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Du trèfle qui porte malchance

Dans le document L’ÉVOLUTION ET LA BIODIVERSITÉ (Page 73-76)

…quando se pretende atingir um bom nível de competência comunicativa, na programação não pode faltar como recurso imprescindível a compreensão leitora… (Morais 2012: 64)

Pela citação aqui apresentada, notamos que sempre que planificamos aulas, sessões, cursos, temos de colocar a compreensão leitora no centro de todas as preocupações, pois esta é essencial para desenvolver a competência comunicativa. Ora, nas publicações europeias, essa preocupação não é tão evidente como esperaríamos. Por isso, queremos analisar os documentos internos, emanados do Ministério da Educação e Ciência, esperando encontrar aí a centralidade do conto na aula de espanhol.

No portal do Governo português, especificamente no separador referente ao MEC, disponível no site http://www.portugal.gov.pt, somos informados da existência de Programas de Espanhol Língua Estrangeira, no segundo e terceiro ciclos, bem como no Ensino Secundário. Além disso, somos reenviados para outros documentos de apoio, como o já

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referido QECRL ou o Portfólio Europeu das Línguas. Contudo, verifica-se a inexistência de metas curriculares para o ensino / aprendizagem da segunda língua estrangeira. Só as encontramos para a língua estrangeira iniciada no quinto ano de escolaridade, que, em Portugal é obrigatoriamente o inglês. Parece-nos, desde já, uma lacuna importante, pois como pode um professor planificar e ensinar uma língua sem que as instituições superiores orientem de alguma forma para os objetivos finais a atingir? Desta forma, tudo tem de ser gerido por aproximação, com base em documentos orientadores emanados de fora para dentro, vindos do estrangeiro e que, claro está, não têm em conta a realidade específica da nossa escola e da nossa comunidade alvo. É verdade que existem programas para cada ciclo de estudos (no ensino básico) e cada ano / nível (no ensino secundário), mas a falta das Metas Curriculares parece-nos fulcral.

Não nos debruçaremos sobre o programa de 2º ciclo, uma vez que este apenas existe em termos teóricos, não tem implementação prática no nosso sistema de ensino atual. Portanto, olhando para o programa de 3º ciclo, verifica-se, à partida, o objetivo geral a atingir: trata-se de “promover a educação nas suas três dimensões essenciais, isto é, o desenvolvimento de aptidões, a aquisição de conhecimentos e a apropriação de atitudes e valores…” (Aavv 2002: 5). Diz-se que “a língua (…) é um instrumento privilegiado de comunicação.” Quer isto dizer que não é só um sistema de signos, é “simultaneamente os significados culturais que o signos comportam…” (Aavv 2002: 5). E encontramos, uma vez mais, a abordagem intercultural e comunicativa, evidente nas palavras que se seguem: “paradigma metodológico por que se optou foi o comunicativo (…) o aluno é o centro de aprendizagem, sendo que a competência comunicativa surge como uma marco competência, que integra um conjunto de cinco competências – linguística, discursiva, estratégica, sociocultural e sociolinguística…” (Aavv 2002: 5). Quer isto dizer que a “aquisição da língua estrangeira pode caracterizar-se como uma construção criativa em que o aluno (…) formula hipóteses para elaborar regras que configuram a representação interna de um novo sistema” (Aavv 2002: 5). Todas estas ideias foram já amplamente discutidas anteriormente, com um grande destaque para a importância da criatividade na escola e na sociedade atuais.

Apresentam-nos, ainda, uma possível definição de finalidades, direcionadas para o “desenvolvimento da consciência de identidade linguística e cultural (…) educação para a comunicação enquanto fenómeno de interação social (…) estruturação da personalidade do aluno (…) fomentar uma dinâmica intercultural…” (Aavv 2002: 7), bem como objetivos gerais centrados na compreensão e produção de enunciados orais e escritos de complexidade progressiva, sempre adequados ao nível etário e grau de desenvolvimento do aprendiz. Sem

esquecer que insistem bastante no incremento das capacidades, valores e atitudes, para o crescimento são e integral do jovem em idade escolar.

Ao observarmos mais especificamente a presença do conto, nota-se que, ao nível dos conteúdos não existe nada especifico sobre o texto literário. Na compreensão escrita, destaca- se, ao nível dos procedimentos, a “compreensão de textos relacionados com as atividades propostas na sala de aula. Compreender globalmente textos escritos: notas, anúncios (…) textos humorísticos ou literários…” (Aavv 2002: 15). A literatura é colocada em último lugar, o que denota uma importância diminuta. Os procedimentos estão ligados ao conteúdo e às funções a realizar, mais do que à forma como dotar o aluno de capacidades para fazer: “o discurso escrito: informações relevantes, elementos de coesão e marcadores…” (Aavv 2002: 16); “Identificar a ideia principal de um texto (…) Extrair informações (…) formular hipóteses…” (Aavv 2002: 16). No que respeita às atitudes, destaca-se que é preciso “reconhecer a importância de se ser capaz de exprimir-se por escrito, na língua espanhola, como forma de satisfazer necessidades imediatas e concretas de comunicação.” (Aavv 2002: 15). Do mesmo modo, no capítulo “Aspetos socioculturais” (Aavv 2002: 19), não se fala em literatura em nenhum dos procedimentos relacionados com cultura. Encontrámos um conteúdo interessante a nível cultural intitulado “Presença em Portugal do espanhol: filmes, canções, notícias em jornais e estabelecimentos públicos, manuais de instruções, etiquetas…” (Aavv 2002: 20). Mas em momento algum surge o termo literatura. E, quando se fala em tipologias textuais, apresentam-nos a ideia de que a “situação da leitura deverá decorrer de uma motivação com um determinado objetivo (…) Narrativa, reportagens, memórias, romances, …” (Aavv 2002: 30). Como se desconfiava à partida, não existe nenhuma referência específica ao conto, numa faixa etária em que este poderia intervir de forma mais viva e eficaz.

Olhando, depois, para os Programas de Espanhol do Ensino Secundário, podemos afirmar que, no caso do 10º ano – iniciação, a introdução apresenta o mesmo tipo de informação que no programa de 3º ciclo. “…metodologia orientada para a ação, estimulando professores e alunos para a realização de tarefas significativas que levam À utilização da língua em situações autênticas” (Fernández 2001: 3). Surge a noção de adaptação curricular, ou seja, a preocupação de estar em sintonia com as necessidades do aluno, “adequação dos objetivos e conteúdos a situações educativas diversas (…) próprias de interesses e orientações académicas diversas…” (Fernández 2001: 5). Mais uma vez se assume a centralidade do texto no processo educativo., já que um dos objetivos gerais é mesmo “compreender textos orais e

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escritos (…) e mesmo textos literários contemporâneos, de acessibilidade adequada…” (Fernández 2001: 8).

Como acontecia com os documentos orientadores que lemos anteriormente, este programa explica que “língua e cultura são indissociáveis, uma vez que a língua além de veicular a cultura de um pais, serve para expressar toda a sua realidade (…) A realidade dos países hispano-falantes deve ser apresentada, também, de forma viva…”(Fernández 2001: 12). Contudo, a nível cultural, não se faz qualquer referência à literatura, ao contrário do que seria de esperar. Apresenta-se a temática de modo mais transversal, como vemos nas palavras seguintes: “Aspetos sociais e culturais dos países onde se fala espanhol, próximos dos interesses e motivações dos alunos” …”(Fernández 2001: 12). A nível da comunicação oral e escrita refere-se que “para compreender é importante que o aluno seja exposto à língua de uma forma tão ampla e variada quanto possível, a fim de poder elaborar hipóteses de sentido que irá verificando mediante a interação.” (Fernández 2001: 20). Nesta perspetiva, “uma abordagem comunicativa do texto escrito leva-nos a considera-lo com todos os elementos que configuram uma situação de comunicação: alguém escreve algo para alguém com um objetivo definido, isto é, com uma intenção” (Fernández 2001: 20). E prosseguem nesse sentido ao afirmar que:

a leitura deve entender-se também como um processo de comunicação e de interação entre leitor e texto (…) Os textos a utilizar na sala de aula deverão ser, sempre que possível, autênticos (…) Em todo o caso, é conveniente que os alunos leiam diferentes tipos de textos adaptados à sua idade, aos seus interesses e, logicamente, aos diversos níveis de domínio da língua espanhola. (…) notícias, anúncios, programas, guias, etiquetas, instruções, reportagens, contos, histórias…(Fernández 2001: 21)

Apontam ainda que, na compreensão escrita, devem identificar-se e utilizar-se “estratégias pessoais de leitura para fomentar a autonomia (…) Formular hipóteses acerca dos conteúdos do texto. (…) Compreender textos autênticos de pouca complexidade, de forma global e específica…” (Fernández 2001: 37). Por estas afirmações, notamos uma maior relevância dada ao texto literário, embora não se note nenhuma referência específica às tipologias textuais, nem instruções mais claras do trabalho que se poderá realizar com as mesmas. O conto nunca é referido, o que demonstra, mais uma vez, uma caminhada em sentido contrário aos estudos mais recentes na área da didática das línguas.

Ao passarmos para o Programa de 11º - iniciação, notamos à partida que os objetivos são muito semelhantes aos do 10º ano, com destaque para o maior grau de autonomia que é dado aos discentes. Ao nível da compreensão escrita pedem-lhes para: “identificar informações globais e específicas, ideias principais e secundárias (…) em documentos

autênticos, de extensão limitada…” (Fernández 2002a: 3). O aluno deve ser capaz de “ler individualmente textos com apoio visual e literatura para jovens, usando eficientemente o dicionário e demonstrando a compreensão través de uma atividade específica”(Fernández 2002a: 3). E, na abordagem sociocultural, destaca-se que o jovem deve “relacionar as suas próprias experiências com as dos jovens dos países da língua-alvo, a partir dos materiais trabalhados em aula” (Fernández 2002a: 4) Não há qualquer referência à literatura como veículo de cultura. Fala-se da compreensão de relatos curtos, tanto a nível oral como escrito. Mas entenda-se que a palavra relato não se assume aqui como sinónimo de conto. As atividades de compreensão escrita resumem-se a “compreender textos autênticos de pouca complexidade” (Fernández 2002a: 7) Referem-se a listas, ao uso de internet, a prospetos, jornais, revistas ou instruções. Onde está o texto literário? O mesmo se passa com o Programa de 12º ano - iniciação, mera repetição do que acabamos de escrutinar.

Centrando-nos, agora nas diretrizes dos níveis de continuação, o Programa de 10º ano privilegia uma maior complexidade e autonomia na aprendizagem. A grande meta apresentada é: “consolidar e alargar a competência adquirida no ciclo anterior, de forma a usar mais apropriada e fluentemente a língua espanhola nas várias situações de comunicação” (Fernández 2002b: 38). O aluno tem de ser capaz de “comunicar e expressar-se oralmente e por escrito, demonstrando um certo grau de autonomia no uso das competências discursiva e estratégica…” (Fernández 2002b: 38). A compreensão escrita baseia-se em manuais de instruções, descrições, textos argumentativos, imprensa, nos quais há que ser capaz de “seguir a trama e compreender a intenção do autor de um texto narrativo literário próximo dos seus interesses” (Fernández 2002b: 41). Verifica-se a utilização de verbos ligados ao conto, como “contar”, “narrar” (Fernández 2002b: 42) quando se fala de produção oral. E, nos aspetos socioculturais, um dos conteúdos do programa prende-se com o “conhecimento de uma individualidade a selecionar (escritor, artista, músico, político…) (…) Leitura e apresentação de obra escolhida” (Fernández 2002b: 47).

Já no Programa de 11ºano - continuação, os objetivos da compreensão escrita são os de 10º ano, mas com reforço da autonomia, mais pormenorizados. São os mesmos conhecimentos, apresentados de forma mais profunda. Trata-se de “narrar o argumento de um livro ou de um filme e descrever as suas reações (…) Transmitir a outros uma narração ou uma descrição” (Fernández 2002c: 8). E no 12º, nível de continuação, nota-se o mesmo reforço de autonomia que no 11º: “Seguir a trama, compreender a intenção do autor e apreciar os aspetos formais de um texto literário próximo dos seus interesses” (Fernández 2004: 6).

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Este pequeno périplo pelos Programas de Espanhol como língua estrangeira permitem- nos concluir que, apesar de algumas referências pontuais ao texto literário, mais especificamente ao conto, não se verifica uma estratégia integrada de revitalização do mesmo nas aulas de ELE. Pelo contrário, não se nota verdadeira preocupação com a parte instrumental, com a aplicabilidade das diretrizes, que são muitas vezes vagas e contraditórias, como já esperávamos.

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