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2.5 Thermal Management

revisionistas, a memória e a história paraguaia é o caso de Concepção (Concepción), cidade situada ao Leste do Paraguai, na divisa com o Mato Grosso do Sul (MS). Esta foi um dos últimos redutos de resistência às forças dos países aliados na Guerra da Tríplice Aliança, ou seja, contra o Brasil, o Uruguai e a Argentina. No ano de 1869, de acordo com Guido Alcalá229, teria ocorrido a chamada Conspiración de Concepción230, que se deu em face à chegada de uma frota dos aliados e fez com que membros da sociedade de Paso Pucú (localidade de Concepção) se reunissem, a fim de traçar estratégias, visto que não receberam ordens do Exército. Este já estaria praticamente destruído desde a última batalha, a de Lomas Valentinas, em dezembro de 1868 e, ao mesmo tempo, o próprio Francisco López havia fugido para a sua estância. Tecnicamente, o que a frota objetivava era apenas o controle do Rio e, por isso, manteve-se às margens deste, sem invadir a cidade.

Durante esse período, a comunicação entre Assunção e Concepção foi reestabelecida e o governo de Solano López entendeu que a cidade de Concepção havia traído a sua confiança, isto é, estabelecido alianças com o governo brasileiro a fim de não ser invadida. Com informações de delações e supostas investigações, o governo prendeu, interrogou e matou diversas mulheres, crianças, idosos e alguns homens (visto que a maioria da população masculina paraguaia,

229 ALCALÁ, Guido R. Introdução. DÉCOUD, Hector. La masacre de Concépcion: ordenada

por el Marechal López. Assunção: RP Ediciones, 1994. Disponível em: <http://www.portalguarani.com/1669_hector_francisco_decoud_/19283_la_masacre_de_conce pcion_ordenada_por_el_mcal_lopez__por_hector_f_decoud_.html>. Acesso em: 10 fev. 2017.

230 Episódio que se deu depois da batalha final da Guerra da Tríplice Aliança, Lomas Valentina,

perdida pelo Paraguai. Moradores restantes e parte dos combatentes foram mortos e outros enviados à Humaitá, um campo de concentração, acusados de traição a Francisco López.

cerca de 70%, havia morrido em batalhas). Guido Alcalá define da seguinte forma as ações de Assunção:

As vítimas de San Fernando foram, em grande medida, pessoas de influência militar e política que, hipoteticamente, poderiam enfrentar a López; se isto não justifica o assassinato de Benigno López, Vicente Barrios, Saturnino Bedoya e outros, o faz menos monstruoso que a repressão contra a população civil de Concepción e, sem dúvida, se pode continuar o paralelo: tanto em San Fernando, como em Concepción, foram a suspeita do déspota e as intrigas dos espiões que causaram a cadeia de prisões e interrogatórios junto à tortura que produziram confissões desesperadas que, por sua vez, conduziram a novas prisões e torturas. Em situação semelhante, o torturado diz qualquer coisa para evitar a dor; seu testemunho falso compromete as pessoas que, violentadas, dizem o que seus executores exigem que digam ou inventam o que puderem querer ouvir. Temos visto situações semelhantes durante a tirania de Stroessner, em processos políticos que, se não fossem trágicos, seriam cômicos pelo absurdo de seus procedimentos. López foi um “Stroessner” mais perverso porque foi além da derrota, mas ao fundo sua ditadura foi similar a de Stroessner – a de qualquer ditadura. É compreensível, então, que a chacina de Concepción, livro testemunhal de Héctor Francisco Découd, tenha sido eliminado da Biblioteca Nacional e de qualquer livraria ou biblioteca em tempos de Stroessner. O fugitivo de Boquerón, identificado com o fugitivo de Lomas Valentinas, compreendia que a crítica da repressão é crítica contra todo repressor [tradução minha]231.

231 Para Guido Alcalá, Héctor Decoud tem o seu livro caracterizado como testemunhal por ter

vivido a Guerra do Paraguai, diferente da perspectiva dessa tese. No original: “Las víctimas de San Fernando fueron, en gran medida, personas de influencia militar y política que, hipoteticamente, podían enfrentar a López; si esto no justifica el asesinato de Benigno López, Vicente Barrios, Saturnino Bedoya y otros, lo hace menos monstruoso que la represión contra la población civil de Concepción. Y, sin embargo, se puede continuar el paralelo: tanto en San Fernando, como en Concepción, fueron la suspicacia del déspota y las intrigas de los espías las que comenzaron la cadena de apresamientos y interrogatorios bajo tortura que produjeron confesiones desesperadas que, a su vez, condujeron a nuevos apresamientos y torturas. En situaciones semejantes, el torturado ha dicho cualquier cosa para evitarse el dolor; su testimonio falso compromete a personas que, violentadas, dicen lo que sus verdugos les exigen decir o inventan lo que pudieran querer oír. Situaciones semejantes hemos visto durante la tiranía de Stroessner, en processos políticos que, de no ser trágicos, serían cómicos por lo absurdo de sus procedimentos. López fue un Stroessner más perverso porque lo exacerbó la derrota, pero el fondo de su dictadura fue similar al de la de Strossner – al de cualquier dictadura. Es comprensible, entonces, que La masacre de Concepción, libro testimonial de Héctor Francisco Decoud, haya sido eliminado de la Biblioteca Nacional y de cualquier librería o biblioteca en tiempos de Stroessner. El fugitivo de Boquerón, identificado con el fugitivo de Lomas Valentinas, comprendía que la crítica de la represión es crítica contra todo represor.” ALCALÁ, Introdução..., op. cit.

O escritor compara a brutalidade peculiar ao acontecimento de Concepción ao que ocorreu em outra localidade denominada San Fernando232, cujas vítimas do cerco e da matança também teriam sido torturadas mesmo sendo pessoas influentes em várias instâncias sociais e militares. Entretanto, no caso de Concepção havia uma diferenciação, pois os seus mortos (cerca de 700 em números oficiais) foram pessoas que nem ao menos estavam envolvidas diretamente com o conflito, como no “cerco” final de San Fernando. Além disso, as provas teriam sido as delações provenientes de sessões de tortura empregadas às crianças, às mulheres e aos idosos os quais, em desespero, teriam afirmado exatamente o que seus algozes esperavam ouvir. No mais, a ação de espiões também foi crucial, algo semelhante ao governo de Stroessner, muito eficaz na caça aos que se colocavam contra o seu governo. Para além de tudo isso, o que incomoda, de fato, Guido Alcalá é que o livro intitulado La Masacre de Concepción, de Héctor Decoud, publicado no ano de 1926, o qual se refere ao massacre ordenado por Solano López na cidade de Concepción, foi retirado da Biblioteca Nacional na década de 1930, uma época em que o Paraguai já vivenciava governos pouco democráticos e instáveis, ambiente propício para os golpes ocorridos nas décadas seguintes, como o de Stroessner.

Héctor Découd era um sobrevivente do massacre de Concepção, filho de Juan Francisco Découd, exilado neste contexto e fundador do partido liberal em 1887, irmão de José Découd, também fundador do partido liberal e que compôs o grupo político predominante nos primeiros anos de governo no período de intervenção do Brasil e do Uruguai. Découd e sua família teriam sofrido o exílio e o massacre de Concepção, cuja história é narrada em seu livro, incluindo a caminhada de vários dias junto à sua família com o propósito de se distanciar de Assunção, em direção a Humaitá, onde permaneceu em um campo de concentração. Mas, segundo Alcalá, foi justamente no ano de 1926, ano de lançamento da obra de Découd, que [...] uma manifestação local e seguidora do fascismo internacional [...] [tradução minha].]”233, o qual seria o responsável pelas memórias ruins de Héctor Decoud que, por sua vez, declarou o seguinte: [...] em que a perversidade do seu responsável parece que tinha querido superar a si mesma, guardou um silêncio estudado, para que a posteridade, chamada a julgar os fatos da história, a ignorasse ou a esquecesse; mas este propósito não se verá realizado [...]

232 Idem.

233 No original: “[...] se celebró en Asunción el centenário del nacimiento de Francisco López,

[tradução minha]”234. Dessa forma, é evidente a percepção de manipulações, ao menos sobre o La Masacre de Concepción; porém é possível perceber na citação de Héctor Decoud seu sentimento de resistência, quando o escritor afirma almejar ver na história futuramente uma revisão daquela versão.

A exaltação da imagem de Francisco López fez parte do governo de 1936 e ainda do de Morínigo, na década de 1940. Neste, a proposta era de incentivar uma “ideologia oficial”, segundo Guido Alcalá, sendo uma influência presente no governo de Alfredo Stroessner, anos mais tarde. Estas representações só cederam à medida que este último governo começou a perder suas forças. É nesse momento que Guido Alcalá aponta as mudanças que ocorrerão no que chama de “revisionismo histórico”. As narrativas assinadas e legitimadas por Juan O´Leary, as quais colaboraram na exaltação dos López e de quem afirmava os representarem, se não passaram a ser refutadas, ao menos foram inquiridas nas décadas seguintes aos anos de 1970-1980.

Entretanto, de acordo com o Programa 9 sobre La mujer en la Historia Paraguaya, do programa Radial Feminista del Paraguay235, alguns resquícios do tipo de narrativa escrita por Juan O`Leary ainda estão presentes. Neste, a pesquisadora Noelia Quintana teria afirmado que não foram criados campos de trabalho forçado no período de Francisco López, muito menos um campo em especial onde três mil mulheres (parentes em geral de homens e soldados considerados traidores ao fim da guerra) teriam sido confinadas. Estas ficaram conhecidas como destinadas, nome que faz parte de um dos livros de Alcalá e também está presente em outras bibliografias.

A questão que circunda esse tema é que a exaltação incentivada por O`Leary a figuras como as dos López contribuiu para a formação de uma “boa memória”, a qual agora resume casos como o das destinadas a uma versão criada por aqueles que não são a favor destes governos. Ainda, na entrevista, Noelia Quintana teria chamado o livro de Alcalá de “novela romântica”, ou seja, sem fundamento ou sem uma análise crítica:

234 No original: “[...] en la que la perversidad de su responsable parece que hubiera querido

superarse a sí misma, se ha guardado un silencio estudiado porque la posteridad, llamada a juzgar los hechos de la historia, la irgnorase u olvidase; pero este propósito no ha de verse realizado [...].” Idem.

235 RADIAL FEMINISTA DEL PARAGUAY. Programa 9 sobre La mujer en la história

paraguaya. Radial Feminista del Paraguay. Disponível em:

[...] As destinadas... e onde está a documentação sobre as destinadas? ... este tipo de propaganda não gera e não constrói a pátria... está baseada no livro de Rodríguez Alcalá, que é um conhecido personagem que tem interesses vinculados ao Brasil... essa análise vem daí, qualquer estudioso da história sabe perfeitamente de onde provém esse tipo de discurso... por que se pinta a mulher como destinada...? Porque não é vista como realmente foi, uma mulher valente... [...] [tradução minha]236.

Na citação, a pesquisadora aponta que as mulheres presentes nos campos deviam ser vistas por sua valentia, por coragem e não por atitudes arbitrárias e despóticas de López, descontextualizando questões de gênero bastante sérias. Afirmo isto porque, sem dúvida, mulheres presas em um campo de trabalho forçado podem atuar com valentia, enfrentamento e resistência, entretanto isso ocorre em um contexto de reação e não de escolha, diante da conjuntura em questão. Ao analisar o livro de Alcalá, observo ainda que este traz as questões relativas aos campos, porém sem fazer qualquer análise de gênero. É possível sugerir a existência de uma disputa de memórias, um embate para que se defina a mais correta/fidedigna versão sobre aquele acontecimento, quando a pesquisadora afirma perceber em Alcalá a intenção de chamar a atenção. Tal ideia traz à história o lembrete de sempre buscar compreender melhor esses processos históricos e as diferentes possibilidades sobre os mesmos.

Guido Alcalá, por sua vez, tem suas versões sobre os acontecimentos paraguaios e, por isso, carrega as suas escolhas e suas tendências. É primordial manter em mente o fato de que sua literatura e, em especial, seus ensaios, são testemunhais, carregados de subjetividade e tecidos de memória. Por exemplo, independentemente de Hector Découd ser um representante do Partido Liberal, ser filho e sobrinho de seus fundadores, sua história faz parte de uma resistência ao governo de Francisco López e de seus sucessores. A imagem de López fazia parte das comemorações e das exaltações memorialistas de Alfredo Stroessner, o qual dizia ser o herdeiro daquele tipo de governo, o que para Guido Alcalá no contexto dos anos de 1970 a 1990 deveria ser analisado e criticado, tendo em vista sua própria trajetória, para que

236 No original: “[...] Las destinadas… ¿y dónde está la documentación sobre las destinadas? …

este tipo de propagandas no genera y no construye patria … viene en base al libro de Rodríguez Alcalá que es un conocido personaje que tiene intereses vinculados al Brasil…ese análisis viene de ahí, cualquier estudioso de la historia sabe perfectamente de donde proviene ese tipo de discurso…¿por qué se le pinta a la mujer como destinada…? Por qué no se la ve como realmente fue, una mujer valiente… [...].” Idem.

fosse acrescido à memória da história paraguaia àqueles que, no viés do escritor, resistiram e faziam também parte das “minorias”. Nesse contexto, livros como os de Héctor Decoud foram reeditados, lançados e debatidos por escritores como Guido Alcalá, chegando até mesmo a servir de mote para novos contos.

O que se percebe com as leituras apresentadas até aqui é que o governo republicano iniciado nos anos de 1870 e que se manteve até 1936 era marcado por uma democracia bastante frágil, alvo de disputa de grupos privilegiados que, ao disputarem entre si o poder ou o melhor tipo de economia para o país naquele momento, ignoraram uma participação popular mais ampla. Nesse contexto, a escrita de revisionistas, como a de Juan O´Leary, foi fundamental para que os liberais perpetuassem o poder em suas mãos, ao passo que mantinham a situação social/cultural não muito diferente do que encontraram. Importante também considerar que, na ausência do conhecimento sobre o que ocorreu, o que sempre haverá é uma disputa pela versão ‘mais verdadeira’; deste modo, críticas como a de Noelia Quintana também contribuem para se refletir sobre a escrita de Alcalá e a de qualquer outro escritor. Ciente disso, é possível refutar narrativas heroicas e trazer à tona novas perspectivas sobre os acontecimentos registrados na história oficial, em especial no que diz respeito às resistências e à memória, no bojo de discussões sobre acontecimentos traumáticos, como as Ditaduras da América Central e do Sul. Sobre esses aspectos discuto no próximo item.

2.3 A ditadura de Stroessner, o Panteão dos Heróis e a Memória

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