A palavra património “…estava, na origem, ligada às estruturas familiares, económicas e jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo. Requalificada por diversos adjetivos (genético, natural, histórico…), que fizeram dela um conceito “nómada”, prossegue hoje em dia um percurso diferente notório” (Choay, 2011:11).
Mas, nem todas as manifestações culturais do passado podem ser consideradas património. “O património não é só o legado que é herdado, mas o legado que, através de uma seleção consciente, um grupo significativo da população deseja legar ao futuro” (Silva, 2000:218), isto é, um individuo ou um determinado grupo considera que aquele legado lhe pertence e tem um valor importante e deve ser preservado e transmitido a gerações futuras. Neste sentido, o património é uma “representação simbólica de uma dada versão de identidade” (Silva, 2000:219).
Atualmente fala-se em vários tipos de património, histórico, cultural, imaterial, industrial, natural entre outros. Nem tudo aquilo que as culturas vão criando, ao longo da sua existência é considerado património, “…a patrimonialização tende a fixar alguma permanência, quando a cultura, pelo contrário, está em constante mudança” (Pereiro, 2003:3). O património não é o mesmo que cultura, porque “…a cultura, em toda a sua multiplicidade e diversidade, não se pode conservar. A cultura vive-se, não se conserva e, por isso, o património não é o mesmo que cultura” (Peralta, Anico, 2006:1). Tal significa que existe uma evolução, uma dinâmica, que anima o património.
Contudo, os dois conceitos estão intimamente ligados, pois o património consiste num conjunto de bens que fazem parte da cultura de uma comunidade, mas nem sempre, esses bens culturais podem ser considerados património, estão muito para além.
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O património cultural pode ser entendido de múltiplas perspetivas: tradicionalista ou folclorista, como um conjunto de bens matérias e imateriais, ligado à cultura popular pré- industrial, como objeto do passado; construtivista, quando o património é visto como um sistema de construção social, uma representação simbólica da identidade; patrimonialista, isto é, “…o património cultural está integrada por elementos culturais que adquirem um novo valor através de um processo de “patrimonialização”, porém não é o mesmo que a noção de cultura” (Pereiro, 2003:4); produtivista, se o património é visto como um recurso para o turismo cultural e outras atividades, ou seja, um produto atrativo para o desenvolvimento em outras áreas; participacionista, quando a salvaguarda do património cultural vai ao encontro das necessidades sociais, ou seja, à participação social com o objetivo de não dar apenas importância aos bens culturais, mas sim aos indivíduos/comunidade.
Atualmente, o património cultural não se resume apenas aos bens materiais, monumentos e sítios, também existe uma outra visão mais antropológica. Ou seja, “…deixou-se de valorizar apenas as criações estéticas extraordinárias e idolatradas pelas elites – “as belas artes” –, para valorizar de igual modo o que é “culto” e “popular”, e assim “…o património cultural deixou de ser unicamente “histórico- artístico” (entendido como herança que merece ser conservada), para passar a ser algo em que o passado é interpretado a partir do presente e de acordo com critérios de seleção e valorização determinantes em cada época” (Pereiro, 2003:2-3).
Fala-se muito no património cultural imaterial, e afinal em que consiste este património? Compreende-se, segundo convenções nacionais e internacionais, por “património cultural imaterial as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural. Esse património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio, da sua interação com a natureza e da sua história, incluindo-lhes um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo, desse modo, para a promoção do respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana” (Cabral, 2011:17)
Outro conceito ligado ao património é a identidade. A identidade pode ser entendida “…como o grau de identificação e solidariedade que um indivíduo tem com o grupo a que
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pertence, baseado na perceção partilhada pelos membros de uma comunidade da homogeneidade social do Nós por oposição a Eles (Cerulo, 1997) ”. A identidade por assim dizer “ …é um processo de identificação historicamente apropriado que conferem sentido ao grupo (Cruz 1993). Ou seja, ela implica um sentimento de pertença a um determinado grupo étnico, cultural, religioso, de acordo com a perceção da diferença e da semelhança entre «ego» e o «alter», entre «nós» e os «outros» (Rodrigues, s.d:3).
De uma forma geral, a identidade surgiu do processo de interação que os indivíduos vão sentindo na sua vida diária, através do contacto e trocas com o seu meio envolvente e a sociedade cria e reproduz a sua identidade, tendo em vista o seu passado mitológico, histórico e simbólico.
O conceito de património e a identidade encontram-se relacionadas, pois “…o património é um elemento fundamental na construção da identidade social/cultural e, simultaneamente, é a própria materialização da identidade de um grupo/sociedade (Choay, 1992; Schiele 2002; Peralta & Anico 2006) ” (Rodrigues, s.d:4). O património é a manifestação simbólica da identidade e das vivências da comunidade. Os símbolos aparecem como um veículo de transmissão cultural, que os indivíduos mantêm entre o passado-presente e que os identificam como iguais e os diferenciam com os outros.
No caso da comunidade da Roça Agostinho Neto, em São Tomé e Príncipe, apesar da existência de mistura de várias culturas e identidades (trabalhadores vindo de Angola, Cabo Verde e moçambique) foi criada uma nova identidade, pois a partir do momento que os indivíduos se fixaram naquele espaço roceiro, surgiu um sentimento de pertença, mesmo que não definido conscientemente. À medida que os antepassados foram desaparecendo, a comunidade atual vê-se como uma só, não existe a diferenciação, ou seja, todos fazem parte do mesmo, pelo menos para os que são mais jovens e quase não conheceram as suas raízes. Contudo, esta pode ser mais uma visão externa do que interna, pode ser uma construção feita hoje, pelos que olham para a população de STP como se tratasse de uma só.