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Para entender o processo de reformulação da imagem integralista a nível nacional, torna-se necessário voltarmos nossa atenção para as atividades clandestinas dos integralistas. Lembramos que a partir do momento que o Estado Novo entrou em vigor, começou um processo de desarticulação das atividades integralistas. No entanto, não havia provas da periculosidade dos integralistas, pelo contrário, muitos aliados de Vargas criticaram esse ato contra a AIB.

Pesquisadores como Hélio Silva, Márcia Carneiro e Gustavo F. Miranda, analisam que a posição tomada por Plínio Salgado, nesse momento, foi dúbia, pois ao mesmo tempo em que ele tentava uma conciliação política com Vargas, apoiava e/ou era conivente com os planos de golpe da AIB.304 Alguns desses levantes, tomaram grandes proporções, outros conseguiram algumas notas de jornais e acabaram esquecidos. Dentre os levantes integralistas abordados com maior frequência nos trabalhos acadêmicos, encontram-se os que ocorrem em março e maio de 1938 no Rio de Janeiro.

Ao invés de entrarmos nas discussões sobre a participação ou não de Salgado nos planos golpistas da AIB, direcionaremos nossa análise por outros caminhos, no caso, até que ponto os boatos e os frustrados levantes integralistas não foram acontecimentos positivos ao governo, que se utilizou desses fatos para legitimar seu intervencionismo político e social. O

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Respectivamente: SILVA, Hélio. 1938: Terrorismo em Campo Verde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971; CARNEIRO, M. Op. Cit.; e MIRANDA, G. Op. Cit.

162 ano de 1938 começou com a intensificação da ação vigilante e repressiva da policia. Como exemplo disso, o relatório concluído pela DOPS-PE em 02 de abril do corrente ano, no qual abordava a desarticulação por parte da polícia de um movimento revolucionário dos integralistas em Pernambuco.

Deante do desenrolar dos fatos e procurando attingir com êxito a sua finalidade, veio a Polícia de Pernambuco, por intermeio dessa Delegacia, e, graças ao seu bem organizado serviço de observações secretas, captar os primeiros signaes de preparação subversiva integralista no territorio nacional, positivado a veracidade de taes rumores,e, uma vez localizada a sua fonte, começou este comissariado os primeiros trabalhos os investigação, os quais acabaram por comprovocar a existência de um plano subversivo em elaboração, o qual deveria estar prompto para fazer rebentar um movimento de caracter extremista em todo o território nacional nos principio de Março próximo [...]305

Em outro momento desse documento, os investigadores constataram:

Aos resultados que ia este Commissariado obtendo, aqui em Recife, no interior do Estado, as Delegacias Regionaes de Polícia, devidamente orientadas iam colhendo progressivamente, os fructos de uma mais perfeita vigilância em torno das actividades dos nucleos locaes, sendo em dia versos Municipios apanhadas em flagrante reuniões secretas do sigma como aconteceu em Garanhuns, Catende, São Bento, Barreiros etc., chegando mesmo como aconteceu em Bello Jardim [...] Em Barreiros, o snr. Venicio Moraes, Chefe Municipal, declarava abertamente que muito antes do que se pensava elles transformariam o Estado Novo em Estado Integralista.306

Mesmo que os golpes desarticulados tenham ficado restritos a alguns militantes de certos núcleos, os discursos policiais eram de que os integralistas estavam envolvidos em um plano de nível nacional. Possibilitando uma atuação mais ampla e coercitiva contra os considerados inimigos nacionais. Nesse relatório policial, os municípios do interior pernambucano, como Garanhuns, estavam envolvidos nos planos golpistas dos ex- integralistas.

As atividades clandestinas dos integralistas não passaram despercebidas pela vigilância policial. Sobre esse momento, Hélio Silva escreveu: “A movimentação dos núcleos integralistas inquietava as autoridades. A Polícia Política vinha prendendo, seguidamente, em São Paulo, Paraná, Estado do Rio e Rio Grande do Sul, elementos envolvidos no preparo de

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“Relatório das actividades integralistas, na preparação do fracassado movimento subversivo de março ultimo, na parte referente ao Estado de Pernambuco.” Comissário de Ordem Política e Social. Recife, 02 de abril de 1938. Prontuário Funcional 29.291. p.1 – DOPS-PE/APEJE

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163 uma intentona.” 307

Esse autor fez essa consideração antes de apresentar trechos de artigos publicados no jornal O Globo, no qual tratava sobre a desarticulação da polícia de uma suposta intentona integralista.

Seria fuzilado o Chefe da Nação. Nenhuma autoridade poupada no tremendo massacre pelos integralistas. Foragidos todos os líderes dos camisas-verdes, inclusive o Sr. Plínio Salgado – Requintes de crueldade da conspiração abortada – A revolta nos quartéis – Fuzilamento em massa – Impressionantes as confissões – indignados com a fuga dos chefes – Centenas de prisões – A ação fulminante das polícias civil e militar – Até balas dum-dum em poder dos conspiradores.

[...]

Três mil punhais com a cruz gamada: – A chacina que forçosamente se seguiria

seria monstruosa. A polícia política apreendeu três mil punhais marcados com a cruz gamada. Procediam da residência de Sr. Plínio Salgado e estavam acondicionados em sacos de lona, habilmente camuflados.308

A reformulação da imagem da AIB no decorrer do Estado Novo não foi uma tarefa fácil para os membros do governo Vargas, pois, durante anos, os integralistas desenvolveram uma propaganda política de abrangência nacional em que apareciam como nacionalistas e defensores dos preceitos cristãos. Essa imagem acabou sendo aceita e legitimada por muitos brasileiros. Dessa forma, os membros do governo tiveram que se utilizar de algumas estratégias para inverter o papel de patriotas dos integralistas, para de traidores da nação. Como a de criar paralelos entre a AIB e o comunismo, colocando ambos na situação de extremistas e ameaçarem a soberania nacional. Corroborando com a figura de perigosos, os integralistas começam a aparecer nos prontuários funcionais e nos periódicos associados a armas, munições e planos de extermínio de oposicionistas.

A apreensão de armas (punhais) no Rio de Janeiro em núcleos da AIB repercutiu nas atividades da polícia em Pernambuco que, mesmo divulgando nos meios de comunicação, que a situação no estado encontrava-se sob controle, intensificaram suas práticas de vigilância e repressão aos grupos e indivíduos considerados suspeitos. Em um relatório, sobre as atividades e as teias de relações integralistas em solo pernambucano, representantes da polícia política descreveram a partir da apreensão de uma vasta gama de documentos, relativos ao funcionamento dos núcleos da AIB-PE. Com esses dados em mãos, Etelvino Lins - chefe da Secretária de Segurança Pública a qual a DOPS-PE estava subordinada - autorizou uma

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SILVA, H. Op. Cit. p. 89

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164 diligência sobre a redação do Diário do Nordeste, principal jornal integralista em Pernambuco. O resultado, segundo esse mesmo relatório foi:

Punhais para a chacina!

Na noite de sábado, quando, por determinação do Secretário de Segurança e de ordem do Delegado, os investigadores Pinheiro, Viana, Barbosa, Valdemar Magalhães e Generino, encarregado do fechamento do “Diário do Nordeste”, procediam a uma rigorosa busca na redação daquele jornal encontrarem em uma mala pertencente ao contínuo um dos punhais de que nos dão noticias os telegramas do Rio e que foram apreendidos na residência do Sr. Plínio Salgado. A arma apreendida mede cerca de seis (6) polegadas, tem a lamina fortemente aguçada, ponteaguda, e afiada de ambos os lados, parecendo de fabricação alemã, não sendo conhecida nos mercados do Paiz. Na lamina, Juno ao cabo está o sinete integralista – sigma, (formado pela conjugação da efígie de duas garças) com reprodução na bainha. Tem ótimo acabamento e grande resistência, sendo o material empregado para o seu fabrico de primeira. Em face disso, a Delegacia de Ordem Social continua procedendo a rigorosas buscas e efetuando novas prisões, sendo de esperar que se esclareça como entraram no Estado os punhais que os integralistas destinaram à chacina das autoridades a quem os distribuiu entre os conspiradores. O individuo em cuja mala foi encontrada a arma referida acha-se foragido.309

A partir desse documento policial, podemos retomar alguns elementos já comentados e adicionar outros sobre o processo de reformulação por parte da ação policial da imagem da AIB no decorrer do Estado Novo. Ao adentrar na redação do Diário do Nordeste, os investigadores teriam se deparado com um punhal, com características correspondentes às informações que tinham recebido por meio de telégrafos do Rio de Janeiro.310 Ao mesmo tempo em que essas informações contribuíam no aguçamento da ação policial, percebe-se a intenção do investigador que escreveu o referido relatório em associar o punhal encontrado com a Alemanha Nazista. Mesmo que o Brasil mantivesse relações amistosas com a Alemanha e muitos pernambucanos fossem admiradores desse país e dos feitos políticos e econômicos orquestrados por Adolf Hitler, como analisou Maria Philonina, não deixava de ser uma nação com interesses imperialistas.311

Associar a AIB a uma força política europeia possuía a intenção de desconstruir a imagem nacionalista que Plínio Salgado e seus integralistas tentaram produzir em torno do movimento do Sigma (∑). Assim, o patriotismo dos camisas-verdes dava lugar nos discursos produzidos pelos seus adversários, que os mesmos estavam sob o comando de países

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Punhais para a chacina!. Prontuário Funcional nº 1026. DOPS-PE/APEJE (Grifo nosso)

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Essa comunicação entre delegados, de regiões distintas, corrobora com as analises desenvolvidas pela historiadora Marcilia Gama Silva, que percebeu na elaboração de uma teia de informações o principal instrumento de repressão e controle social da DOPS. Cf.: SILVA, M. 1996.

311

Cf.: CORDEIRO, Philonila Maria Nogueira. Ascensão das Idéias Nazistas em Pernambuco: a quinta coluna em ação (1937-1945). Recife: UFPE, 187 f. Dissertação (Mestrado em História) UFPE/CFCH, Recife, 2005.

165 estrangeiros, defendendo os interesses imperialistas da Alemanha e Itália. É importante destacar que no momento histórico analisado aqui, não era de conhecimento público o que acontecia nos campos de concentração nazista e havia vários grupos que admiravam a obra nazista em todo o Brasil.

A partir dessas informações, o relatório policial citado anteriormente, observa-se que o delegado procurava legitimar a ação policial de perseguição e prisão de integralistas suspeitos de agiram contra a ordem social. Sobre esse evento, Andrade Lima Filho, na época diretor desse jornal, escreveu o seguinte sobre a sua fuga:

E uma tarde aconteceu. Eu estava na redação, quando tocou o telefone. Atendi, pondo, conforme o prudente hábito que adquirira como aprendiz de conspirador, papel de seda sobre o bocal. – “ O Andrade está” ? – perguntou a voz, do outro lado do fio: era o Edson. – “Não chegou ainda” – respondi, ganhando tempo. Mas acrescentei a pergunta, sem dúvida ociosa: - “Quem é”? O de lá não respondeu. Desligou. Desconfiei da parada, avisei a Telmo Pontual, o gerente, que me forneceu algum dinheiro, e passei o comando da redação a Jorge Abrantes, excelente companheiro que muito moço ainda se foi, mas não sem que antes, mais cedo do que eu, se tivesse libertado do micróbio integralista. E ganhei o mundo, numa fuga espetacular, cujo intinerário, ora pitoresco, ora amargo [...] O Edson, sem querer, me dera a senha para a retirada.312

Edison Moury, citado por Lima Filho, era, na época, o diligente titular do DOPS-PE, e coordenou os investigadores que encontraram o punhal integralista na redação do Diário do Nordeste. Enquanto o autor dessas memórias fugia em direção ao Rio de Janeiro com o intuito de participar de outra tentativa de golpe, que dessa vez buscaria atingir diretamente o presidente Getúlio Vargas. Durante a fuga, acabou acometido pelo que chamou de “furúnculos”, doença de pele que resulta em uma concentração de pus, que no final acabou deixando-o de cama. Mesmo doente, Lima Filho comentou que não desistia de participar do plano, pois “[...] eu responsabilizava o Ditador [Getúlio Vargas], então, por todos os abscessos do Brasil. Inclusive os meus”. 313

No entanto, ao chegar às terras cariocas em 09 de maio, estava muito debilitado e por causa dos “furúnculos” e por também ninguém ter ido buscá-lo para o ataque ao Palácio Guanabara, residência de Vargas, ficou de fora do golpe.

A composição dos envolvidos nessa tentativa de assassinato do presidente Vargas, segundo Hélio Silva, não foi unicamente de integralistas, mas estavam também envolvidos políticos liberais de tendência antigetulistas e elementos das classes armadas, principalmente da Marinha. Esse ataque ao palácio do Guanabara recebeu muita atenção dos meios de

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FILHO, A. Op. Cit. p. 49

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166 comunicação, que noticiaram o fato como uma comprovação da periculosidade dos integralistas. Mesmo que o grupo de milicianos tivesse uma formação heterogênea, como observou o historiador Silva, o ônus da tentativa frustrada recaiu sobre os militantes da AIB. A partir desse momento, a repressão policial sobre os integralistas se intensificaram.

3.5. A resposta policial aos inimigos da pátria: repressão policial aos membros do

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