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Chapitre 6 Points de route, routes et traces

6.3 Titres

No circo Fekete, Pinduca participava nos dois momentos dos espetáculos, no primeiro momento, no picadeiro, como o palhaço Pinduca, e, no segundo, nas

apresentações do circo-teatro. Almir ganhou seu primeiro papel numa encenação do circo- teatro, por ocasião de um momento fatídico, porque um dos atores, que era também trapezista, caiu do trapézio, ficando bastante debilitado. O ator e trapezista era Johnny Fekete, seu número no trapézio consistia em ficar de cabeça para baixo com a cabeça apoiada na base de ferro e tocar uma canção utilizando um instrumento de sopro conhecido por pistom. Quando o circo estava armado no bairro de Brotas, ele caiu do trapézio faturando a clavícula e duas costelas. Neste período, o circo estava exibindo muitas peças, como Lágrima de homem, Compra-se um marido, e ele ficou incapacitado de atuar nos espetáculos do circo-teatro.

A peça que iria ser encenada era Nossa mãe honrarás. Como Johnny estava impossibilitado de atuar, e Almir mostrava bastante desenvoltura no palco como Pinduca, foi convidado a substituir o ator no espetáculo. Ganhou o papel do genro bonzinho na peça Nossa mãe honrarás, atuando ao lado da atriz baiana Celina Ferreira. Almir fez o papel de genro de Celina. Em cena, a mãe era maltratada pelos filhos e pelo outro genro, seu personagem era o único da família a tratá-la bem.

Durante a encenação, Almir poderia fazer uso do ponto – uma pessoa escondida do público que discretamente soprava as falas para os atores – mas não se adaptou a essa convenção do teatro. Para ele, trabalhar com o ponto era algo para artistas acostumados com o recurso, já que, às vezes, ele não ouvia direito as falas, fazendo com que improvisasse nas cenas. Como sabia que faria o papel do genro brincalhão e respeitador, que brigava com todos para defender a sogra, dispensou o auxílio do ponto. Almir alcançou êxito em sua estreia, o que lhe assegurou a participação em outras peças como: A

vida, paixão e morte de meu Senhor Jesus Cristo, Compra-se um Marido, Lágrimas de Homem etc. Pinduca afirma ter atuado com o ponto nas encenações do circo-teatro

produzido pelo Fekete, mas rejeitava o artifício quando estava em cena.

Foi também no circo Fekete que Almir começou a escrever esquetes e pequenos dramas, entre os esquetes destaca-se O Grande Mentiroso. A ação passava-se num escritório de uma produtora. Almir fazia o papel de um Ébrio – tipo característico do cantor bêbado que ganhou essa nomeação devido à música O ébrio, de Vicente Celestino, lançada em 1935 e, mais tarde, adaptada para o teatro pelo próprio Celestino. Em O

Grande mentiroso, Almir aparecia meio barbudo, trajando-se como mendigo no papel-

título do esquete. Com o intuito de conseguir um emprego, o Ébrio chegava dizendo que estava para morrer, dizia que tinha sido um grande artista, um grande cantor, e então cantava, declamava e, para alimentar mais o drama, tirava o chapéu e chorava dizendo que

seu pai havia morrido, sua mãe tinha sido atropelada junto com sua irmã. Drama escrito em 1939, ano de início da Segunda Guerra Mundial, como Almir gosta de frisar.

Uma característica do circo Fekete, no período em que Pinduca fez parte de seu elenco, era os shows dedicados ou oferecidos em honra a determinado artista da companhia, a exemplo dos shows destinados a Jota Silva e a Helena Fekete. Eram festas de gala em que todo o elenco prestava homenagens aos artistas mais prestigiados da companhia. Essas festividades cumpriam duas funções: além de homenagear os melhores artistas do elenco, serviam de chamariz e propaganda para o circo, já que o público gostava desses festejos e tinha curiosidade de saber como seria a festa dedicada a determinada estrela do circo. Na verdade, o artista homenageado era quem escolhia o repertório a ser apresentado, pois a renda daquela apresentação seria revertida para o artista homenageado e sua família. Daniela Pimenta (2005), em sua obra Antenor

Pimenta: Circo e poesia, relata sobre essa mesma festividade, denominada de Festival do Artista, como forma encontrada por seu tio-avô, Antenor Pimenta, artista e empresário

circense, de acrescer o cachê de determinado artista.

Além do pagamento fixo, a cada cidade era feito um Festival do Artista: a renda da última sexta-feira da temporada era dedicada a um artista e sua família. O contemplado tinha total liberdade na organização do espetáculo, desde a escolha da peça a ser apresentada e dos números da primeira parte (que podia ser reduzida se a peça fosse muito longa) até o valor dos ingressos, promoções e divulgação. (p. 81).

O jornalista e escritor Afonso Ligório Pires de Carvalho (2004), em artigo escrito para o site Entretextos, informa que o circo Fekete foi fundando pelo húngaro Geovanni Fekete e, mais tarde, após sua morte, passou a ser administrado por seus filhos e herdeiros Johnny, Charly, Jimmy, Bobby e Billy Fekete. Cada um dos irmãos era responsável por determinada área administrativa da empresa, além de se dedicar a uma modalid ade artística e atuarem nas montagens do circo-teatro. Esse mesmo circo teve seu fim nos anos 50, em Recife, Pernambuco.

Johnny e Charly destacavam-se por seu número no Globo da Morte, numa apresentação que mesclava evoluções, montados em bicicletas no primeiro momento e, no segundo, giros, desafiando a gravidade em motocicletas velozes e barulhentas. Johnny também sobressaía como músico inspirado em Glenn Miller e sua Moonlight Serenade, sucesso na época. Assim como os outros irmãos, Johnny também se casou com uma

nordestina, tomando como esposa a baiana Normar, e, depois de findadas as atividades do circo Fekete, estabeleceu-se em Belo Horizonte como comerciante.

Ainda segundo Carvalho (2004), o circo Fekete tinha algo que merece ser referenciando, a sua estrutura física, composta por uma lona de duas fases, picadeiro e palco espaçosos e uma iluminação própria. O circo contava em sua trupe com um grupo de artistas especialmente preparados para as representações teatrais e outro elenco dedicado somente aos números típicos do circo.

Segundo dados do site Pindorama Circus, em artigo escrito por Hermância Feitosa Pereira (2003), o artista circense Joval Rios, juntamente com a sua esposa Durvalina Feitosa Pereira – Leda Rios, ingressou no Circo Teatro Fekete no ano de 1946 e foi nesse circo que Joval Rios desenvolveu a sua capacidade de interpretação, contando com o auxílio de Alberto Fekete, aquele que teria sido seu mestre na arte de interpretar. No circo , fez grande amigos como Eros Arruda, além dos membros da família Fekete, Bob, Charles, Nini e Raquel. Joval Rios teria expressado que, no Brasil, eram poucos os teatros que conseguiam manter a qualidade na montagem de peças teatrais como no Circo Fekete, pois, debaixo de sua lona, foram montados grandes épicos como, A queda da Bastilha e

Os Miseráveis.

Na opinião de Pinduca, o Circo Fekete foi, como ele gosta de dizer, “a maior equipe de shows que eu já vi em minha vida e que veio à Bahia, era um elenco completo” (2011). Cita os seguintes artistas com quem teve a oportunidade de trabalhar: Jota Silva, Eros Arruda, os palhaços Chimarrão e Jacaré, palhaço brincalhão e saltador que servia de “escada”, ou seja, preparava a piada ou ação para o palhaço Chimarrão. Pinduca fazia parte do trio de palhaço, além de dançar e cantar emboladas. E, dessa forma, ficou trabalhando no Circo Fekete entre os anos de 1937 e 1938.