Sobre a formação do professor de Educação Física para a inclusão do aluno com deficiência, a professora entrevistada nos relata sobre sua própria formação na universidade. Vejamos o recorte abaixo:
Eu tenho até medo de responder que não e estar sendo negligente ou esquecendo algum profissional que passou lá (universidade) por mim. Mas eu acredito que não. Não me lembro de ter tido, na graduação, uma matéria específica de Educação Física adaptada (...) (Prof.ª Maria, Entrevista 1, em 14/04/2016).
Na Universidade Federal de Alagoas, onde a professora Maria finalizou sua formação em 1993, não parece ter sido diferente das diversas instituições de ensino superior, que somente a partir da década 1990 iniciaram a formação do futuro professor de Educação Física com a temática do atendimento de alunos com deficiência (DUARTE, 2010), geralmente por meio de uma disciplina de Educação Física e Esportes Adaptados.
Na formação inicial, fica claro que a professora entrevistada teve uma formação bastante escassa, quase inexistente, quanto a informações a respeito da atuação do professor de Educação Física junto a alunos com deficiência no ambiente escolar. Neste sentido, também questionamos a professora sobre oportunidades de formação continuada, se houve e se nessas existiram conteúdos voltados à prática docente do professor de Educação Física junto a alunos com deficiência. A professora diz não ter cursado nenhum curso de pós- graduação completo, mas que em um desses cursos ela teve uma disciplina de Educação Física Adaptada. Vejamos o recorte abaixo:
Eu comecei três pós-graduações e não concluí nenhuma. As duas primeiras, eu tive que deixar por conta de questões profissionais. Que na época eu viajava muito com esporte. Treinava a equipe alagoana de handebol e aí eu fui perdendo os módulos e deixei. E a última, que foi pela universidade, que foi na qual eu tive a cadeira de educação física adaptada. Nessa, eu tive problema de ―erisipele‖ e eu precisei me afastar. E eu estou dependendo de duas ou três disciplinas para concluir (Prof.ª Maria, Entrevista 1, em 14/04/2016).
Nesse sentido, a professora acrescenta, a respeito de suas oportunidades em cursos de pós-graduação (lato sensu), as oportunidades advindas da Secretaria de Educação Municipal de Maceió - Semed:
Na realidade, é uma disciplina que você trabalha no fim de semana de pós- graduação; é muito pouco, pela grandiosidade do que a gente tem dentro dessa área, né? (Prof.ª Maria, Entrevista 1, em 14/04/2016).
A Semed promoveu... e eu acho que foi a Semed, não me lembro. Ela trouxe pra cá uma das técnicas (profissional) da seleção brasileira de desporto adaptado. Estava fazendo uma divulgação das paralimpíadas. Eu participei de todo o treinamento. Muito bom. Lá, a gente pôde ver o esporte de alto rendimento voltado para pessoas com deficiência. E eu me lembro que foi uma das coisas nessa área que mais me marcou. E não é só porque eu gosto do esporte, porque eu acho que eu estou muito mais para a educação física escolar do que para o esporte. Muito mais. A gente teve uma visão daquilo que é possibilidade, de conhecer também, fazer trocas com colegas que trabalham com as pessoas com deficiência. Que isso é muito bom (Prof.ª Maria, Entrevista 1, em 14/04/2016).
O que percebemos é que esta professora não teve em sua grade formativa inicial disciplina específica a respeito da temática (Educação Física Adaptada), especialmente por ter finalizado sua graduação no início da década de 1990, nem tampouco parece ter visto esse conteúdo de forma transversal por outras disciplinas do curso, já que os cursos estavam ainda iniciando a inserção destes conteúdos, conforme algumas medidas e orientações legais.
Quando formados, para alguns professores, poucas e restritas são as oportunidades de aprofundamento na temática. No caso da professora, apenas um fim de semana, em um curso de especialização, como ela mesma fala: ―é, de fato, muito pouco‖.
Nem todas as escolas estão preparadas para receber o aluno portador de uma deficiência e por vários motivos, entre eles, porque os professores não se sentem preparados para atender adequadamente às necessidades daqueles alunos e porque os escolares que não têm deficiência não foram preparados sobre como aceitar ou brincar com os colegas com deficiência (CIDADE e FREITAS, p. 1, 2002).
A professora Maria também percebeu que a própria Semed parece pouco investir na formação do professor de Educação Física para atuar junto a pessoas com deficiência. Numa oportunidade mencionada pela professora, ocorreu, em um momento, que, apesar de
significativo, foi bastante prático e restrito ao esporte, não sob uma ótica de educação inclusiva, que é a realidade que ela se depara de forma mais concreta nas escolas onde trabalha.
Diante disso, questionamos a professora sobre as outras formas que ela tem encontrado para adquirir informações e formação a respeito da inclusão de alunos com deficiência nas aulas de Educação Física escolar, considerando a precariedade desse serviço pela secretaria de educação, bem como pelas dificuldades pessoais apresentadas em participar efetivamente dos cursos formais de formação continuada que chegou a iniciar, mas sem muito sucesso na finalização. Ela responde:
Vamos considerar que de livros e revistas tenha sido 10% do meu conhecimento. Também não posso dizer que não foi, que não teve; teve, sim. Mas é muito mais de troca. De buscar em sites, buscar vídeos (Prof.ª Maria, Entrevista 1, em 14/04/2016). São muito mais fontes práticas. Lógico que dentro da prática você faz uma reflexão. Você teoriza a prática. Você tem as questões de vida e de conceitos de vida, meios éticos e espirituais. E todos os meus valores eu trago pra compor a aula, mesmo que seja prática. Mas as bases teóricas de conhecer, um a um (deficiências)... O que é o autismo, por exemplo, quase nada (informações). É mais das conversas. Porque se conversar com você, você vai me dizer o que é pra fazer, como é e como se comporta, eu sou capaz de entender tudo e dizer a alguém como se eu tivesse lido um tratado sobre este assunto, que é uma coisa que me chama atenção, e aquilo que chama atenção fica. Então é a minha curiosidade nas pequenas conversas, com as coordenações, com os pais dos alunos que tem (deficiência) a gente conversa, procura buscar (Prof.ª Maria, Entrevista 1, em 14/04/2016).
Na busca por informações e consequente autoformação, notamos que para a professora Maria, na sua formação sobre a temática, parece ter maior consistência e validade quando adquiridos com ―conversas‖ junto aos pares, pais de alunos com deficiência, e também em sua prática pedagógica impregnada por seus valores de vida, éticos e espirituais. Nesta fala, encontramos muito do que Tardif (2010) apresenta sobre os saberes docentes. Em sua pluralidade, há os sabres que partem da experiência deste professor (experienciais), muitos deles trazidos de momentos anteriores e extraescolares, mas que impregnam e ganham sentido em sua prática cotidiana, antes subjetivo, mas que se concretiza objetivamente por meio das trocas entre o professor e seus pares: ―As certezas subjetivas devem ser sistematizadas, a fim de se transformarem num discurso da experiência capaz de informar ou de formar outros docentes e de fornecer uma resposta a seus problemas‖ (TARDIF, 2014, p. 27). Nesse sentido, o professor é considerado não apenas um prático, mas também um formador.