A midiatização pode ser compreendida como uma categoria explicativa do tipo de sociedade em que vivemos e como um fenômeno que apresenta no seu interior questões que remetem a sua complexidade, ou seja, determinados mecanismos de seu próprio funcionamento, conforme Fausto Neto (2006). Para o autor, são justamente as formas e operações sociotécnicas que constituem a midiatização quando ela “vai mais além do ambiente e de seu próprio modo de ser”. (FAUSTO NETO, 2006, p. 9). É a partir desses dispositivos e operações que a midiatização funciona, em atividades que se realizam de modo transversal, porque afetam outros campos além do próprio, e relacional, porque geram complexidades com os retornos de processos de sentido das construções feitas pelos outros campos. Por isso, ela é considerada pelo autor, uma “prática social e de sentido”, uma espécie de dispositivo que liga o social e sua significação, com técnicas e linguagens construindo a vida social.
Conforme Fausto Neto (2008, p. 92), as mídias deixaram de ser apenas instrumentos a serviço da organização do processo de interação dos demais campos e se transformaram numa realidade mais complexa em torno da qual se constituiria uma nova ambiência, novas formas de vida e interações atravessadas por novas modalidades do “trabalho de sentido”. O autor considera a midiatização uma nova organização sócio-simbólica, com as interações sendo afetadas e/ou configuradas por novas estratégias e modos de organização (FAUSTO NETO, 2008, p. 93). E, segundo ele, seria justamente essa natureza tecno-simbólica da mídia que confere a ela a autonomia para funcionar como um dispositivo que reduz as complexidades, como sugere Luhmann (2005), na publicação que trata especificamente das mídias. Ou seja, por meio de suas próprias operações empregadas ao promover a leitura do que ocorre em outros sistemas para tornar inteligíveis essas informações, a mídia configura uma realidade. O autor considera que esse “sistema leitor” se torna “um lugar operador de codificação e de classificação de um determinado objeto, segundo os fundamentos de suas próprias lógicas e operações [...]” (FAUSTO NETO, 2008, p. 95). Dessa forma, é possível considerar que os jornais regionais são sistemas sociais redutores de complexidades imersos em um cenário de midiatização que complexifica a realidade. E, assim como os jornais regionais, os leitores também podem ser considerados sistemas, uma vez que interpretam as informações divulgadas pela mídia a partir de suas próprias lógicas e operações, muitas vezes, distintas daquelas pretendidas e idealizadas pelos enunciadores.
Em 22 anos ininterruptos de atuação no mercado jornalístico, a grande maioria deles em cargos de gestão e desenvolvimento de capa e contracapa de jornais, observamos que, não raras vezes, o sentido que se quer empregar com determinada enunciação não condiz com o conferido pelos leitores, o que se explica pela defasagem entre as gramáticas de produção e reconhecimento (VERÓN, 2008). Para Verón (2008, p. 149), a produção dos discursos busca a convergência em torno da interpretação da enunciação, “o produto é uma condensação de estratégias em busca do consumidor”. Entretanto, na recepção, há divergências:
[...] a circulação comporta bifurcações e que, por consequência, a circulação da comunicação é um processo que está afastado do equilíbrio. Essas primeiras formas de tentar compreender a questão da não-linearidade ou defasagem de produção e reconhecimento indica que a circulação discursiva é uma das principais fontes da complexidade social (não é a única) (VERÓN, 2008, p. 149).
Até a sociedade em vias de midiatização, circulação foi uma espécie de uma zona automática (FAUSTO NETO, 2010b), um lugar de passagem que transporta a mensagem do emissor para o receptor. Conforme o autor, estudos mais recentes que consideram o tema dos efeitos e da recepção ativa afetaram o conceito, chamando a atenção para as condições e o contexto em que ocorre a interação. Apontam para as descontinuidades, os desencaixes, os desajustes, os “intervalos” e os contrastes nas relações entre produtor e receptor, causados justamente por essa defasagem, diferença entre produção e recepção inerente à circulação. Esse “desajuste” seria um elemento estrutural do processo da comunicação: “um emissor não tem controle sobre o próprio discurso que elabora, ele não pode igualmente exercer sobre os seus efeitos junto a seu interlocutor” (FAUSTO NETO, 2013, p. 47).
O conceito de circulação foi se complexificando com o processo de midiatização e passou a ser uma chave para compreendê-la, conforme Fausto Neto (2010b, p. 63). Para o autor, houve um acoplamento entre os conceitos de circulação e dispositivo, já que o primeiro se transformou em “dispositivos sócio-técnico-discursivos que vão reformular imensamente os processos de interação”.
Os mídia [...] oferecem seus postulados e lógicas para a própria organização social. Instituem, por suas novas feições, zonas complexas de intensos feedbacks entre os atores removendo posições, redefinindo protocolos de comunicação, estabelecendo novas concepções e natureza de vínculos, alterando espacialidades e temporalidades sobre as quais se funda o ato comunicativo […]. (FAUSTO NETO, 2010b, p.63-64).
Fausto Neto (2013, p. 48) concebe que linguagem e circulação se acoplam para engendrar os processos de interação, para gerar fluxos e circuitos, cujos efeitos apontam para
novas formas de vínculos sociotécnicos. É o que Braga (2011) propõe como “um fluxo comunicacional adiante” desenvolvido por esse dispositivo interacional. Ao se considerar material simbólico como texto, fala ou imagem, não só o produto circula como a própria ação comunicacional desencadeada pode provocar repercussões, na forma de outras falas, comentários, etc., que, por sua vez, podem circular adiante.
Depois que o receptor se apropria da mensagem e confere um sentido a ela pode repor sua interpretação no espaço social, tanto em comunicações presenciais como nas inserções midiatizadas, como redes sociais, vídeos, cartas, etc. Os circuitos aí acionados – muito mais abrangentes, difusos, diferidos e complexos – é que constituem o espaço das respostas „adiante‟ na interação social. (BRAGA, 2011, p. 68).
As respostas conferidas aos episódios comunicados não são instantâneas nem automáticas, e também não há, segundo o autor, necessidade de que cada texto, fala ou imagem estejam vinculados à ação anterior ou posterior. É a sociedade que vai estabelecer como ocorre essa conexão e a articulação entre os diferentes episódios, pois ela elabora “processos mais ou menos reiterados de conexão e de tensionamento entre diferentes tipos de episódios – desenvolvendo assim lógicas articuladoras entre os dispositivos interacionais” (BRAGA, 2017, p. 44).
Essas conexões estabelecidas caracterizam o que Braga (2017, p. 45) chama de circuito, que passa a direcionar explicitamente o fluxo comunicacional adiante. Conforme o autor, os circuitos são produzidos quando processos de saída “de um dispositivo interacional de ação continuada [...] são de interesse para outros dispositivos que [...] trabalharão tais elementos como componentes de entrada para sua ação interacional”.
Verón (2008) afirma que, ao contrário do que pregava a Escola de Frankfurt, quanto mais difusão das mesmas mensagens e mais mídia existisse, mais complexa a sociedade fica, e não mais homogênea, como se pensava. A circulação seria constituída, portanto, por uma “estrutura que une” ao produzir acoplamentos de práticas e técnicas discursivas e, ao mesmo tempo, coloca-as em movimento, gerando uma nova complexidade comunicacional.
Problematizando o contexto de midiatização, é possível compreender por que os jornais regionais podem ser considerados sistemas sociais redutores da complexidade, mesmo que, para isso, necessitem complexificar suas operações e lógicas para se diferenciar dos demais sistemas e garantir sua preservação.