LES ONYCHOMYCOSES :
11. Traitement de l’onychomycose
A Neurociência deixa claro que o ambiente social estimula e impacta nosso cérebro e nossas memórias individuais, basilares para o exercício eficiente de nossas atividades interacionais. Isto nos leva a relembrar que o humano apenas exercita plenamente sua capacidade cerebral e intelectual a partir do momento em que consegue dominar o uso da linguagem simbólica, e isto implica sua inserção em ambiente social.
É neste ambiente que estão disponíveis objetos construídos pela humanidade e a linguagem que os expressa. Ampliamos assim os horizontes do nosso pensamento com a apreensão de significantes e significados110 com os quais nosso
cérebro e mente são inundados pelo mundo social. Nossa capacidade criativa e intelectual depende, portanto, da linguagem, porque é esta nos permite trabalhar abstratamente e compartilhar os resultados de nosso trabalho, o que sempre foi fundamental para nossa evolução, tanto individual, quanto enquanto espécie. Por
109 Considerando os avanços no campo da Epigenética e que a interação comunicativa se revela fundamental para o exercício das profissões jurídicas, que estímulos (metodologia) e conteúdos seriam mais adequados ao desenvolvimento cerebral e à memória daqueles que as pretendessem? 110 No mesmo sentido atribuído por Saussure (2006).
exemplo, mesmo que não tenhamos visto um ornitorrinco, pela linguagem podemos acessar e conhecer o “ornitorrinco-conceito”, bem como saber ele representa ou não perigo, e até mesmo “(re)conhecê-lo” se nos depararmos concretamente com um espécime.
Uma ótima ilustração disto está na análise que Eco (2007) faz da cientificidade de uma pesquisa, deixando claro que ela pode ter por objeto, inclusive, seres ficcionais, como os centauros, apenas conhecidos por meio da linguagem em suas múltiplas manifestações.
Notemos que o imprescindível balizamento e uniformização de certos comportamentos e condutas dos componentes de uma associação humana considerada em toda sua complexidade, com as diferenças e a pluralidade inerentes, somente se tornou possível em virtude da comunicação simbólica, instrumento necessário ao desenvolvimento dos raciocínios mais diversos, especialmente os associados à aprendizagem (VILA NOVA, 2000, p. 47) e à transmissão de conhecimentos, comandos etc. de indivíduo a indivíduo, de geração a geração, via experiência/convivência. É o uso da linguagem e de outras representações simbólicas neste nível e um dos elementos que distingue o humano de quaisquer outros seres vivos deste planeta (BUSSAB; RIBEIRO, 2019) que permite a própria associação humana exitosa e que conserva os fundamentos de tal êxito em sua cultura.
Desde o processo de estabelecimento de um determinado modelo de associação, passando por sua estruturação, funcionamento e conservação, até a condução de um processo de alteração, que pode ser mais ou menos radical, está presente a interação comunicativa. Esta, é fortemente afetada por nossos caracteres biológicos e culturais (como veremos adiante) e é também capaz de a estes afetar, como evidenciam a epigenética e as mudanças culturais facilmente verificáveis historicamente.
Sem embargo da controvérsia existente111 entre a incidência do que se
convencionou chamar no campo da Biologia de “período crítico”112 à aquisição da
linguagem, os diversos estudos existentes, ainda que controversos, sugerem um ponto de convergência: o de que o fornecimento de estímulos externos ao cérebro por ocasião de seu desenvolvimento biologicamente natural contribui indiscutivelmente para a aquisição da linguagem e o desenvolvimento de quaisquer outras habilidades113 e competências humanas114, especialmente porque esta está
diretamente relacionada com o desenvolvimento da memória e da associação entre os componentes desta, o que lastreia a criatividade.
Os efeitos da privação de um ambiente social com condições adequadas de interação e desenvolvimento, onde se aprenda e se pratique a linguagem, se fazem sentir inequivocamente, como bem ilustram os casos de crianças isoladas de exposição linguística normal cujos dados foram analisados por Lima Júnior (2019, p. 229-234).
Trata-se de casos de jovens que, por algum infortúnio (perversidade humana, engano ou acaso), foram encontrados nessa situação (receberam alcunhas pelas quais são conhecidos no meio acadêmico). Aqui apresentamos algumas colocações representativas de nossa afirmação, constantes da análise de Lima Júnior (2019):115
111 Como exemplo ilustrativo, podemos apontar os trabalhos de: a) França e Lage (2013, p. 301, grifos nossos), favoráveis à hipótese de incidência sobre a aquisição da linguagem, nestes termos: “Entende-se hoje que sistemas cognitivos como a visão, a audição e a linguagem estão atrelados cada qual ao seu Período Crítico, ou seja, a um momento específico de um grande
desenvolvimento neuronal, mediante o contato com o meio.”; e b) Lima Júnior (2013, p. 237, grifos
nossos), desfavorável, nestes termos: “Consequentemente, os dados disponíveis sobre a influência da idade de acesso à língua nativa no processo de aquisição indicam que, apesar de um início tardio
certamente interferir na competência linguístico-comunicativa a ser adquirida (em diferentes graus), não há como provar a existência de um período crítico, biologicamente definido, a partir do
qual absolutamente nenhum aspecto linguístico possa ser adquirido.”.
112 Intervalo temporal em que um organismo deve adquirir certa capacidade ou competência para realizar uma atividade essencial ao seu comportamento natural.
113 Como capacidade de alguém realizar bem uma ação, relacionando-se ao “saber fazer não inato” (desenvolvido), as habilidades são necessárias à competência, mas não são suficientes, porque necessita a competência da conjugação de outros recursos, além das habilidades (MORETTO, 2014, p. 80-81).
114 No sentido atribuído por Moretto (2014, p. 70), competência é a condição que alguém possui para fazer algo complexo bem feito, ou nas palavras de Perrenoud (2000, p. 15, grifo do autor): “[...] capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar um tipo de situações [complexas] [...]”; daí as competências serem algo que se desenvolve e não algo que se
alcance. Exemplos de recursos cognitivos são apontados por Moretto (2014, p. 80), tais como
conhecimentos, habilidades, linguagens, vivências e outros.
115 O número das páginas é apresentado logo após cada citação, e, optando por privilegiar a comodidade de leitura, não empregamos as normas técnicas para as citações longas existentes.
a) Genie, uma menina estadunidense que, desde 1,6 anos de idade, não teve nenhuma interação/acesso a língua e contava 14 anos quando foi retirada desta situação – “[...] A sua ordenação de palavras se assemelhava à de uma criança de dois anos de idade (e.g. ‘another house have dog’), assim como sua cognição, após uma bateria de testes psicológicos. Sua fala permaneceu agramatical apesar de ter recebido intensa atenção, carinho, tratamento, instrução e exposição ao inglês.” (p. 230);
b) Victor, um menino francês cuja idade estimada era algo entre 11 e 12 anos de idade, e que, após cinco anos de trabalho de seu tutor em busca da tentativa de ensinar-lhe a língua francesa, apenas aprendeu – “[...] a reconhecer a escrita e a produzir com seus cartões nomes de objetos, alguns adjetivos (como quente e frio, grande e pequeno) e alguns verbos (como comer, beber, tocar e jogar)”, até que morresse, ainda mudo (p. 231);
c) Chelsea, que quando criança foi erroneamente diagnosticada com retardo mental, quando na verdade era surda, não tendo recebido qualquer tipo de atenção especial, além de carinho, até os 31 anos de idade, quando foi feito o diagnóstico correto (a surdez foi corrigida com aparelho) – “Apesar de ter desenvolvido boa compreensão da língua e adquirido um bom número de palavras, sua pronúncia e sintaxe eram ainda piores do que as de Genie. A sua fala não demonstrava nenhum tipo de sistematicidade na ordem das palavras. [ ] exemplos de sua produção, tais como ‘the small a the hat’, ‘orange Tim car in’, ‘I Wanda be drive come’, ‘coming hair the boy’, ‘breakfast eating girl’ entre outros [...]” (p. 231-232); e
d) Pedro e João, meninos brasileiros que, quando deixaram sua situação de isolamento linguístico, contavam respectivamente 14 e 8 anos, ambos muito desnutridos e sendo tratados como animais (viviam em uma espécie de pocilga) – “[...] Ao serem retirados do cativeiro, os meninos não falavam nenhuma palavra, apenas emitiam grunhidos. Hoje o caçula, João, é mais comunicativo e ativo do que Pedro, que ainda apresenta mutismo e sérios problemas de interação social. Vale
salientar que, quando os meninos foram abandonados no curral, Pedro já tinha entre seis e sete anos de idade e, possivelmente, já teria adquirido alguma linguagem.” (p. 234).
E, se a privação da linguagem tem efeitos deletérios incontestáveis sobre o desenvolvimento cerebral e integração social, a privação de determinadas formas de linguagem pode perfeitamente resultar em modificações tanto na estrutura quanto no
funcionamento do cérebro, o que Carr (2011) ressalta, situação que pode variar no
ambiente social conforme variem as categorias e/ou grupos sociais e o tempo pelo qual tais diferenciações são cultivadas.116
Relembremos: a aprendizagem em geral, inclusive da linguagem, depende da memória, e esta, se liga à repetição. Nesse sentido, vale lembrar Martins (2016, p. 109):
Intimamente associada à hipótese sobre a existência de um período crítico para a aquisição linguística monolíngue (Lenneberg, 1967 [1975]), cuja assunção de fundo (i.e., a de que a privação de input linguístico na infância compromete o processo de aquisição e desenvolvimento linguísticos, naturalmente dependentes do amadurecimento, por estimulação recorrente, das estruturas neurológicas que o suportam) parece hoje mais do que confirmada [...].
Podemos notar que o processo evolucionário humano é permanente e se dá no transcurso dos milênios. Ao longo dele, existiram momentos de alta relevância, verdadeiramente revolucionários, como observa Ornstein (1998, p. 12, grifos nossos) ao lembrar que houve “[...] uma revolução biológica no instante em que assumimos a posição ereta e, bem depois, [ ] uma revolução cognitiva quando começamos a escrever e utilizar o alfabeto.”, sem desconsiderar que mesmo as “[...] pequenas diferenças acumuladas, podem se tornar grandes diferenças [...]” (ORNSTEIN, 1998, p. 14).
Segundo Jaeger (1989, p. 3), apenas o humano, valendo-se de comunicação simbólica, conserva e propaga (e, acrescentamos, modifica) uma forma de organização que tenha inventado a partir da vontade e da razão, o que reduz a primazia e a essencialidade de sua herança genética (e suas experiências e vivências
116 Relembremos: a aprendizagem em geral, inclusive da linguagem, depende da memória, e esta, se liga à repetição. Nesse sentido, vale lembrar Martins (2016, p. 109, sic.): “Intimamente associada à hipótese sobre a existência de um período crítico para a aquisição linguística monolingue (Lenneberg, 1967 [1975]), cuja assunção de fundo (i.e., a de que a privação de input linguístico na infância compromete o processo de aquisição e desenvolvimento linguísticos, naturalmente dependentes do amadurecimento, por estimulação recorrente, das estruturas neurológicas que o suportam) parece hoje mais do que confirmada [...]”.
diretas), como se dá no caso dos demais animais, e realça a relevância da razão e da dinâmica social.
E, como ressaltam Berger e Luckmann (2004, p. 96-97), em princípio, qualquer sistema de sinais serviria, mas resta claro que o linguístico foi e é decisivo, posto que permite objetivar e partilhar experiências e conhecimentos dentro da comunidade linguística, porque reúne condições de os transformar em conteúdo por todos capaz de ser (re)conhecido quando o sistema linguístico empregado na sociedade ou no grupo social específico é dominado pelos membros da comunidade, e é isto que torna acessível as mensagens e o acervo de conhecimento em questão.
Em síntese, podemos acrescentar a tudo que já foi dito em relação à diferenciação das associações humanas face às de outras espécies, o fato de que nestas últimas a estruturação associativa e o agir dos indivíduos provêm essencialmente dos instintos (ordem interior e mais subjetiva), enquanto que nas primeiras, sem que sejam totalmente afastados os instintos, provêm essencialmente da dinâmica social (ordem exterior e mais objetiva), tendo em vista a teia de interações e relações sociais que sustenta imposições ou proposições advindas do meio coletivo (normas de conduta social, com destaque para o Direito), sendo a linguagem simbólica fundamental para que isso ocorra (DURKHEIM apud LALANDE, 1999).
Isto reforça as evidências de que a capacidade de desenvolvimento cognitivo e de práticas sociais interativas e capazes de levar à socialização dos indivíduos está naturalmente ligada às particularidades do ambiente em que se inserem e no qual se realiza o processo de aprendizagem linguístico, até porque, a tradição cultural, que envolve conhecimentos técnico-científicos, religiosos, normativos etc., necessita de linguagem tão mais complexa quanto mais avançado for seu conteúdo,117 e tudo isto,
só é possível, tanto no plano individual, quanto no plano social, pela memória. E mais uma vez, a neuroplasticidade mostra-se ponto fundamental a ser compreendido e considerado por todos aqueles que se interessam pelos estudos ligados ao aprendizado, à cognição e ao uso da razão.
Kandel (2009, p. 25) corrobora nossas considerações ao ressaltar que, embora não se tenha observado alterações significativas no tamanho e na estrutura cerebral
117 Atentemos para os desdobramentos advindos no plano da neuroplasticidade e da seleção cerebral sob a perspectiva de Alexander (1990), a qual permite afirmar que quanto ricos qualitativamente forem os estímulos provenientes do ambiente social, mais a neuroplasticidade responderá a isto, adaptativamente.
humana desde a identificação da espécie Homo Sapiens há cerca de 150.000 anos, a capacidade de aprendizagem e sua memória histórica cresceram ao longo de todo esse período em razão da aprendizagem partilhada118. Daí podermos inferir
que a evolução cultural e a evolução biológica se confundem na base de sustentação e de perenidade do processo de transmissão de conhecimento do passado e o desenvolvimento de comportamentos adaptativos ao meio social.
A dinâmica social contínua e incessante, potencializada pela capacidade humana de adentrar ao mundo conceitual (linguagem simbólica) – criando palavras para objetos que reconhece como pertencentes a uma classe –, é que permitiu nos comunicarmos e pensarmos de modo muito mais abrangente, eficiente e complexo (relembrando, podemos falar e aprender sobre ornitorrincos sem nunca os ter visto).
E é por conta disso que conseguimos armazenar nossos conhecimentos e realizar grande parte de nossas operações mentais, dentre as quais elaborar e definir os conhecimentos, comportamentos, costumes, usos, código comunicacional e saberes em geral a serem compartilhados, de geração a geração, via interações comunicativas, o que depende diretamente de nossa capacidade de memorização.
Interessante ressaltar com Guimarães (2003, p. 48) que considerado o espaço de enunciação, uma língua (código comunicacional) funciona conforme sua relação com os falantes, que “[...] não são tomados enquanto indivíduos psicologicamente. Os falantes são caracterizados histórico-socialmente pelo modo como são tomados pelas línguas (e pelas divisões que a constituem) e assim se distinguem lingüisticamente.”, no sentido de que as línguas preexistem aos falantes que ingressam no espaço de enunciação.
No tocante à memória individual, segundo Candau (2016, p. 22-23), sob a perspectiva antropológica ela é constituída:
a) pela memória de baixo nível ou protomemória, o rol de saberes, experiências e conhecimentos “[...] mais resistentes e mais bem compartilhados pelos membros de uma sociedade [...]” (CANDAU, 2016, p. 22), o que se afiguraria como uma “memória social incorporada” ao longo do tempo e dos relacionamentos sociais, sem que existam julgamentos de nossa parte, mas que por força da transmissão social e que “[...] ‘nos ancora em nossas práticas e códigos implícitos’, costumes introjetados ‘no espírito sem que neles se
pense’ ou sem que disso se duvide, traços, marcas e condicionamentos constitutivos do ethos119 e mesmo alguns aspectos jamais verbalizados.”
(CANDAU, 2016, p. 22), o que nos levaria aos hábitos e costumes acriticamente exercitados pelos indivíduos, sem questionamentos sobre seus fundamentos, pertinência ou conveniência;
b) pela memória propriamente dita ou memória de alto nível, que é uma memória de recordação ou reconhecimento (e também de esquecimento), que é exercitada a partir da evocação voluntária e deliberada ou de invocação involuntária, de lembranças de vivências pessoais ou de conhecimentos gerais, tais como saberes, crenças, sensações, sentimentos etc. (CANDAU, 2016, p. 23), por exemplo, a partir de correlações traçadas entre estímulos externos e objetos que jazem em nossa memória, como no caso de um perfume que nos faz lembrar de uma certa pessoa;
c) pela metamemória, que a um só tempo se afigura como representação feita
pelo indivíduo de sua própria memória (conhecimento dela) e também como aquilo que este indivíduo diz dela, o que explicitaria sua identidade individual
(CANDAU, 2016, p. 23), como se fosse uma espécie de reivindicação que o indivíduo faz do conteúdo mesmo de sua memória e no qual acaba por permitir que se ancore a sua identidade.
No tocante à memória coletiva, Candau (2016, p. 24) reconhece que não há possibilidade de se adotar o estatuto acima, vez que um grupo não é capaz de ter uma memória procedural ou ser considerada a faculdade da memória em si, como é o caso da protomemória e da memória de alto nível, mas tão somente, uma representação desta, de modo que “[...] apenas a eventual posse de uma memória evocativa ou metamemória pode ser pretendida [...]” em relação à memória coletiva.
Vale ressaltar que a memória coletiva, nesse sentido, atualmente se consubstancia fundamentalmente nos acervos tecnologicamente estabelecidos, como bancos de dados de toda ordem, não porque a tradição oral tenha sido “ultrapassada”, e sim, porque os conteúdos a serem transmitidos e conservados e os interlocutores neles interessados se ampliaram e se especializaram a um ponto que seria impossível realizar satisfatoriamente a transmissão oral, até porque os limites físicos desse
119 Como o amálgama de formado pelo cultivo (cultura) de costumes e hábitos característicos de uma coletividade em um determinado tempo e lugar, e que reflete na estruturação e funcionamento desta coletividade.
compartilhamento se dissolveram com a tecnologia: o que é produzido no oriente é facilmente acessado do ocidente via Internet, por exemplo; contudo, mantiveram-se as limitações de especialização temática, pode-se dizer.
À memória coletiva podemos referir sem errar somente a possibilidade de existência de uma memória evocativa “concertada”, construída pelos indivíduos a partir do conteúdo circulante oralmente e constante das bases de dados a que tenham acessado, e de uma metamemória, elaborada como consciência dos membros da coletividade daquilo que consta de seus “arquivos” e de como eles os “analisam”, julgando-os e categorizando-os, por exemplo, de acordo com seu acervo de conhecimentos, vivências, valores e interesses pessoais.
Portanto, é normal que os membros de uma sociedade, dotados de memória e identidade individuais,120 discordem ao longo de sua convivência social quanto a um
imenso número de coisas, inclusive quanto à finalidade que deve orientar a sociedade política que integram. E, ainda que haja consenso quanto a tal finalidade e objetivos sociais in abstracto, poderá haver, por exemplo, discordância quanto aos métodos ou ritmos empregados para sua realização: o que cada um deve ou não deve fazer? O que pode ser feito? Como pode ou deve ser feito? O que deve ser evitado? Como deve se manifestar o conjunto? Etc.
As decisões referentes aos questionamentos anteriores, se considerarmos que devam ser tomadas em uma democracia, o serão inequivocamente a partir da interação e do diálogo devidamente institucionalizados e travados em um ambiente relacional. Isto implica existência de comunicação contínua e eficiente, intersubjetiva e/ou intergrupal, a qual exige exercício contínuo da racionalidade para, dentre outras ações, interpretar o Direito Positivo, as mensagens dos sujeitos ou grupos à luz deste, bem como compreender seus posicionamentos com base nos conhecimentos, interesses e valores que os envolvidos tenham como desejáveis e que se definem a partir do acervo de lembranças que compõem a sua memória.
Acontece que a dinâmica do ambiente social humano se caracteriza por crescentes, abundantes e profundas especializações em variados campos, do ideológico ao técnico-científico, tendo em vista os avanços do mundo conceitual, e tudo isso, sobre o solo das diferenças e da pluralidade de seus indivíduos.
120 Essa condição é reforçada biologicamente pelos mecanismos da meiose das células germinativas e da neuroplasticidade e seus reflexos no comportamento humano, nos moldes a que já nos referimos.
As especializações citadas apresentam desdobramentos de várias espécies, e, no que se refere à estruturação e funcionamento social, podemos citar como altamente relevantes a formação de grupos sociais (muitas vezes institucionalizados), o estabelecimento de códigos comunicacionais específicos e a manutenção de código comunicacional comum a todos,121 capaz de permitir a
consistente e contínua busca pelo equilíbrio, estabilidade, paz e desenvolvimento capazes de garantir a sobrevivência da espécie, especialmente no que tange a solução de conflitos afeta ao Estado.122
A análise deste contexto nos permite inferir que os grupos sociais se caracterizam por algo mais do que a aglomeração de pessoas fisicamente próximas. Em realidade, conforme Vila Nova (2000, p. 128-129), consistem em um fenômeno de natureza muito mais intermental do que material, marcado pela existência de relações interpessoais estáveis e continuadas entre seus membros, estabelecidas em razão do compartilhamento de objetivos e interesses comuns;123 assim é porque, mesmo que
haja afastamento físico em dado momento ou que este exista pelo contexto social em que os indivíduos que os compõem exerçam seus papéis, sua continuidade e identidade social ou coletiva124 se mantêm em razão da permanência da consciência
por parte de cada um de seus integrantes dos laços de união identificadora e
diferenciadora dos demais grupos sociais e do sentimento de pertencimento ao grupo.