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VII. Examens paracliniques :

4- Traitement chirurgical : 1 Lithiase asymptomatique :

A vida dos homens que atravessam crises revolucionárias é toda feita, igualmente, de revoluções pessoais. Só quem haja acompanhado, dos primeiros movimentos a seus últimos refluxos, os torvelinhos de uma época crítica, poderá conhecer e avaliar os abalos que a desordem geral vem produzindo em nossos destinos (Alberto Torres, 1982, p.10).

Um conceito importante em nosso trabalho é o de geração, bastante utilizado na área de história intelectual. Contudo, embora tenha se revelado “instrumento eficaz no estudo dos itinerários e dos movimentos intelectuais”, trata-se de um conceito complicado, já que se predispõe a múltiplas aplicações, cobrindo “um campo semântico extenso e impreciso, podendo ser empregado tanto em sentido puramente bio-sociológico (de faixas etárias), como em sentido político-ideológico (por exemplo, de engajamento político e de militância)”, como em acepção cultural (por exemplo, a nouvelle-vague) (Silva, 2003, p.22-23).

Spitzer (1973, p.1353-1385) apresenta uma boa síntese da história do conceito que, como ele nota, embora importante e útil, é escorregadio e polissêmico. Segundo esse autor, a maioria dos estudos sobre gerações segue as indicações de autores pioneiros como Ortega y Gasset e principalmente Karl Mannheim. Esses autores distinguem entre gerações identificadas através de sucessões familiares (cadeia biológica) e gerações concebidas como grupos de contemporâneos, de idades semelhantes, cuja experiência compartilhada os distingue significativamente dos outros grupos de idade da mesma época. Os historiadores costumam ainda adicionar um adjetivo ao grupo, qualificando-o como geração intelectual, literária, política, operária, etc., o que aumenta o foco na aplicação do conceito. Essa

especificação corresponde ao conceito de “unidade geracional”33 de Mannheim, referindo-se a grupos que, dentro de uma mesma geração, trabalham de formas diferenciadas as experiências coletivas compartilhadas. Todavia, segundo Spitzer, vários autores têm colocado sérias objeções à utilização desse conceito. O problema central apontado está na sua definição, particularmente nos limites que diferenciam uma geração da outra, já que “pessoas nascem a cada segundo”. Spitzer responde à essa objeção lembrando que se trata de uma questão existente para qualquer tentativa de estabelecer categorias dentro de um contínuo. Para ele, sempre que se desconfie que existam diferenças significativas relacionadas a grupos etários, não há o menor problema em recortar esses grupos e verificar se seu comportamento coletivo e sua relação com outros grupos contribuem para o entendimento e a análise histórica. Portanto, em sua opinião, muito mais produtivo do que perguntar quanto tempo dura uma geração, ou quantas gerações normalmente coexistem, é perguntar se, e em que aspectos, diferenças etárias importam em uma dada situação histórica. É por isso que, segundo esse autor, a maioria dos estudiosos se baseia em Mannheim e sua clássica formulação, segundo a qual o fenômeno social da geração representa um tipo particular de identidade de local, que abrange grupos etários inseridos em um dado processo histórico social. Para Bomeny (2001, p.12), é “a dimensão de compartilhar socialmente experiências o que confere significado especial à formulação mannheimiana”.

Assim, Silva (2003, p.22-23), nota que “quando uma faixa etária intelectual se depara com determinados acontecimentos marcantes”, como golpes de Estado, revoltas e guerras, esses imprimem geralmente “uma marca comum, inevitável, nas sensibilidades, provocando uma mesma percepção e aspiração em relação a esses acontecimentos”. Porém, para partilhar experiências de vida e formas de pensamento semelhantes não é suficiente viver em um mesmo espaço de tempo, daí a importância do “critério sociológico disposicional”

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acrescentado por Mannheim. É o que esse autor chama de “laço geracional”, que “depende de um conjunto de afinidades, de sensibilidades comuns, herdadas e vivenciadas, capazes de condicionar o sentimento de partilha de um mesmo destino” (ibidem). Dessa forma, “pertencem, então, a uma ‘mesma geração’ todos aqueles que, tendo vivido, simultaneamente, as mesmas experiências coletivas, tendo sofrido o efeito direto dos acontecimentos, tendo tido o sentimento de serem contemporâneos a esses mesmos acontecimentos”, adquiriram uma sensibilidade comum, uma visão de mundo parecida, com semelhanças (ibidem). Um último aspecto do conceito de geração é ainda destacado por Silva (ibidem): é que, em sua dimensão histórica, ele privilegia e reforça a idéia de mudança, de ruptura. Nesse caso, seu emprego tem função comparativa, ou seja, “ele é o elemento que introduz o contraste temporal”.

E é a partir dessa perspectiva que entendemos e utilizamos, em nosso trabalho, o conceito de geração: relacionado principalmente ao sentido de uma vivência coletiva comum. No sentido de grupos de pessoas, de idades mais ou menos próximas que, em determinado local, compartilham certas experiências e sensibilidades comuns, que os diferenciam dos outros grupos, anteriores ou posteriores. Isso não significa, de modo algum, ignorar a diversidade e a pluralidade presente em uma mesma geração. Quando falamos que dentro das histórias das idéias no Brasil é possível distinguir uma geração de 1870 ou a geração nacionalista dos anos 20, não queremos apagar as diferenças reais e significativas existentes entre Joaquim Nabuco, Silvio Romero e José Veríssimo, por um lado, e Roquette- Pinto, Alceu Amoroso Lima e Oliveira Vianna, por outro. O que queremos dizer é que essas gerações partilham uma experiência espaço-temporal comum, gerando sensibilidades e aspirações semelhantes em relação a determinados aspectos e temas. O que percebemos, no caso da geração republicana das décadas de 20 e 30, por exemplo, é que, mesmo que seus

diagnósticos e terapias variem, ela possui uma agenda comum, uma mesma gramática (que

escritos sociais e políticos). Uma gramática que é essencialmente política, pois tem como pano de fundo projetos concretos de nação e a vontade e a intenção desses homens de intervirem efetivamente nos destinos desta. Essa questão será explicitada mais à frente.

2.2 A geração de 1870

As últimas décadas do século XIX no Brasil foram de grande transformação, social, política e econômica. Momento de grande dinamismo econômico, urbanização e industrialização, enquanto o sistema escravista agonizava e emergiam novos setores urbanos, expressando novos interesses e perspectivas (Mota, 2000, p.23). Ao mesmo tempo, as transformações esbarravam, no campo político-institucional, “no edifício imperial inabalável, posto que carcomido, gasto, obsoleto” (ibidem, p.27). Uma das conseqüências desse quadro será um processo de diversificação dos intelectuais brasileiros, que até então possuíam um perfil bastante homogêneo em termos de formação e carreira, vinculando-se de forma mais ou menos direta às elites econômicas (Schwarcz, 2001, p.24). Ocorre então uma progressiva diferenciação regional, profissional, de formação e mesmo sócio-econômica. Ao mesmo tempo, há uma grande dinamização das atividades intelectuais no país, incluindo crescimento na edição de livros e periódicos e o aumento dos espaços próprios, como academias literárias, faculdades, institutos e museus. Para Mota (2000, p.24), essa efervescência indicava os esforços da inteligência para compreender as novas direções que a sociedade parecia trilhar. A década de 1870 constituem um marco na renovação intelectual brasileira, consagrado pelos diferentes estudiosos, todos vendo “nela uma década de inovações, o começo de uma nova era” (Schwarcz, 2001, p.27). Movimento que está associado a um quadro maior de renovação científica e cultural que atingia o mundo ocidental, relacionado à expansão do capitalismo e ao grande desenvolvimento da ciência e da técnica (Mota, 2000, p.25-26). Trata-se de um tempo de certezas científicas e crença no progresso, no qual “ciência” significava poder e

progresso. A nova mentalidade era o cientificismo e acreditava-se possível aplicar a todos os ramos do conhecimento o princípio de identificação das regularidades, de modo que o mesmo determinismo que regia os movimentos dos astros governaria os fenômenos sociais (ibidem).

Assim, no Brasil, a partir dos anos 1870, um conjunto diversificado de escritores, conhecidos como a Geração de 70, promoveu uma grande renovação no nosso cenário intelectual. Foram influenciados por aquilo que foi chamado então de “um bando de idéias novas que se esvoaçam no ar” – como positivismo, liberalismo, darwinismo, evolucionismo, crítica religiosa, naturalismo, cientificismo, folclore. Autores como Comte, Darwin, Buckle, Haeckel, Spencer, Littré, Noiré, Taine e Renan se tornaram referências obrigatórias, substituindo Cousin, Maine de Biran e Jouffroy (De Luca, 1999, p.21). Novas doutrinas que, “baseadas em uma cosmovisão laicizada, forneciam as chaves para a compreensão do mundo material e social” (ibidem). A filosofia oficial, conhecida como filosofia eclética ou “ecletismo espiritualista” – que combinava uma filosofia secular com elementos religiosos –, predominante até então, passa a sofrer ataques de todas as partes (Paim, 1967, p.125-127). De acordo com Paim (ibidem), já havia, desde bem antes dos anos 70, manifestações isoladas de inconformismo com a doutrina eclética e de conhecimento de autores como Comte, Renan e outros. Todavia, “o toque de alarme havia que partir da arena política”, na medida em que o sistema de idéias que se passou a combater se enfeixava nas mãos da monarquia e nos instrumentos que lhe serviam de suporte (ibidem).

Desse modo, segundo Paim (1967, p.126-127), “a mocidade acadêmica e os círculos intelectuais, por todo o país, adotam o que se poderia denominar de espírito crítico”, através do qual propagam-se autores e idéias que se tornam simpáticos desde de que pudessem nutrir o inconformismo. Manifestações do novo estado de espírito são registradas na Bahia, no Ceará, em São Paulo, no Rio Janeiro e sobretudo em Recife, onde Tobias Barreto e Silvio Romero se destacam. Denunciavam o imobilismo do Império, a ausência de democracia e de

partidos, a escravidão, o atraso econômico e o analfabetismo, enquanto abolição, república, federalismo e democracia tornavam-se palavras de ordem que condensavam programas, idéias, desafios e aspirações capazes de amalgamar diferenças individuais (De Luca, 1999, p.21). Nas palavras de Paim (1967,p.125), “nos anos 70, revelara-se de pronto a instabilidade de todas as coisas e tudo se põe em discussão”. Coube à geração de 70 a introdução do Brasil na “modernidade cultural”, pois rompia com o pensamento religioso em prol de uma visão laica do mundo, levando ainda à contestação da teoria do direito natural, na qual a ordem social era vista como rígida e imutável (Schwarcz, 2001, p.150). Tratava-se da entrada de um discurso secular e temporal que, no contexto brasileiro, transformava-se em instrumento de combate à várias instituições assentadas (ibidem).

Alonso (2002), destaca o caráter sobretudo político dessa geração de pensadores, atuando principalmente no sentido do engajamento, da crítica, da contestação e do reformismo. De acordo com essa autora (2002, p.45), eles não estavam voltados “para um debate doutrinário alheado da realidade brasileira”, nem visavam formular teorias universais, sendo a unidade do movimento essencialmente política, “fruto de uma experiência compartilhada de marginalização em relação aos postos de mando do Segundo Reinado”. Para tanto, recorreram a elementos do “repertório da política científica e à tradição nacional em busca de instrumentos de crítica intelectual e de formas de ação política para combater as instituições, práticas e valores” da ordem imperial (ibidem). Por isso, para Alonso, a produção intelectual da geração de 1870 pode ser lida como uma forma de contestação política, e é esse sentido que confere unidade ao movimento, sendo essencial ressaltar sua dimensão de revolta político-intelectual coletiva (ibidem).

De acordo com Paim (1967, 127-129), apesar da grande difusão do positivismo, não havia uma unidade doutrinária definida nesse novo surto de idéias34; havia, “talvez, unidade

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De acordo com Mota (2000, p.30), havia muitas nuances no pensamento progressista. Segundo essa autora (ibidem), Roque Spencer Maciel de Barros distingue os liberais clássicos, os liberais cientificistas, os liberais

de objetivos: a crítica ao pensamento e às instituições vigentes”. Não obstante, é a partir desse movimento profundo, mas informe, que terá lugar a delimitação posterior dos campos, resultando principalmente em dois movimentos complexos: o positivismo e a Escola do Recife (ibidem). Além do positivismo35, as teorias cujos conteúdos filiavam-se ao darwinismo, especialmente a do alemão Haeckel e a do inglês Spencer, encontraram grande aceitação (Mota, 2000, p.30). Segundo Mota (ibidem), a intelectualidade brasileira se empolgou “com os esquemas biologizantes que, aplicados à sociedade, lhes conferiam a certeza da marcha inexorável da humanidade em direção à perfeição”. E ao mesmo tempo em que absorviam e se apropriavam das teorias estrangeiras, relendo-as de acordo com as nossas especificidades, esses intelectuais procuravam entender o Brasil, estudando suas origens e identificando seus problemas (ibidem, p.25). Os grandes temas nacionais, tais como escravidão, imigração e regime político foram colocados à luz das novas teorias, criando “uma atmosfera de efervescência intelectual permeada pela crença na transformação do país pela força das idéias” (ibidem, p.31). Além da forte confiança na ciência, havia a consciência da necessidade de adequar o país à modernidade ocidental, e para isso era preciso buscar as causas do atraso e propor soluções (ibidem). Tomados por um sentimento de urgência que demandava ação, esses homens se consideram não apenas agentes dessa transformação, mas sua própria condição primeira de desencadeamento (De Luca, 1999, p.21).

Pensar o Brasil supunha também defini-lo, de modo que modernização e identidade nacional foram termos chaves para essa intelectualidade. Experimentavam uma tensão constante, divididos entre o pessimismo e o otimismo, já que frente a uma realidade semi-indecisos entre essas duas direções, e os cientificistas antiliberais (isto é, os positivistas de todos os matizes). Barros reconhece, todavia, a dificuldade em encontrar “tipos puros” para exemplificá-los, devido à permeabilidade das doutrinas e ao trânsito dos intelectuais por elas. Um exemplo é Silvio Romero que, de adepto da filosofia de Comte passou a opositor, adotando a de Spencer (ibidem).

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Se num primeiro momento há uma adesão geral ao positivismo, em um segundo momento esse passa a ser alvos de crítica. Segundo Mota (2000, p.30), a despeito das críticas, esses intelectuais acabaram revelando em suas obras e em suas práticas uma espécie de “positivismo independente”. Assim, a inteligência brasileira guardaria mais uma atitude intelectual, “o espírito positivo”, do que fidelidade à palavra de Comte (ibidem).

complexa, colocaram-se a serviço de uma difícil tarefa: “adequar a construção teórica da idéia de uma nação brasileira a um país, o Brasil, percebido por eles como o lugar mesmo da ausência dessa idéia” (Mota, 2000, p.29). Procuravam encontrar a expressão genuína de uma possível cultura brasileira, além de apontar os obstáculos que impediam a realização do país como nação (ibidem, p.28). Para De Luca (1999, p.21-22), a maioria dos que se bateram por essas reformas teve a satisfação de vê-las realizadas. É certo que logo veio a decepção e muitos perceberam que não houve a redenção imaginada, gerando lamentos do tipo “essa não é a República dos meus sonhos”. Mas essa decepção não apagou o brilho dos feitos dessa geração, que tem sido devidamente festejada pela historiografia (ibidem).

Acreditamos que Alberto Torres foi bastante influenciado pela geração de 1870. O ideário da geração de Silvio Romero apresenta grandes semelhanças com aquele esposado por Torres, como em seu cientificismo, laicismo, evolucionismo, a presença de Haeckel, o seu engajamento político, sua busca de pensar a nação e sua ênfase na necessidade de ação.