Temperature ( oC) as proxy for distance
5.8 Trace metals: Zinc, Cadmium, Copper, Lead, and Nickel
O desenvolvimento teórico da chamada linguística da enunciação geralmente é associada principalmente a dois autores: Benveniste e Bakhtin. O primeiro é considerado um pioneiro, embora seu caráter revolucionário não seja quanto à questão de “anterioridade temporal de desenvolvimento das pesquisas enunciativas” (TEIXEIRA; FLORES, 2011, p. 3), visto que Charles Bally bem antes dele já havia tratado de temas relacionados à enunciação.
Benveniste realizou um estudo sobre a enunciação de uma perspectiva linguística inovadora, de modo a dialogar com outras áreas como a antropologia, psicanálise, sociologia e filosofia. Ele investigou as questões da língua tomando-a como discurso, como língua viva em um momento em que o pensamento estruturalista ainda era muito forte.
Os trabalhos de Benveniste, segundo Teixeira e Flores (op. cit., 2011, p. 418), “modificaram fundamentalmente a paisagem das ciências humanas”. Com o objetivo de desenvolver uma teoria de conjunto da linguagem, ele envolveu várias questões antes não relacionadas à área da linguística. “Suas proposições dizem respeito às relações entre a linguagem, a sociedade e a subjetividade e se revelam de uma espantosa lucidez, embora só recentemente comecem a ser consideradas em toda sua relevância” (TEIXEIRA; FLORES, op. cit., 2011, p. 418).
O segundo representante da teoria enunciativa, Bakhtin, tem suas reflexões mais expandidas e reconhecidas na área educacional no Brasil, servindo de embasamento para as orientações, por exemplo, de documentos oficiais que regem o ensino de LP. Bakhtin é considerado, de certa forma, como um dos fundadores do campo da enunciação, pois desenvolveu uma teoria da linguagem que antecipa várias questões que somente mais tarde viriam a ser problematizadas (TEIXEIRA; FLORES, op. cit., 2011).
De modo geral, a linguística da enunciação, por considerar o processo de instituição subjetiva na linguagem, é vista como uma área dotada de uma espécie de “vocação” ao diálogo com outras disciplinas. Tendo isso em vista, a teoria enunciativa engloba diferentes correntes de estudo da língua, tais como a Linguística textual, a Teoria do Discurso, a Análise do Discurso, a Análise da Conversação, a Semântica Argumentativa e todos os estudos de alguma forma ligados à Pragmática. Isso não significa que a Linguística da Enunciação seja o mesmo que Linguística do Texto, Análise do Discurso ou Pragmática. Pelo contrário, “entendemos que há um campo dos estudos enunciativos (Linguística da Enunciação) e que esse campo é constituído por diferentes perspectivas de estudo da enunciação - que podemos chamar de Teorias da Enunciação” (TEIXEIRA; FLORES, op. cit., 2011, p. 413). Portanto, há especificidades na Enunciação que a diferenciam dos demais estudos da linguagem.
Bakhtin, (2003), além de dar lugar à intersubjetividade nos estudos da linguagem, concebendo a enunciação como atividade intrinsecamente dialógica, em que o reconhecimento de si se dá pelo reconhecimento do outro, considerou que “o repetível e o irrepetível – que recebem diferentes designações no conjunto de sua obra (significação/tema; oração/enunciado; relações lógicas/relações dialógicas) - articulam- se no processo de constituição do sentido” (TEIXEIRA; FLORES, 2011, p. 415).
Nesse sentido, “a linguística da enunciação se coloca como uma alternativa de estudar a língua do ponto de vista do sentido, sem abandonar a crença na língua como
ordem própria que precisa ser atualizada pelo sujeito a cada instância de uso” (TEIXEIRA; FLORES, op. cit., 2011, p. 418). A língua, na concepção enunciativa bakhtiniana, passa a ser vista como lugar de interação, de produção e construção de sentido entre os falantes, em certa situação de comunicação e em um contexto específico: “[...] os usuários da língua interagem enquanto sujeitos que ocupam lugares sociais e ‘falam’ e ‘ouvem’ desses lugares de acordo com formações imaginárias (imagens) que a sociedade estabeleceu para tais lugares sociais” (TRAVAGLIA, 2009, p. 23). A preocupação da linguística da enunciação é, portanto, com as “manifestações linguísticas produzidas por indivíduos concretos em situações concretas, sob determinadas condições de produção” (KOCH, 1995, p. 11).
Bakhtin (1997) propõe um olhar dialógico a respeito da linguagem, afirmando que “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua, nem no psiquismo individual dos falantes” (BAKHTIN, 1997, p. 124). Para Bakhtin (2003, p. 31), “a linguagem é um ato social que se realiza e se modifica nas relações sociais e é, ao mesmo tempo, meio para a interação humana e resultado dessa interação, já que seus sentidos não podem ser desvinculados do contexto de produção”. Desta forma, a língua não é concebida como um sistema de formas normativas, sendo concreta e realizando-se nos atos de fala, na comunicação efetiva entre seus usuários.
Na teoria enunciativa, propõe-se a linguagem por um caráter sociointeracionista, já que a língua é vista como dialógica e interacional. A noção de linguagem Bakhtiniana é oposta as visões anteriores, já que para ele a verdadeira substância da linguagem não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal - realidade fundamental da linguagem (BAKHTIN, 1997).
Desta forma, “a utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana” (BAKHTIN, 2003, p. 280), por isso a língua deve ser estudada e entendida por meio destes enunciados concretos.
Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e
gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional (BAKHTIN, 2003, op. cit., p. 261).
Os enunciados são organizados através de “tipos relativamente estáveis” (BAKHTIN, 2003, p. 262) que são denominamos de gêneros do discurso - resultado de uma ação coletiva. Os gêneros do discurso, propostos por Bakhtin, se tornaram base para o ensino de Língua Portuguesa nas escolas.