2.4 Résultats numériques : modèle anatomique
2.4.4 Thorax 3D :
Seguindo outra perspectiva, atualmente existe um aumento na incidência dos casos de AIDS entre idosos, fenômeno que permite mui- tas inferências sobre a maneira como a sexualidade desse grupo é as- sistida pelo sistema de saúde. Em uma avaliação direta na plataforma DATASUS, observamos que, no período de 1995 a 2005, havia 329.014 casos novos de AIDS, dos quais 7.955 ocorreram com idosos, correspon- dendo a 2,42% do total de casos. Uma porcentagem pequena, todavia, com crescimento anual contínuo. Desses, 51,66% tornaram-se doentes em função de relação sexual heterossexual, sendo a via sexual a princi- pal forma de transmissão, que corresponde a 62,73% dos casos.
Segundo o Boletim Epidemiológico AIDS e DST 2011 (BRASIL, 2011), entre os anos de 1998 e 2010, “observou-se um aumento da taxa de incidência de casos de AIDS nas faixas etárias de 05 a 12, de 50 a 59, e de 60 anos e mais”. Já o Boletim Epidemiológico AIDS e DST 2013 (BRA- SIL, 2013) reitera o que foi encontrado no estudo de 2011, um aumento na taxa de detecção em adultos acima de 50 anos (considerados idosos na perspectiva epidemiológica da AIDS). Além disso, o Boletim Epide- miológico destaca o aumento da mortalidade causada por AIDS nas fai- xas etárias entre 55 e 59 anos e acima de 60 anos, que tiveram acréscimo de 22,7% e 33,3%, respectivamente, demonstrando a fragilidade dessa população em relação à doença.
Percebe-se, entretanto, que os dados utilizados para a elaboração desses boletins são referentes às taxas de detecção de AIDS, e não de HIV, sendo esses casos prevalentes, fato que gera questionamentos. É difícil determinar até que ponto esses casos seriam referentes ao aumento da taxa de infecção por HIV em idosos, isso é, relativas a novas infecções e não a pacientes que foram infectados na juventude ou na vida adulta e, em virtude da evolução do tratamento da AIDS, envelheceram e aumen- taram a taxa de prevalência entre idosos.
Merece destaque, porém, a carência de programas governamen- tais e estratégias em saúde que procurem trabalhar a prevenção de infec-
ções sexualmente transmissíveis (ISTs) nos idosos, que poderiam repre- sentar uma estratégia de combate a geriatrificação da AIDS. O debate, quando ocorre, é representado por campanhas pouco especifícas e que visam àconscientização da importância do uso de preservativos.
Em estudo qualitativo realizado por Lazarotto (2008), eviden- ciou-se que as informações que os idosos possuem sobre ISTs são muitas vezes equivocadas ou incorretas, o que contribui para que o comporta- mento sexual nessa faixa etária os exponha a riscos evitáveis com progra- mas de prevenção. No entanto, os programas de prevenção e promoção da saúde sexual existentes estão voltados para adolescentes e adultos jovens, reforçando o estigma de ausência de vida sexual ativa na terceira idade. O estudo realizado por Laroque et al, (2011) mostra que os idosos geralmen- te obtêm informações sobre prevenção de ISTs por meios informais e im- pessoais, como televisão, rádio e folhetos impressos disponíveis em postos de saúde. Logo, é preciso que a própria equipe de saúde se conscientize da necessidade de abordar as ISTs, incluindo a AIDS, quando presta assis- tência em saúde aos idosos. Além disso, existe a necessidade de uma am- pliação ou criação de medidas preventivas específicas no âmbito da saúde pública para esse grupo etário, como campanhas publicitárias.
Dessa maneira, conclui-se que a atividade sexual na terceira ida- de é desacompanhada da prática de sexo seguro, como a adesão ao uso do preservativo, fato que expõe esses indivíduos às ISTs. O idoso apre- senta dificuldade em se adaptar ao uso do preservativo, uma vez que sua vida sexual foi iniciada em uma época em que a utilização da camisinha não existia (LAROQUE et al., 2011). Para Driemeier (2010), “a moder- nidade [...] não traz consigo a atualização instantânea de velhos hábitos e crenças adquiridas em épocas passadas”.
Algumas características culturais, evidenciadas em pesquisas qualitativas, como as realizadas por Andrade, Silva e Santos (2010) e Laroque et al. (2011), podem trazer explicações sobre o fenômeno de aumento da incidência de AIDS no grupo dos idosos. Primeiramente, a visão de que o sexo seguro, com utilização de preservativo, seja neces- sário somente para fins contraceptivos, logo, descartável após a meno-
pausa. A mulher idosa e seu parceiro não enxergam a necessidade de se protegerem porque a mulher não poderia mais engravidar. Além disso, o predomínio de uma mentalidade machista na sociedade brasileira, em que o relacionamento do marido com outras mulheres fora do casamen- to é considerado normal ou aceitável, sendo recorrentes os casos em que os maridos adquirem ISTs com outras mulheres e transmitem a doença para as esposas. Por último, não é hábito de um casal em uma relação estável utilizar preservativo, por acreditar que a prevenção de ISTs nesse caso deve se pautar na confiança e fidelidade.
Entrementes, podemos observar que existe um padrão hetero- normativo nas discussões científicas sobre a sexualidade na velhice, em que os sujeitos de idade avançada homossexuais, bissexuais, assexuais ou transgêneros são negligenciados. Fato esse explicado pela presunção errô- nea de que os idosos são, via de regra, heterossexuais (OREL, 2014). Este fenômeno reflete, inclusive, nos atendimentos em saúde, nos quais a sexu- alidade do idoso, quando raramente abordada, é considerada um compor- tamento heterossexual. Perdem-se valiosas informações sobre ahistória da pessoa e sobre o modo comoela vivencia as relações interpessoais ao longo da vida. Logo, a ruptura do preconceito sobre a vida sexual dos idosos pode contribuir para uma assistência em saúde integral, ampliada e de intervenções de prevenção e tratamento mais efetivas.
A sexualidade do idoso deve ser considerada como um comporta- mento multifatorial, entremeado por diversas questões culturais, precon- ceitos e estigmas, e também por questões de saúde, com suas repercussões fisiológicas e psicológicas, que são definidoras da experiência individual. Assim, uma abordagem ampliada da sexualidade emerge como uma práti- ca inovadora e fundamental na assistência à saúde do idoso.
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2 TRANGENERALIDADES
Divine - Domingos Mazzilli, 2014. Fotografia: Felipe Ferreira.