A partir da análise do experimento proposto, descrevemos a ditongação nasal no PB. O foco esteve na descrição da produção dos ditongos posteriores e anteriores nasais, emitidos por falantes do dialeto Paulistano. Neste trabalho optamos por fazer uma análise descritiva de dados de produção, com a intenção de inferirmos a movimentação do véu durante a produção do ditongo nasal, através da análise descritiva de dados acústicos e aerodinâmicos.
Como analisamos um fenômeno é muito complexo, percebemos que a compreensão da nasalidade vocálica nas línguas naturais se funda em três parâmetros principais: (1) a complexidade do tubo ressoador (fisiologia), (2) a constelação gestual (a sincronia da articulação dos gestos orais e nasal) e (3) a percepção da nasalidade. Neste trabalho foram analisados apenas os dois primeiros parâmetros.
A articulação do ditongo o caracteriza como um elemento [+ soante, - vocálico, - consoantal]. O primeiro elemento que o compõem é a vogal, que ocupa a posição de rima, o glide que ocupa a posição de coda silábica, mas ambos estão no mesmo núcleo silábico. Assim, a movimentação da língua é contínua durante a sua produção.
Afirmamos que o elemento que ocupa da posição de coda se trata de um glide, pois a movimentação dos formantes, ao passar do alvo da vogal para o alvo do glide, ocorre de modo gradativo, não há uma transição definida e sim uma movimentação dos formantes. O gesto principal é o oral, do corpo/lâmina da língua, que forma uma constrição parcial no trato oral, que caracterizará o ponto e modo de articulação dos glides orais (STEVENS, 1998). O gesto do véu é somente adicionado a articulação principal.
A ditongação nasal é o produto acústico da coarticulação oral, que ocorre concomitantemente entre o gesto articulatório de acoplagem do véu e a cavidade oral. O movimento de abertura e fechamento do véu palatino é um gesto único, que
tem um deslocamento vertical. Essa trajetória pode ser dividida em duas fases principais, a de abertura e fechamento.
Articulatoriamente, a fase inicial representa o movimento de descida ou de abertura do véu. Quando esse atinge a posição alvo, ou seja, a abertura necessária para acoplar as cavidades orais e nasais de uma determinada articulação, o véu se eleva, fazendo o movimento reverso, para o seu fechamento, finalizando o gesto e retornado a posição inicial.
Ao dividirmos a articulação do véu em duas: fase de abertura e fase de fechamento, encontramos a seguinte proporção: nos informantes masculinos, o deslocamento do véu ocupa no total 72% da trajetória do ditongo nasal anterior e 71% para o ditongo posterior; nos informantes femininos o gesto, nos ditongos anteriores ocupa em média 77% e 76%, nos posteriores.
Entende-se que nos ditongos nasais analisados a abertura do véu é um movimento mais lento e com maior duração, do que o fechamento. Isso é um feito causado pela a coarticulação com a fronteira a esquerda do ditongo e a velocidade de fala empregada. O fluxo de ar nasal, por sua vez, tem três fases, as duas primeiras coincidem com o movimento de abertura e a última com o fechamento do véu, mas não refletem as durações acústicas.
Podemos concluir que o movimento de abertura e fechamento do véu palatino tem uma trajetória de deslocamento (traçado do fluxo de ar) média total para os ditongos posteriores e anteriores: nos sujeitos masculinos de 279 ms e 309 ms; no grupo feminino os valores são de 245 ms e 261 ms. A duração acústica total do ditongo nasal é em média: para os posteriores de 290 ms e 291 ms, e, os anteriores tem em média da duração é de 289 ms e 278 ms, respectivamente, para os sujeitos masculinos e femininos respectivamente. Isso demonstra que há uma defasagem entre o output acústico e o aerodinâmico. Explicada pela fase negativa do FAN e sua fase fechamento.
Um fator importante apontado por esta dissertação é de que em 87% de todos dados, o fluxo de ar nasal apresentou a mesma o mesmo traçado. A partir disso, dividimos o FAN em fases em três partes: (1) fase inicial – movimento de
descida do véu, (2) fase medial – o véu atinge a abertura máxima e (3) fase final – movimento de elevação do véu.
Notou-se que do momento em que o véu atingiu a abertura máxima e iniciou o movimento de elevação, um jato de ar foi expelido pelas narinas. O pico máximo da taxa de nasalização é o resultado da sincronia do movimento da língua e o abaixamento do véu. Em ambos os casos de ditongação, este apresentou um padrão nos casos demonstrados. O fenômeno da ditongação tem a mesma natureza independente se for um ditongo nasal posterior ou anterior, pois ambos têm o mesmo modo de articulação.
O volume do PM foi descrito como a relação entre o tamanho da constrição da cavidade oral e o grau de abaixamento do véu, que resulta em um volume de ar que é expelido pela boca e pelas narinas. A taxa máxima de nasalização, no momento em o véu inverte seu movimento, iniciando o fechamento tem em média no ditongo anterior 195 dcm3/s e 157 dcm3/s, para os homens e para as mulheres e no ditongo posterior 179 dcm3/s e 130 dcm3/s, para os dois grupos de sujeitos referidos.
Há variação nos valores tantos acústicos e aerodinâmicos, em relação às emissões feitas por falantes do sexo femininos comparados aos do sexo masculino. Demonstrando que a diferença fisiológica é um fator determinante, mas essa não influência na mudança do padrão dos parâmetros acústicos e aerodinâmicos, ou seja, os valores podem se alterar desde que mantenham a mesma configuração.
Nossos dados acústicos de ditongação nasal corroboram com a hipótese de Shosted (2006) que aponta a emergência de uma consoante velar em posição offset nas vogais nasais. Assim, características gerais acústicas que diferem os ditongos nasais dos orais são: a movimentação de formantes ocorrida pela presença de antiformantes (STEVENS, 1998); aumento na largura de banda, dimunuição da amplitude sonora, reforço das baixas frequências, mudança na qualidade vocálica e redução da intensidade dos formantes.
O que aponta a contrição velar é o movimento dos formantes de alta freqüência que foram mostrados nos espectrogramas abalizados neste. Essa movimentação é derivada do fechamento da cavidade oral, no fim da na porção
acústica do glide nasal. Assim, na articulação do glide nasal há a constrição da cavidade gerada pela movimentação da língua em direção ao palato, somada ao deslocamento vertical do véu palatino.
Esperamos que este estudo experimental tenha esclarecido a formação da ditongação nasal nos segmentos vocálicos elencados, emitidos no dialeto paulistano. Acreditamos ter desenvolvido uma discussão proveitosa a cerca da nasalidade no PB e com os dois gestos principais, a movimentação do véu e a movimentação da língua, resultam em um mesmo padrão aerodinâmico do fluxo de ar nasal.
Nosso intuito é continuar estudando o fenômeno da ditongação nasal do PB, mas a partir de outros métodos experimentais bem como, futuramente, finalizar a análise dos dados de EMA. A fim de padronizar foneticamente o comportamento da nasalização, a partir de novas tecnologias para a descrição dos parâmetros da fala.
Almejamos por fim, que este possa servir de apoio para o desenvolvimento de outros estudos aerodinâmicos enfocando a produção da fala, ampliando o banco de dados desse tipo de material. Além dos dados descritos aqui, possa servir de base para os estudiosos das áreas de patologia de fala, como hipernasalização ou hiponasalização, por exemplo; fonética e fonologia; síntese e reconhecimento de voz, demais pesquisadores e interessados em geral.