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4.5 Performances

4.5.4 Cas d’une trace r´eelle (Trace 2)

Malinowski (1958) escreveu que a investigação acerca da aculturação deveria ter em consideração os interesses e as intenções ocidentais. Para além disso, Cresswell (2009) argumenta que os investigadores devem procurar pelas intenções inscritas nas práticas sociais dos grupos culturais. Na literatura da imigração a motivação é percebida através dos fatores económicos do push e pull. A literatura sociológica tem em consideração razões estruturais, políticas e as motivações sociais no sentido de se iniciar o processo imigratório (Chirkov, Vansteenkiste, Tao & Lynch, 2007). No entanto, na Psicologia Intercultural existe uma carência de teorias e literatura acerca das motivações

interculturais (Chirkov, et al., 2007). A aculturação tem vindo a ser estudada apenas através das preferências ou das atitudes culturais, longe das motivações, dos contextos sociais e históricos, nos quais as atitudes ou as preferências são baseadas e condicionadas.

Conquanto a escassez da literatura, a motivação individual pode ser abordada através da intensidade e também através da orientação (Ryan & Deci, 2000a). No último é comum dividir a motivação em intrínseca e em extrínseca, tendo em conta se a ação é autodeterminada ou se é desencadeada por um resultado externo, respetivamente (Deci & Ryan, 2008). A literatura presume que a motivação intrínseca implica a satisfação básica das necessidades psicológicas, por exemplo, as relações significativas, o crescimento pessoal e a contribuição social, favorecendo o bem-estar (Deci & Ryan, 2008). Os objetivos extrínsecos tais como o dinheiro ou o poder social são percebidos como prejudiciais (Chirkov, et al., 2007). A motivação extrínseca tem um valor instrumental, pois a ação é, supostamente, motivada por um resultado externo ou separado, e a autodeterminação é, supostamente, baixa. Porém, existem diferentes tipos de motivações extrínsecas consoante o grau de autonomia sobre a ação e a internalização do resultado externo, isto é, a regulação externa, a introjeção, a identificação e a motivação extrínseca integrada. A derradeira, isto é, a motivação extrínseca integrada implica a completa internalização e integração das identificações externas no Eu, mostrando uma completa congruência, mas ainda se refere a um resultado separado.

A motivação é também uma variável na aquisição ou aprendizagem duma segunda língua (Culhane, 2004; Gardner, 2000). Quando a motivação gira em torno apenas da aquisição duma segunda língua é designada de motivação instrumental. A aquisição duma segunda língua é designada de integrativa quando a aprendizagem abrange interagir e adquirir laços com a cultura da segunda língua. A motivação integrativa, supostamente, alcança níveis mais baixos de dificuldades (Culhane, 2004), desempenhando um papel de suporte no processo de aprendizagem (Gardner, 2000; Gardner, Tremblay & Masgoret, 1997; Masgoret & Gardner, 2003). A revisão da literatura também notou outro tipo de motivação relacionado com o ajustamento cultural, ou seja, a orientação da aprendizagem por objetivos, a qual é suposta ter um impacto positivo nos resultados escolares e no ajustamento intercultural (Gong, 2003). Porém, estes tipos de abordagens não se adequam ao presente trabalho devido à sua ênfase exclusiva na preferência multicultural.

Curiosamente, as motivações e as intenções são variáveis antecedentes na formação intercultural (Bhawuk, Landis & Lo, 2006) porque a derradeira forma de aculturação é, supostamente, atribuída a uma população com estatuto socioeconómico mais elevado do que os imigrantes. Em consequência, a aculturação não é percebida como um problema social se for remetida a pessoas com um estatuto socioeconómico elevado. Contudo, o que muda na avaliação não é o processo de aculturação, mas apenas a avaliação acerca do estatuto social de quem aprende uma segunda cultura. Assim dispondo, o estatuto socioeconómico deve ser tratado como uma variável de controlo, tal como Rudmin propõe (Rudmin, 2009), pois não é aprendizagem duma segunda cultura por si próprio.

A evolução da cultura surge a partir da socialização, da enculturação, da inovação numa mesma cultura e da aculturação, sendo que esta última, ocorre entre culturas diferentes (Tarde, 1903), conduzindo à diversidade global e, ao mesmo tempo, à partilha de semelhanças e de diferenças culturais (Barth, 1969) entre as diversas culturas. Como Boas (1962) afirmou, nenhuma cultura se encontra sozinha. A motivação está presente no processo aculturativo porque o grupo que imita, não imita tudo, senão que apenas imita aquilo para o qual está motivado (Hallowell, 2002). Em consequência, o processo de aculturação é seletivo, negociado, motivado e é uma questão de aprendizagem (Bourguignon, 1954; Hallowell, 2002). De acordo com Pires, R., (2003), no processo migratório existe uma relação entre a decisão racional do imigrante e os constrangimentos e as oportunidades sociais criadas pelas estruturas sociais de ambos os espaços culturais. Neste sentido, o fluxo migratório encontra-se altamente contextualizado e motivado em ambas as culturas. De resto, Berry (1986) escreveu que as atitudes culturais estão dependentes das caraterísticas do grupo minoritário e do maioritário. As decisões dos migrantes são, deste modo, condicionadas pelas fronteiras culturais de ambos os espaços aculturativos.

4.1.2.3 Fronteiras culturais

Uma caraterística comum entre os seres humanos consiste na necessidade da diferenciação cultural (Amâncio, 2004; Aronson, Wilson & Akert, 1997; Neto, 1997; Samovar & Porter, 1994a), de categorizar e de atribuir caraterísticas culturais, comparando

esses elementos culturais com as caraterísticas doutros grupos, no sentido de se distinguirem uns dos outros e de construírem uma identidade intragrupal (Berger, 2004; Berger & Luckmann, 2004; Elias & Scotson, 1994), mas, ao mesmo tempo, de perceberem semelhanças (Ember & Ember, 2009; Hall, 1994b; Kim, Y., 1994). As diferenças culturais entre as duas culturas são designadas de distância cultural (Triandis, 2008). O grau de semelhança ou de diferença poderá influenciar a relação intercultural e a adaptação a uma segunda cultura (Berry, 1997) e, em consequência, o processo da aprendizagem. A expressão fronteira cultural apareceu a partir da expressão da distância cultural, sendo que a derradeira foi empregue no dealbar do século vinte por Bartlett (1923, 1932; Saito, 2000). Assim dispondo, as relações interculturais funcionam em ambas as culturas em contato mediante as suas fronteiras culturais, sendo que estas últimas desencadeiam avaliações cognitivas, por exemplo, a decisão de viajar para o Japão foi feita através das fronteiras culturais portuguesas e europeias, as quais compararam Portugal e a Europa com o Japão ou a Índia, sendo que o Japão foi percebido pelos portugueses como sendo a sua imagem refletida ao espelho, ou seja, igual, mas invertida (Lévi-Strauss, 1998) e ideal para levar a cabo a missão dos jesuítas.

Na investigação acerca da imigração, as semelhanças culturais são percebidas como facilitando o processo de aprendizagem e as diferenças culturais são pensadas como barreiras culturais (distância cultural), conduzindo aos conflitos interculturais e às dificuldades de adaptação (Bourhis & Dayan, 2004; Montreuil & Bourhis 2001; Montreuil, et al., 2004; Piontkowski, et al., 2002; Suanet & Van de Vijver, 2009). Na investigação acerca da imigração é usual ter-se em consideração as condições contextuais da escolha individual (Pires, R., 2003). Na presente investigação, o processo cognitivo de perceber semelhanças e diferenças entre as culturas está também relacionado com a identidade étnica e com a perceção da discriminação. As fronteiras culturais e a interação entre o espaço de “acolhimento” e o espaço de partida são definidas por contextos circunstanciais (Coenders, et al., 2008; Taft, R., 2007). Por exemplo, as avaliações acerca das comunidades alemãs e japonesas no Brasil têm mudado consoante as circunstâncias históricas (Tsuda, 2001; Voigt, 2007), ganhando um sentido positivo ou negativo consoante as relações internacionais do Brasil com a Alemanha ou com o Japão. As fronteiras culturais foram aplicadas na presente investigação para verificar se as avaliações acerca das semelhanças e das diferenças culturais obtinham um sentido positivo ou negativo.

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