2. LE CENTRE DE VALORISATION ENERGETIQUE DE MAUBEUGE (CVE)
2.6. LES TONNAGES TRAITES EN 2020 AU CVE DE MAUBEUGE
Se existe um ponto controverso – que gera inúmeras discussões entre os autores que tentaram definir o que seriam quadrinhos –, posso afirmar que este é o surgimento do gênero quadrinístico. isto é, qual obra deveria receber o status de produção inaugural.
McCloud (1995) diz que muitos livros sobre quadrinhos estipulam o seu surgimento pouco antes da virada do século XIX para o XX, como é o caso de Will Eisner. Porém, afirma que o seu surgimento pode ser marcado muito antes, em 1519, quando Cortés descobriu um manuscrito pré-colombiano que contava a história épica de um político e herói militar 8-Cervos, o “Garras de Tigre”. Acrescenta que em 1066 os franceses produziram uma tapeçaria com características muito parecidas à história épica encontrada em 1519. Afirma também que em todas as suas pesquisas não conseguiu encontrar dados que indiquem onde e quando as histórias em quadrinhos tenham começado, mas ressalta que a invenção da imprensa teve papel marcante na história dos quadrinhos e, assim, a forma de arte que antes era destinada a um público constituído por ricos e poderosos passou a poder ser lida por
todos. Para este autor, o pai dos quadrinhos modernos é Rodolph Töpffer que, em meados do século XIX, empregou caricaturas e requadros (contorno do quadro) e foi o primeiro a apresentar uma interdependência de palavras e figuras na Europa. Porém McCloud acredita que nem Töpffer soube reconhecer a potencialidade de sua criação que mesclava escrita e pintura. O autor diz ainda que as revistas inglesas mantiveram a tradição e, com a aproximação do século XX, as histórias de fantasia começaram a surgir num fluxo regular que continua até os dias de hoje.
García (2012) diz que nem os estudiosos dos quadrinhos chegaram a um consenso sobre qual seria a sua origem e que, assim, se agruparam em duas principais tendências. A que reconhece o professor Rodolph Töpffer como o inventor dos quadrinhos – que foi reconhecido por McCloud como o inventor dos modernos e não dos primeiros – e a que localiza como momento de fundação nos jornais New York Journal, de Willian Randolph Hearst e New York World, de Joseph Pulitzer, no final do século XIX. Essa divisão se daria principalmente como forma de manobra estratégica entre grupos que queriam ver os quadrinhos como tradição cultural artística ou como meio de comunicação de massas44. Moacy Cirne (1970, 1975) segue a segunda tendência e acrescenta que os quadrinhos nasceram dentro da rivalidade dos dois jornais, abalando a mentalidade dos literatos formados pela literatura e revolução industrial, em um período em que o aumento das verbas publicitárias estava relacionado com a tiragem dos jornais. Funcionavam assim, como uma forma de atração de novos e mais leitores.
4.1.2 A Leitura
Embora o presente trabalho não tenha por meta discutir as diferentes acepções de leitura, considero que, para iniciar a analisar uma linguagem tão específica, como é a dos quadrinhos, é pertinente refletir sobre o ato. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino da Língua Portuguesa:
A leitura é o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o mundo, sobre o autor, de tudo o que se sabe sobre a linguagem [...] Trata-se de uma atividade que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível proficiência. É o uso desses procedimentos que
44 Indico a leitura de Apocalípticos e Integrados, de autoria de Umberto Eco para um melhor entendimento sobre
possibilita controlar o que vai sendo lido, permitindo tomar decisões diante das dificuldades de compreensão, avançar na busca de esclarecimentos, validar no texto suposições feitas. (Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio, 1998, p. 69- 70)
Mesmo se tratando de um texto híbrido, podemos perceber que essas estratégias e mecanismos são também aplicados à sua leitura, pois para a leitura desse gênero será necessário compreender e interpretar não somente as palavras ou somente as imagens, mas sim o resultado da interação entre ambas.
Como bem explicita Will Eisner (1999, p. 8):
A configuração geral da revista de quadrinhos apresenta uma sobreposição de palavra e imagem e, assim, é preciso que o leitor exerça as suas habilidades interpretativas visuais e verbais. As regências da arte (por exemplo, perspectiva, simetria, pincelada) e as regências da literatura (por exemplo, gramática, enredo, sintaxe) superpõem-se mutuamente. A leitura da revista de quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual.
Tratando-se de um texto que vai exigir estratégias de leitura diferenciadas das exigidas por um texto estritamente verbal, coincido com Moacy Cirne, quando diz que “Para se compreender os mecanismos comunicacionais de uma estória em quadrinhos torna-se necessário que se saiba ler os componentes sígnicos que forjam a sua temperatura estética” (1975, p. 12). Assim como afirma o autor, apesar de parecerem simples, os quadrinhos podem apresentar muito mais elementos do que aparentam e compreendê-los pode exigir do leitor conhecimentos dos problemas sociais, culturais e artísticos.
O leitor de quadrinhos, mais que interpretar uma história, terá que ler a narrativa através da articulação de seus quadros. Lielson Zeni (2007) aponta que um quadro sozinho diz uma coisa, outro quadro isolado diz outra coisa, mas a leitura de um, associada à sequência espacial, combinada com a leitura do outro, produz mais que um somatório dos conteúdos dos dois quadros, produz algo novo.
Uma vez mais, trago as palavras de Cirne para demonstrar as particularidades dessa leitura:
A verdade é que não se pode ler uma estória quadrinizada como se lê um romance, uma obra plástica, uma gravação musical, uma peça de teatro, ou até mesmo uma fotonovela ou um filme. São expressões estéticas diferentes, ocupam espaços criativos diferentes, manipulam materiais orgânicos diferentes. Embora haja um denominador comum para a leitura que se preocupa com manifestações e discursos
artísticos, existem leituras particulares para cada prática estética. (CIRNE, 1975, p.15)
Apesar de ser monossensorial, já que a princípio necessitaria apenas do sentido da visão, a leitura dos quadrinhos ativa os nossos outros sentidos. Ao ler uma história em que os quadros indicam que a cena se passa em uma cozinha, como exemplifica McCloud (1995), em que são representadas panelas e assadeiras com sinais de fumaça, onomatopeias para reproduzir ingredientes sendo cortados, o leitor acaba percebendo e sentindo essas sensações e pode ser capaz até de ativar sua memória de cheiros e sons e incorporá-los à essa leitura.
McCloud (1995) diz que imagens são informação recebida, pois ninguém precisa passar por uma educação formal para entendê-las. Segundo o autor, a informação transmitida por uma imagem é instantânea. Afirma também que as palavras são informação percebida, pois seus símbolos abstratos só são compreendidos pelos que foram formalmente educados para decodificá-los. Para o autor, quanto mais distante da realidade maior a dificuldade para perceber uma imagem e quanto mais diretas as palavras maior a rapidez no seu entendimento, como ocorre com as imagens.
Discordo desse raciocínio de McCloud, pois apesar de concordar que é necessária uma educação para ler o texto verbal, não penso que toda imagem tem percepção instantânea, ao menos que o raciocínio seja ampliado para incluir que a interpretação é instantânea desde que faça parte do contexto cultural do leitor. Ainda assim, mesmo que a apreensão dos significados das imagens não passe necessariamente por uma educação formal, foi proveniente de algum outro tipo de aprendizagem, da vivência do leitor, de suas experiências.
Após esta exposição breve sobre o que nos exige este tipo de texto para que possamos compreendê-lo e interpretá-lo, apresento em linhas gerais, no próximo item, algumas características das histórias em quadrinhos. Características essas que serão relevantes quando chegar ao momento da discussão em que me importarão, sobretudo, as relações que se estabelecem entre a forma literária de Berocay e a HQ de Soulier.