meu- borba), JMB reflete que a tropicologia freyriana (em 1966, Freyre criara o “Seminário de Tropicologia”, um fórum interdisciplinar para promover o estudo bio-sócio-cultural tropical, numa perspectiva globalizante, mas com foco no Trópico brasileiro) teria inaugurado a pós- modernidade no Norte e que, paradoxalmente, não se pode ser contra a tropicologia de Gilberto Freyre e, simultaneamente, desejar o Tropicalismo baiano. É interessante notar aqui que JMB não faz tábula rasa da sensibilidade gilbertiana. Observe-se a distinção do “logos” freyriano (tropicologia) em diferença ao “ismo” (tropicalismo). Afirmando-se bastardo e deserdado, JMB faz a crítica e a autocrítica, enlaçando-as em revisão sobre a Tropicália,

motivo de piada ou e gozação precoce, fama de frescura, cama de artista da vida, lamê de favelado, brilho de SUBTERRALAMA, jogo de entendimentos, solo urbano. Festa suburbana, negrada feroz e exultante [...] aceita e arrebenta com toda as revisões justamente porque não é revisionista [...] ninguém sabe o que é, o que foi o que será o tropicalismo [...] ninguém me ama ninguém me quer, ninguém me chama Caetano Baudelaire.21

O que o texto propõe é aceitar a cultura como linguagem do comportamento, gozo sem culpabilidade, generosidade, sem cristianismo nem comunismo, investindo em coisas “sem importância, maior ou menor, de essência ou aparência, estrutural ou epifenomenal”. Refere- se a um “materialismo dialético-existencial” nos trópicos, nas “Áfricas” e “Panaméricas”, “gramática de todos os erros”, o que lembra as propostas oswaldianas mais uma vez e também Oiticica. José Celso, Glauber Rocha e Gilberto Gil.

Com trocadilhos e intertextos, “a eterna primavera” (a da letra de Tropicália), o pensador recifense, “vinte anos dourados depois” revisa posicionamentos da época em que o manifesto Porque somos e não somos tropicalistas tomou o Recife de assalto no ano do AI-5. Lançado em 20 de abril de1968, expunha em Pernambuco as inquietações na cultura ocidental no final dos polêmicos anos 1960. O “artista de Processo”, do Rio Grande do Norte, Marcos Silva teve promovida na Galeria Varanda, em Olinda (PE), sua vernissage. Lá foi lançado o

mencionado Manifesto. Depois foi debatido na festa “tropicalista”, realizada no Bar do Alves, bairro de Encruzilhada, Recife.

Este manifesto é uma verdadeira encruzilhada de ideias, a partir do título antitético (somos e não somos) questiona a fidelidade ao regionalismo, o amor às tradições. São nove itens. Já no segundo fica clara a ruptura de JMB com o antigo professor Suassuna, que é criticado pelo seu histrionismo. O texto critica também Freyre e Hermilo Borba Filho, do TPN, Teatro Popular do Nordeste, nessa época com pequena sede na Av. Conde da Boa Vista, Recife, onde Gil se apresentou. Já a chamada esquerda festiva do “faz escuro, mas eu canto” é apontada como puramente retórico-panfletária em seus protestos. A afinidade do grupo de JMB se dá em intersecção com a Tropicália, no ponto em que esta investe e arrebenta, explode e explora os seus adeptos tanto quanto seus atacantes.

Quá, quá, quá, para os que não entendem. Somos (sem subserviência) por [...] tudo que for legitimamente NOVO [...] reconhecemos a transitoriedade (trânsito e transe) do tropicalismo, junto ao perigo de comercialização, de mistificação, de idolatria [...] abaixo o fanatismo tropicalista! Por isso, quem tentar nos apelidar, sorrindo, de tropicalistas – ou não tem imaginação, ou é dogmático, ou quer bancar o engraçadinho, ou é burro mesmo.

A referência elíptica desafiadora exibe um alto grau de inconformismo diante do painel traçado por estudiosos como Freyre, e vamos aqui separá-lo do Armorial de forma definitiva, pois este continha aspectos medievalistas que fogem à “modernidade” freyriana (sem esquecer o caráter de colonialismo que ambos espelham). Diante deles, o sujeito-poético jomardiano lembra o do personagem do jornalista poeta Felipe Vieira, no filme Terra em transe (de Glauber) em sua embriaguez existencial. A questão ideológica é discutida de modo inquietante numa linguagem que às vezes parece querer chocar, o discurso traz à tona seu caráter de encenação.

Em alguns pontos este manifesto lembra o Prefácio interessantíssimo, de Mário de Andrade, ao seu livro Pauliceia Desvairada. O “desvairismo” que aponta novas tendências e se autodestrói sem querer seguidores. Há também algo da agressividade e da ironia dadaísta / futurista. O texto propõe “a vanguarda contra a retaguarda! A loucura contra a burrice! O impacto contra a mediocridade! O sexo contra os dogmas! A realidade contra os suplementos! A radicalidade contra o comodismo! Tropicalistas de todo mundo, uni-vos!”22 A estas exclamações no final do parágrafo oito se seguem a apóstrofe e a assinatura do “professor e ensaísta” JMB, do “compositor de música popular” Aristides Guimarães e do “repórter e crítico de cinema” Celso Marconi. O que se lê no manifesto Porque somos e não somos

tropicalistas incorpora as propostas da Tropicália, de Glauber Rocha e de José Celso Martinez. Dos três que assinaram o documento, publicado no Jornal do Commercio, 20/04/68, em Recife, JMB foi o mais perseverante. Debatendo as ideias de Caetano (“a caetanave”) ainda em agosto de 2009 (por ocasião da passagem do baiano pelo Recife com show Zii e Zie).

O sujeito exposto nesta revisão tropicalista é aquele que é agência de papéis múltiplos, unificados por um viés de responsabilidade total pelos atos. Signo vivo, pleno, não simples moeda de troca. O texto dos manifestos não é descomprometido, mas texto-convite à visualização da mobilidade produzida pela arte, que não se detém diante de normas e conceitos. É reflexo da produção de um artista do seu tempo, do seu país, a enfrentar uma razão que produz monstros. O Tropicalismo (ou não) no Recife foi fruto de uma tensão entre semelhança e diferença, resistência ao nivelamento, multiplicação das redes de resistência às mitificações coletivas, através do significante flutuante, movência (à qual o próprio conceito de literatura é submetido), multiplicação de planos e estratégias. Aporia (conflito) em vez de axioma (premissa universal), no sentido que Costa Lima usa o termo: “Os discursos humanos partem de aporias diferenciadas, todas elas sujeitas a este vir de um zero arbitrado e movidas pela urgência de tempos em tempos refazer o caminho então traçado.”23 O grupo pôs à prova a capacidade da linguagem representar o pensamento em geral sem rebuscamentos. Neste manifesto a relação da linguagem com a obra é de choque.

Mas qual é o lugar de JMB entre as várias vertentes nas quais transita? Ao desdobrar o discurso alheio, ele o refaz ludicamente se apropriando de algumas ideias e combatendo outras. É como se através da poeticidade ele tentasse atingir a consciência de si e do outro. A linguagem segura as rédeas do devaneio, mas não a linguagem usual do pensamento e de comunicação. Em seu texto, o fenômeno literário investe-se de uma tessitura poética que entretece processos linguísticos com os processos do pensamento em geral. O leitor em contato com a obra jomardiana é convidado a entrar num plano experimental de imaginação, tensão conceitual, lúdica e problematizadora através do prazer do texto. Seu intertexto, sua mitologia social, seu papel crítico, de guia cultural alternativo, que ele vai retomar nos atentados até a segunda década do século XXI, por exemplo, é notável no texto sobre a exposição que professor Chico Pereira montou (Coração-latino-americano). E nesta revisão do tropicalismo tudo isto se amalgama no lugar de liberação (Bordel) em textualidade, literatura como práxis, como fazer, escrita militante, escritura onde o pensamento mantém sua responsabilidade e o sujeito-objeto (contemporâneo) não se entrega à alienação, pois sabe que

a ideologia tem o poder de se confundir com a realidade e envolvê-la em formas cotidianas, consumíveis, fantasiada de natureza.

Assinado por JMB (PE), Aristides Guimarães (PE), Celso Marconi (PE), Marcus Vinicius de Andrade (PB), Carlos Antônio Aranha (PB), Raul Córdula Filho (PB), Dailor Varela (RN), Alexis Gurgel (RN), Falves da Silva (RN), Anchieta Fernandes (RN), Moacy Cirne (RJ), Caetano Veloso (BA) e Gilberto Gil (BA), o segundo manifesto tropicalista (maio de 1968), foi lançado na Oficina 164 na abertura da individual de Córdula, um mês depois do primeiro. Posteriormente JMB seria detido pela polícia do Governo Militar, também por suas conexões tropicalistas:

O que é tropicalismo: posição de radicalidade crítica e criadora diante da realidade brasileira hoje; vanguarda cultural como sinônimo de militância, da instauração de novos processos criativos, da utilização da cultura de massa (rádio, TV, etc) com a finalidade de desmascarar e ultrapassar o subdesenvolvimento através da explosão de suas contradições mais agudas; ver com olhos „livres‟. / O que é tropicanália: atitude conservadora e purista em face da cultura e da realidade brasileira hoje; retaguarda cultural significando alheamento, de tentar dar respostas passadas, aos problemas, revelando o passado através da nostalgia, do donzelismo, do pitoresco, do cartão postal da carência de informação, contribuindo assim, para a perpetuação do subdesenvolvimento; enxergar com viseiras e preconceitos./ Além e aquém dessas posições podem existir muitas outras.24

Os ecos da pedagogia de Paulo Freire fazem-se ouvir, há também um toque benjaminiano (na utilização resultante da reprodutibilidade, utilização da cultura de massa), a conclusão que o conservadorismo significa alheamento (que este perpetua o subdesenvolvimento). Em meio a um país sem liberdade, este segundo manifesto critica a universidade e traz à tona o acordo Mec-USaid, “aprovado” por representantes da cultura oficial que se utilizavam dos cargos que ocupavam com o objetivo de promoção pessoal (os Conselhos da Cultura e as Academias de Letras).

Trata-se do gênero panfleto em plena ditadura (“país sem liberdade”), JMB foi detido e interrogado, Gil e Caetano exilaram-se em Londres, no epicentro do furacão revolucionário cultural. Foi o ano da Primavera de Praga e das manifestações em Paris que Roland Barthes observava à distância. 1968, é um ano-chave para se entender a cultura ocidental contemporânea. Recife apresentava suas armas contra uma política de subserviência aos intelectuais conselheiros, comprometidos com o poder constituído. A ideologia vista a olho nu era desestruturada pelo grupo dos Tropicalistas (ou não) em seu esquema semiológico de atuação. Neste segundo manifesto (sob o título de Inventário do nosso feudalismo cultural),

há um alerta para o segundo sentido (parasita) no discurso oficial e para o imperialismo “Mec-USaid”. O “acordo” do governo militar brasileiro com americanos obrigava, dentre outras exigências, o ensino da língua inglesa desde a primeira série do primeiro grau. Os EUA reformaram a educação escolar no Brasil diminuindo de 12 para 11 anos de estudo e fundindo antigo ginasial com o primário. Proibiram o ensino de disciplinas como Filosofia e Educação Política e diminuíram a carga horária de outras como História.

O grupo manifestante dos tropicalistas (ou não) no Recife sugere então repensar inteiramente o problema da alienação de maneira efetiva no qual a linguagem se torna o cerne da questão. Eis um ponto de intersecção com a aposta crucial para Barthes, cujos primeiros elementos aparecem em O mito, hoje (1956). Percebe-se aí o noema barthesiano (intencionalidade, estudo de todas as vivências) onde a decifração redescobre as coisas no seu “ser”. À violência desmistificadora liga-se a felicidade da escritura. Os manifestos do grupo Tropicalistas (ou não) recifense fazem frente (fenomenologicamente) à presença da “História” e afastam-se do niilismo, reducionismo, determinação, colocam em interface a ideologia e a poeticidade; poesia como sentido inalienável das coisas, que parece perguntar se o real é permeável ou não à ideologia. Com esses instrumentos críticos o grupo quer saber: quando terminarão a erudição, a desatualização, “o impressionismo gagá dos nossos suplementos literários” e também sugere a Vanguarda Poética contra críticos que não estivessem capacitados metodologicamente para julgar o novo. E incita: “Por que não „Desobedecer‟ aberta e radicalmente à censura-incompetente, arbitrária e estúpida?” E ainda propõe:

a) Por toda iniciativa de cultura „não-oficial‟, descomprometida com a política cultural dominante.

b) Pelo Poder Jovem (compreendido não apenas como um fenômeno de luta entre gerações) representado pelo movimento radical-estudantil e pelos intelectuais independentes.

c) Por qualquer movimento de vanguarda cultural (pois não queremos impor unicamente nossa posição) que se caracterize pelo rompimento com todos os padrões: morais, sociais, literários, sexuais, etc e tal”25

Sintonizada com as ideias do momento europeu, com a revolução cultural dos anos 1960, essa expressão do momento brasileiro (de um modo mais amplo envolvendo o existencial e suas ambivalências) traz no seu bojo um sentido de positividade ética contra- ideológica e tem neste Manifesto uma proposta de ação, vigilância. Só que o Brasil era dominado pelos militares e JMB seria chamado a prestar contas dos seus atos.

Há que se destacar também o Manifesto Nº 3. Sob o título “Jomard Muniz pede a reunião dos poetas putos”26, o jornal Correio da Paraíba publicou o manifesto de JMB (22/04/1993) “Porque somos e não somos pós-tudo-pós ou pop-pós-tropicalistas”, uma revisão do que fora lançado por ele, Aristides Guimarães e Celso Marconi em 1968, no Jornal do Commercio (com direito a foto dos três na primeira página, em plena ditadura militar).

O mote desta vez foi a comemoração dos 25 anos da Tropicália. O lançamento do 3º manifesto se deu no teatro Santa Rosa (João Pessoa), durante o show de Carlos Aranha. A performance de JMB foi gravada e exibida para alunos da UFPB, no Museu de Arte Assis Chateaubriand, em Campina Grande, e na UFPE, Recife. Destacam-se os itens finais (de 7 a 12):

A favor da loucura nietzscheana da poeticidade contra a mesmice da retórica messiânica [...] O sexo sempre lúdico em devires contra o dogmatismo de todas as repressões, castrações e autocensuras [...] sem a necessidade de manifestos, é preciso infestar nossa dinâmica sócio-cultural com ações culturais libertárias e libertadoras [...] poetas putos de todo mundo re-uni-vos agora e ÁGORA!

Interesante notar o paradoxo “sem necesidade de manifestos”, neste manifesto (antimanifesto?). Sem temer perigo nem ruína o bardo recifense adentra o que seria considerado de mau gosto pela elite que controla o país. As dívidas do Tropicalismo para com JMB já foram reconhecidas por Caetano e Gil (inclusive no documentário de Luci Alcântara, JMB, O famigerado, 2010). Parece que o intelectual levado por Glauber (o limite da influência de Glauber sobre JMB se daria, num dos seus vieses, no fato do segundo optar pelo urbano) a participar de Geração Mapa, continuava com o mesmo vigor (com o qual se interessou também, pelo grupo pós-poema-processo, dos anos 1960). O ser-estar-no-mundo- em convivência – com – os outros escreve-se neste novo texto-manifesto de 1993, cheio de semânticas a se desdobrar, atrás das locuções.

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