Néant 1 2 3 Plus de 3 Total
3. Le choix de la peine
3.3. La trace de la peine
5.1.1 A amostra
No que diz respeito à escolha da amostra a ser investigada, deixei-me influenciar, no âmbito da referenciação, por duas pesquisas que mais lançaram luz sobre o meu trabalho: a tese de Cavalcante (2000), pela diversidade de gêneros180, e a de Ciulla (2008), pelo fato de a autora ter trabalhado, essencialmente, com contos literários, em que há também a predominância de sequências narrativas.
A escolha, portanto, de uma amostra textual específica, a exemplo de Ciulla, em lugar de uma investigação envolvendo textos pertencentes a diversos gêneros, a exemplo da pesquisa de Cavalcante, favorecia a análise das expressões dêiticas, tendo
180 A autora tomou por base 54 escritos e 19 orais – dentre os quais estão: entrevista, carta pessoal,
bilhete, conversa on-line, artigo de jornal assumidamente popular, propaganda, entrevista formal, aula, conferência, editorial, crônica, carta ao editor, notícia de jornal, instrução, ensaio, conto, ata de reunião, ata de julgamento, projeto e artigo científico.
em vista a possibilidade de os fenômenos discursivos se evidenciarem mais em determinados contextos. Orientada por essas considerações, defini como amostra da pesquisa alguns dos gêneros que, prioritariamente, apresentam sequências narrativas.
A escolha por tais gêneros justificou-se, então, pela frequência acentuada de expressões dêiticas que apresentam. Uma história tem sempre um narrador que se situa no tempo e no espaço. Fato comprovado por Costa (s/d), Bertrand (2005), Galbraith (1995), Monticelli (2005b), Zubin e Hewitt (1995) dentre tantos outros. Os trabalhos desses autores confirmam a mudança dêitica e fornecem grandes contribuições para a tese da recategorização dêitica, mas não ultrapassam esse limite. Sob a designação de recategorização não consegui levantar dados em nenhum dos trabalhos pesquisados.
A escolha deve-se ainda à convicção de que gêneros com sequências narrativas implicam necessariamente na inclusão da percepção ou do ponto de vista do enunciador (narrador e personagens, pela permuta de vozes) e no papel do coenunciador (no processo de interpretação de texto narrativo e na representação mental que pode resultar desse processo). Deve-se, enfim, à constatação de tais gêneros implicam na construção do processo referencial dêitico, mais especificamente, na forma como as expressões dêiticas ocorrem ao longo do texto/discurso e como os interlocutores estabelecem comunicação com a noção de diferentes centros discursivos presentes no texto.
Os textos analisados são os seguintes: 01. Falas de tirinha
02. Soneto: Via Láctea – Soneto XIII 03. Piada: Loucos
04. Falas de tirinha
05. Carta do leitor: Comissão Nacional da Verdade 06. Conto: Procurando palavras
07. Conto: Seguindo a minha estrela
08. Notícia: Israel destrói sede do governo em Gaza; Egito tenta um cessar-fogo 09. Conto: Eu sou aquele que come as flores do aniversário
10. Anúncio
11. Conto: Realizava sonhos entrelinhados: virava estrelinha 12. Diário: 20 de outubro de 1944
13. Letra de música: Emoções 14. Poema: Cântico negro
15. Poema: Conclusões de Aninha 16. Entrevista
17. Letra de música: Quem não quer sou eu 18. Letra de música: Tempos modernos 19. Conto: O velho e o banco
21. Notícia: Mulher de petista se irrita com jornalistas em visita a presídio 22. Crônica: Véu, grinalda e facadas
23. Conto: Sorriso de sereia
24. Conto: Trazida por uma rajada de vento 25. Letra de música: Geração Coca-cola 26. Fragmento de carta
27. Poema: Ali
28. Fragmento de romance
29. Poema: Lasciate ogni speranza voi ch’entrate 30. Conto: O Piano
A amostra contempla exemplares verbais e não verbais, como as tirinhas, cujas falas foram reproduzidas, e feita a descrição do cenário, quando necessária para a compreensão das falas.
A partir dessa amostra, pretendo dar conta do fenômeno da continuidade dêitica, fazendo análise dos fatores que interferem na formação de uma cadeia dêitica específica, a fim de entender como determinados referentes se apresentam e se transformam ao longo do discurso.
5.1.2 Procedimentos de coleta
Após o levantamento bibliográfico para detectar na literatura da área o que vem sendo discutido e pesquisado sobre o tema da mudança dêitica à luz da Linguística Textual, defini a amostra da pesquisa. Em seguida, fiz pesquisa em livros didáticos, jornais, revistas e internet para coletar diferentes textos com sequências narrativas e, ao mesmo tempo, com expressões dêiticas que integrassem uma cadeia dêitica. Para compor o corpus selecionei 30 textos que, ao serem digitados em documento do Word, tiveram as expressões dêiticas sombreadas em negrito e foram arquivados por grupos de cadeias (pessoal, temporal e espacial), que constituem as categorias de análise do presente trabalho. A seleção, contudo, não obedeceu a quaisquer critérios temáticos, visto que os objetivos da pesquisa não dependiam dessa análise.
5.1.3 Categorias de análise
Dentre os diferentes tipos de dêixis, selecionei para compor as categorias de análise as expressões dêiticas relacionadas à pessoa, ao tempo e ao espaço.
Para a categoria pessoa: foram incluídas as expressões que incidem sobre os referentes escolhidos. Segui os pressupostos da noção de que o eu da narrativa não significa o falante do ato de comunicação, mas o que pressupõe um destinatário, uma voz que se instaura na história. Nesse sentido, as análises levam em conta os diferentes
eus, sujeitos falantes na história, a quem pode ser dada uma identidade sócio-discursiva, nas diferentes situações de enunciação de que participam.
Para a categoria tempo: foram consideradas as expressões referenciais adverbiais. Em algumas análises, contudo, foram consideradas também expressões verbais, baseadas na perspectiva dos sistemas: enunciativo e enuncivo, conforme Fiorin (2010). Para a categoria espaço: foram incluídas apenas as expressões referenciais adverbiais.
5.1.4 Procedimentos de análise
Para definir a configuração da cadeia dêitica e dos termos que a compõem, inicialmente, orientei-me por Lyons (1977)181 quanto à noção de um ponto de partida para as ocorrências temporais (o ponto zero temporal - to). Em seguida, busquei apoio em Charolles e Schnedecker (1993b)182, trabalho em que os autores defendem a evolução de referentes e propõem uma cadeia exclusivamente pronominal que se inicia com uma forma pronominal (NP0). Esses autores me fizeram acreditar que a cadeia dêitica poderia ser definida, seguindo um processo transformador semelhante, não apenas quanto à dêixis de tempo (to, t1, t2, ... tn) nem tampouco quanto aos pronomes, explanados por Charolles e Schnedecker em ocorrências anafóricas (NP0, Ptr1, NP1, Ptr2... Ptrn, NPn).
Avançando nas análises, percebi que o modelo proposto por Charolles e Schnedecker poderia ser aplicado a uma sequência de ocorrências dêiticas, em que uma expressão dêitica inicial (ExD0), motivada por um elemento transformador (PrTr0),
181 O autor, ao expor sobre a distinção entre passado, presente e futuro, diz que é possível identificar o
ponto zero temporal da situação canônica de enunciação e definir uma varidade de distinções de potenciais de tempo em termos de simultaneidade vs. não simultaneidade, proximidade versus não proximidade, mais cedo que versus mais tarde que, etc. Lyons faz a representação dessas noções a partir da expressão to, significando o ponto zero (referido pelo advérbio agora em inglês). (LYONS, 1977, p.
683).
182 Neste trabalho, os autores discutem a evolução dos referentes, falam de uma cadeia exclusivamente
pronominal que se inicia com uma forma pronominal (NP0). Para eles, contudo, essa cadeia é de frases
distintas e sintaticamente independentes, que compreendem predicados verbais que funcionam como processos de transformação (Ptr1). (Charolles & Schnedecker, 1993b, p. 201)
surgisse na cadeia referencial dêitica com algum traço de modificação (ExD1), ao longo do texto. A estruturação dessa cadeia, enfim, teria a seguinte configuração:
ExD0 PrTr0 ExD1 PrTr1 ExD2 PrTr2 ExD3 PrTr3 ExD4 PrTr4 ExD5 …PrTrn ExDn
Considerada a possibilidade da existência de uma cadeia referencial dêitica, procurei definir os termos e o seu papel discursivo na cadeia.
A representação ExD significa “expressão dêitica”. A indicação de ordem
numérica significa a quantidade de ocorrências dêiticas, indo de zero ‘0’ ao número
limite de expressões dêiticas presentes no texto em análise.
A representação PrTr significa “processo de transformação”. A indicação de ordem numérica segue o mesmo padrão utilizado na configuração das ExD. Na cadeia dêitica, o processo de transformação deve corresponder a algo que permita a entrada de uma ocorrência dêitica com algum tipo de mudança no centro dêitico e, por conseguinte, implique a recategorização da categoria em análise.
A expressão dêitica inicial de uma cadeia dêitica (ExD0) se aplica a quaisquer das categorias estabelecidas para a análise (pessoa, tempo, lugar), que, sob a influência de um processo de transformação igualmente inicial (PrTr0), ficam sensíveis a algum tipo de modificação. A alternância entre o processo de transformação e a expressão dêitica recategorizada é o que faz a cadeia progredir.
Na investigação do comportamento das expressões dêiticas ao longo do discurso, tomei por parâmetro os estudos sobre as mudanças dêiticas, principalmente, os dados apresentados por Monticelli (2005b), no intuito de identificar quais critérios eu poderia elencar para o tratamento da evolução de expressões referenciais dêiticas na dimensão da recategorização. Destaco que o autor analisa mudanças dêiticas, mas não faz menção a um enfoque da recategorização nem as aborda na perspectiva da formação de cadeias.
Resolvi fazer análises separadas, ou seja, em cada texto do exemplário priorizei um tipo de cadeia: pessoal, temporal ou espacial. Essa decisão foi tomada tendo em vista o reconhecimento de que as categorias dêiticas de pessoa, tempo e espaço se imbricam no contexto do discurso e que, em face dessa complexidade, investigar o comportamento discursivo das expressões dêiticas em contextos evolutivos
e “em conjunto” extrapolaria o foco no aspecto de recategorização dentro de uma
determinada cadeia. Isso não invalida, contudo, a hipótese de que a análise possa ser simultânea em todas as cadeias (pessoal, temporal e espacial) que orientam a construção