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Assumir a posição de analista para confrontar discursos que formaram nossa identidade nos fez entrelaçar o percurso científico a um percurso pessoal de reflexão sobre nossa própria história de vida, ao identificar nos sujeitos a formação discursiva e os imaginários sociais que estão profundamente arraigados ao nosso inconsciente. Esse entrelaçamento, impossível de ser desfeito, também engendra uma postura de deslocamento e investigação da própria identidade, de modo que ao mesmo tempo em que nos propomos a construir as análises das narrativas desses sujeitos, somos também construídos pela retomada e reinterpretação de nossos percursos.

Em nosso ponto de partida, nos propusemos a investigar de que maneira o ethos de um sujeito religioso era construído pela sua narrativa de vida. Acreditávamos que o testemunho evangélico era um gênero emblemático pouco explorado por estudos discursivos, mas amplamente difundido dentro de uma comunidade que pode representar hoje quase um terço da população brasileira. Tendo em vista que o nosso objetivo era investigar a relação entre a organização da narrativa e a construção do ethos, precisávamos de um aporte teórico que nos ajudasse a articular uma análise narrativa a construção de efeitos discursivos, o que nos levou à noção de modo de organização narrativo de Charaudeau (2014a, 2015), que concebe o gênero narrativa como uma totalidade em que se articulam o modo de organização descritivo e o modo de organização narrativo, estabelecendo critérios para a análise dos relatos a partir de um dispositivo de encenação narrativo.

Além disso, assumimos a noção de ethos discursivo em Maingueneau (2013, 2015, 2011a, 2018), que tem desenvolvido estudos sobre essa categoria de uma perspectiva enunciativo-discursiva, mas que não é incompatível com o aporte do qual lançamos mão para analisar o discurso das narrativas. Também aproveitamos as contribuições de Amossy (2011, 2014), Chanay e Kerbrat-Orecchioni (2007) e Charaudeau (2015), que discutem o conceito sob diferentes enfoques, mas revelam resultados que podem ser incorporados ao modo de analisar o ethos discursivamente. Maingueneau (2015) propõe uma abordagem fundamentalmente sociodiscursiva do ethos, de maneira que ele só poderia ser construído ao situá-lo em uma situação e conjuntura sócio-histórica específica. Sua proposta para isso é

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considerá-lo especificamente em relação à cena da enunciação, o que ofereceria ferramentas ao analista para investigar o ethos. Apesar disso, tomamos o conceito de contrato de comunicação de Charaudeau (2014a), ao entendermos que ele também possibilita especificar a interação discursiva local e socio-historicamente, possibilitando um estudo adequado do ethos.

Também tomamos de Maingueneau (2018) o conceito de tridimensionalidade do ethos (dimensão categorial, experiencial e ideológica) de modo a ampliar nossa concepção de ethos e evitar uma filtragem pessoal com base em estereótipos ou objetivos prévios à análise. Para conseguirmos dar conta dessas três dimensões, decidimos relacionar conceitos e noções desenvolvidos na análise do discurso. Para a dimensão categorial, acreditamos que o contrato de comunicação e a organização narrativa ajudaram a destacar os papeis desempenhados pelos sujeitos, tanto na exterioridade discursiva, quanto na sua interioridade. Para a dimensão experiencial, recorremos ao conceito de imaginários sociodiscursivos, incorporado aos estudos discursivos por Charaudeau (2015), e à noção de mundo éthico, de Maingueneau (2000). Para a dimensão ideológica, retomamos os conceitos de formação discursiva e interdiscurso, construídos a partir de inúmeras discussões realizadas por Pêcheux (1975, 1983) e Maingueneau (2008, 2011b, 2015).

Contudo, nossa pesquisa não se limitava ao estudo do ethos, mas buscava à sua relação com a organização narrativa, o que evidentemente influenciou nossos resultados. Por isso, discutimos nossa concepção de narrativas de vida, intimamente atrelada aos estudos desenvolvidos no grupo de pesquisa do qual fazemos parte, GELDA, que tem buscado fundamentos teóricos para análise desse gênero discursivo em diversos campos do saber e explorado a riqueza linguística, discursiva e social desses textos a partir de uma abordagem transdisciplinar da linguagem. Isso não denota aniquilar as fronteiras responsáveis por fundar as várias disciplinas que se dedicam ao avanço científico, mas ultrapassá-las sempre que necessário para promover uma discussão mais híbrida e cooperativa. Entre as posições teórico- metodológicas discutidas sobre o estudo das narrativas de vida, destacamos Charaudeau (2014a, 2015) e Maia-Vasconcelos (2020),

Além disso, concebemos essa pesquisa a partir de uma abordagem sociodiscursiva, de modo que nossa metodologia se constituiu acreditando que a relação língua-discurso-ideologia é fundamental para a análise do discurso, ainda que

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em muitos corpora as formações ideológicas tenham menos relevância para a construção dos sentidos. Em nosso caso, contudo, a análise se debruçava sobre o discurso autobiográfico de religiosos e essa percepção era fundamental, visto que a análise de discursos religiosos não pode se restringir ao estudo dos textos, mas deve observar de que modo eles se relacionam ao funcionamento das instituições que os produzem e os gerem (MAINGUENEAU, 2015, p. 61). Por outro lado, nosso principal foco não era necessariamente desvendar relações de poder, mas desvendar a construção do homo religiosus em suas narrativas de vida. O que não impediu, evidentemente, que o sujeito por trás desse discurso científico em vários momentos revelasse seu posicionamento e assumisse uma postura crítica. Podemos dividir a responsabilidade por esses efeitos à retomada que fizemos das origens materialistas da análise do discurso e à constituição da identidade desse sujeito-analista cindido entre o sagrado e o profano. Essa relação na verdade é responsável por todas as decisões metodológicas que tomamos, o que inclui a seleção do corpus.

Consideramos a descentralização do movimento pentecostal e decidimos tomá-lo como uma comunidade discursiva (SWALES, 1990) mais ou menos homogênea, que estaria representada nas características mais nítidas e abrangentes, como o discurso, os valores e os objetivos que possibilitam identificá-los como um grupo religioso distinto do catolicismo, do protestantismo histórico e do neopentecostalismo. Reconhecemos, entretanto, que essa decisão criou uma comunidade que não representa a todo o movimento pentecostal, o que exigiria uma visão muitos mais detalhista e menos generalizante. A partir disso, coletamos os seis “testemunhos evangélicos” mais visualizados da plataforma YouTube que tinham as seguintes características: haviam sido produzidos em igrejas, por indivíduos que não promoviam especificamente nenhuma instituição religiosa, cuja extensão era de até 25 minutos e a proposta não era mesclar a estrutura da narrativa a outros gêneros, como a canção ou o sermão. Após a transcrição, procedemos com uma análise elaborada a partir do conceito de modo de organização narrativo, de Charaudeau, com vistas a investigar a relação entre a encenação narrativa e a construção do ethos. Acreditamos que as análises nos possibilitaram alcançar os objetivos traçados no início da pesquisa, de modo que poderíamos organizar nossos resultados de acordo com cada objetivo:

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1 – descrever as características do contrato de comunicação que envolve a produção e a circulação dos testemunhos evangélicos;

Em relação aos dados externos do contrato de comunicação, percebemos que os participantes são sujeitos religiosos que compartilham de uma identidade forjada em relação a uma formação discursiva pentecostal, a qual se constrói, em meio ao interdiscurso religioso, com base na crença da ação do sagrado representada pelas “manifestações do Espírito Santo”. As finalidades da interação são múltiplas, mas percebemos uma predominância do fazer crer (iniciativa) e do fazer sentir (páthos) na história narrada. Os efeitos discursivos, porém, também constroem um fazer saber (informativa) e um fazer fazer (prescritiva), inerentes aos discursos religiosos. O propósito do sujeito é contar uma narrativa autobiográfica que se constrói em torno de um acontecimento singular: uma ação sobrenatural em sua vida. Assim, em primeiro lugar, temos o fato de que esse sujeito conta para o auditório uma experiência que surge da sua vivência, o que e é fundamental na constituição desse gênero (MAIA-VASCONCELOS; FREITAS; CARDOSO, 2015). Além disso, essa ação é interpretada pelo sujeito como uma manifestação do sagrado, adquirindo caráter simbólico, de modo que decidimos denominar como narrativas hierofânicas. O dispositivo (condições materiais do ato de fala) é um ambiente eclesiástico, com normas e expectativas de conduta próprias que discutimos, o que molda substancialmente esse gênero discursivo. Por outro lado, nossa análise tomou um texto transcrito de um vídeo coletado do YouTube, transposição que avaliamos para fazer as análises, visto que não participamos do contrato de comunicação “original”. Essa mudança também deve ser levada em consideração para avaliação os resultados.

Em relação aos dados internos, caracterizamos o contrato de comunicação da seguinte forma: o espaço de locução é familiar a praticamente todos que participam desse contrato, pois o sujeito falante garante o direito de tomar a palavra mediado por uma instância superior, o pastor da igreja, mas legitima esse direito atendendo as expectativas dos participantes envolvidos na comunicação. Para isso, ele segue as “regras” que orientam o discurso religioso pentecostal e se impõe como portador de uma narrativa verídica. No espaço de relação, o falante estabelece uma aliança com seus interlocutores através de procedimentos de identificação com os imaginários