C. Abcès du foie à pyogènes
IV. COMMENTAIRE ET DISCUSSIONS
4.5. Traitement
É por intermédio de José Bento Monteiro Lobato (1882-1948)37, homem branco, amante dos EUA, fazendeiro falido, ateu, progressista, editor, tradutor, escritor irreverente e visionário que a literatura infantil brasileira ganha notoriedade e se consolida como gênero no início do século XX.
Sonhador e ambicioso, Lobato sabia muito bem o que almejava: tornar-se um autor bem- sucedido e para isso deveria chegar nas escolas – adequou-se às exigências pedagógicas da época e reformulou sua obra prima, A menina do narizinho arrebitado (1920), tornando-a escolar, mas com substancial rupturas – o conteúdo passa de didático a lúdico, sob o título
Narizinho Arrebitado (1921), para ser adotado pelo governo paulista como livro de leitura38. Acreditava e confiava tudo o que tinha no livro, na leitura e na literatura. Sua editora, Monteiro Lobato & Cia, já representava na década de 1920 o maior parque gráfico da América Latina. Foi o autor de Urupês (1918), Cidades Mortas (1919) e Negrinha (1920), suas primeiras obras para adultos, que pensou também num sério sistema de distribuição de livros que atendesse o maior número possível de pessoas, um sistema inovador que incluía lombo de burro, barco e trem (SANT’ANNA, 2010, p. 10), alcançando banca de jornais, papelarias, drogarias e armazéns (p. 320) e transformando a vendagem de livros das poucas livrarias – algo em torno de 30 à época, para mais de 2 (dois) mil pontos de vendas de livros no país. Uma revolução editorial e livreira.
É a partir de Lobato que as novas narrativas rompem as convenções estereotipadas e passam a fazer parte do cenário literário infantojuvenil brasileiro, possibilitando o público refletir sobre cada tema abordado. O didatismo foi perdendo força e a realidade revestida de fantasia ganhando cada vez mais o leitor. Diversos elementos presentes no conjunto da obra lobatiana, tais como o humor, a ironia, a transgressão etc. serviram e servem de modelo para os novos autores, como afirma Zilberman (2003, p. 169) “é nessa estreita faixa de terreno – o imaginário, constituído entre o real e a fábula escapista; o realismo decorrente do verossímil, entre a reprodução da sociedade e sua abolição completa – que circula sua obra literária dirigida à infância”.
Assim, a nova produção literária infantil brasileira começa em pleno início do século XX sob a ebulição social da década de 1920, com a industrialização e a urbanização do país em
37 Sobre a importante contribuição de Lobato para a literatura infantil, confira, p. ex., Belo (2014); Lajolo e
Ceccantini (2009).
38 Arroyo (2011, p. 294) diz que foram impressos 60 mil exemplares dessa obra numa só edição para atender às
evidência, sob as reinvindicações do movimento Modernista, que disputava espaço com o
tradicionalismo impregnado na sociedade. A luta por uma identidade nacional não podia
permitir ideias já desgastadas do Romantismo e do Realismo pelo qual a sociedade passara, mas sim a procura incessante por uma autêntica literatura nacional, como revelam os trabalhos de pesquisa de Mário de Andrade, p. ex.. Nesse sentido, diversas outras reinvindicações foram feitas, em diversas áreas, como o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), que exigia sérias reparações na área da educação.
Se a época de Monteiro Lobato fora uma época pródiga, não se pode dizer o mesmo das décadas seguintes, houve uma total estagnação no campo literário infantojuvenil brasileiro nas décadas de 1930 a 1960, predominando as obras clássicas traduzidas e adaptadas, além das obras lobatianas, que foram nesse período condenadas e censuradas em diversos colégios de ordem religiosa sob a acusação de serem perniciosas à formação das crianças (COELHO, 1991, p. 247). Assim, voltam-se os livros de cunho puramente didático para leitura das crianças e dos jovens.
Apesar de na década de 1950 surgirem alguns importantes trabalhos artísticos voltados às histórias em quadrinhos e ao teatro infantil, tendo respectivamente as obras de Walt Disney e Maria Clara Machado como melhores representantes, surge a crise de leitura no país, gerada pelos meios-de-comunicação-de-massa, que impacta diretamente a dinâmica social não só das crianças, mas de toda a sociedade.
Em 1965 inicia-se os grandes Festivais da Música Brasileira, marcando uma geração de artistas. É nessa época que a nossa Música Popular Brasileira - MPB ganha reconhecimento internacional; e através da música, o Brasil chama a atenção dos críticos em diversas outras áreas, mesmo diante da Ditadura Militar que dominava o país. Durante esse período, a LIJ resistiu à censura e serviu de escape para os artistas mostrarem sua luta social39.
Segundo Coelho (1991, p. 259), a mesma explosão que se dá em 1960, na área da MPB, acontece com a Literatura infantojuvenil em meados de 197040, sendo alguns dos nossos autores
39 As obras de LIJ publicadas à época criticam e problematizam o modelo autoritário imposto pelos militares; obras
como História meio ao contrário, de Ana Maria Machado, de 1978, que rompe com o essencialismo, com a ordem “natural” das coisas, com a forma de viver e ser impostas pelos outros.
40 Nesse cenário, é importante destacar o significativo trabalho desenvolvido pela revista Recreio, da Editora Abril,
que, à época, reunia autores especificamente para produzirem textos direcionados às crianças e jovens, textos que representavam uma literatura infantil brasileira original. Esses textos eram encomendados para a circulação semanal da revista, que chegou a vender 250 mil exemplares semanalmente, conforme relata Ana Maria Machado (1996, p. 60); depois, em livros, dando sequência a uma série de obras e autores, como Bartolomeu Campos Queirós, Ganymedes José, Ziraldo, Ruth Rocha, Joel Rufino dos Santos e a própria Ana. Outro grande expoente foi o papel desempenhado pela Editora Ática, que durante essa década criou a série Vaga-Lume, lançando mais de 70 livros diferentes voltados para o público juvenil. Autores como Maria José Dupré, com seu A ilha perdida, Lúcia Machado de Ameida, com O escaravelho do diabo, Marcos Rey, com O mistério do cinco estrelas, O rapto
reconhecidos internacionalmente mediante prêmios e traduções de seus trabalhos. Até que a consagração de Lygia Bojunga Nunes (nascida em 1932), em 1983, repercute e abala o mercado editorial brasileiro, que inicia uma avalanche de publicações de diferentes autores e diferentes temas, firmando a LIJ brasileira na história literária mundial.
Lygia recebeu, pelo conjunto de sua obra, o maior prêmio literário do gênero, o Hans Christian Andersen, de 1983, considerado o Nobel da Literatura Infantil. Posteriormente, mais dois autores receberam esse prêmio, Ana Maria Machado (nascida em 1941), em 2000, também pelas obras publicadas, e Roger Mello (nascido em 1965), em 2014, pelo conjunto de suas ilustrações. O prêmio é concedido a cada dois anos pela International Board on Books for Young People (filiada à UNESCO) para escritores e ilustradores vivos.