THEORIE DE L'ELECTROPHORESE ET RESULTATS EXPERIMENTAUX
I. THEORIE GENERALE DE L’ELECTROPHORESE
As experiências vividas pelos irmãos no seio desta fratria parecem desempenhar um importante papel naquilo que diz respeito à expressão e movimentação das dinâmicas do Feminino e do Masculino.
No caso da Amélia é muito evidente a separação entre a altura em que eram apenas a Amélia e o Fausto, que faziam “porcarias” juntos, que estavam “sempre juntos” e faziam “muitas coisas” juntos e a altura em que passaram a ser os três. Com efeito, o nascimento do irmão parece não ter sido recebido da mesma maneira pela Amélia como foi pelo Fausto, numa atmosfera festiva e celebrante. Já sabemos que, apesar de o Fausto afirmar que ambos desejaram muito o irmão, no dizer da Amélia o Rúdi não fazia parte do (seu) plano. Também não fazia parte do (seu) plano o Rúdi nascer rapaz, já que a Amélia “queria que fosse uma menina”. Apesar de o Fausto dizer que não tinha preferência quanto ao género do irmão, a Amélia refere que o Fausto “queria que fosse um rapaz”. Continua: “depois nós descobrimos que era um rapaz e eu fiquei bué chateada (…) até chorei e tudo.”. Assim, no entender da Amélia, o Rúdi foi a concretização do desejo do Fausto: nasceu para ser um irmão para o Fausto, já que ela própria era uma irmã. A Amélia parece ter vivido essa transição da fratria de dois para a fratria de três como a transição para uma fratria de dois mais um em que ela se vê obrigada a abandonar um lugar masculino inicial que ocupava junto do Fausto. Refere logo em seguida: “o meu pai incutiu-me uma ideia dessas que eu ia ser a única neta da minha avó, a única rapariga da casa, a princesa da família…” como se a solução possível para esse luto do seu lugar masculino inicial fosse tornar-se a “princesa da família”. Quando interrogada sobre o significado de ser a princesa da família, diz: “(…) tenho mais cenas para fazer, tipo limpar e não sei quê, mas tipo também sou a menina da casa e fazem-me as vontades.”. É curioso notar que a Amélia coloca como definição de princesa o cuidado com as limpezas e
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com a casa, o que vai no sentido de ter sido essa a solução por si encontrada. Deste modo a Amélia revela-nos que a constituição desse lugar de princesa foi levado a cabo por si como solução para conservar o seu lugar na fratria, num papel de feminino-materno cuidador dos irmãos-filhos. Considerações relativas a este aspecto serão tecidas na seguinte secção do trabalho. Esse lugar é mantido na relação com o Rúdi – foi, aliás, constituído a partir do Rúdi: “o Rúdi sabe que eu faço tudo o que ele quer (…) o Fausto pode sentir-se de parte… não é eu gostar mais de um do que do outro, só que eu dou-me melhor com o Rúdi.”. Nesta intervenção a Amélia parece fazer uma identificação ao Fausto. Quando sugere que “o Fausto pode sentir-se de parte” parece estar a dizer que o Fausto pode sentir-se como ela se sentiu quando o Rúdi apareceu e o Fausto passou a ter “mais cumplicidade” com o irmão do que com ela.
No caso da relação entre a Amélia e o Fausto é bem diferente: “temos uma relação mais tipo de igual, nós falamos tipo das nossas coisas.”. Não só, também transgridem juntos as regras: “O Fausto pede-me cigarros e depois quer fumar comigo cá em casa, mas eu não fumo cá em casa… ele quer fumar enquanto os meus pais „tão a dormir, mas eu não consigo! (…) isso é bué arriscado! (…) e eu às vezes dou-lhe cerveja (…) ele fica bué contente.”. O conflito entre os dois surge quando o Fausto, aos olhos da Amélia, exagera nas expressões da sua masculinidade: “(…) fala bué alto e depois é bué, é demasiado expansivo, e depois eu fico… aquilo é demais para mim, „tá sempre a sair, „tá sempre a falar, „tá sempre a ouvir música, tem bué energia, e eu fico… aquilo é demais, não sei.”.
Nessas alturas a Amélia parece pôr em marcha reivindicações fálicas como tentativas de penetrar de novo no seu lugar inicial, mas essas tentativas não são bem recebidas pelo Fausto: “Uma vez que eu „tava a tentar estudar aqui no quarto e o Fausto no quarto ao lado a pôr a música super alta e eu já me „tava a passar, então já „tava super enervada, saí do quarto aos berros a dizer que esta casa era uma barulheira infernal e não dava, e depois o Fausto saiu do quarto dele já todo enervado e eu disse assim: «Baixa já essa música senão levas nas trombas!» e depois pus-lhe a mão assim bué perto da cara e depois ele é super alto e super largo e disse assim: «Tu é que levas!» - e eu: «Ah! Meu Deus! Vou levar uma lambada que vou parar à Lua!».”. O Fausto, o elemento Solar, reenvia a Amélia de volta ao feminino, ao lunar. Assim o Fausto demonstra cumprir um papel organizador para a Amélia transportando-a de volta ao seu (novo) lugar e para fora do lugar que não é dela, mas onde por vezes ela gostaria de voltar a pertencer.
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Em certos momentos a gestão dos papéis e dos lugares entre si e os irmãos – entre o feminino e o masculino – são difíceis. A Amélia refere: “(…) entro sempre em choque. Sempre por causa das arrumações e da limpeza, é sempre a mesma coisa (…) quando moro sozinha „tá sempre tudo bué limpo, também não há ninguém para sujar (…) e aqui é uma barafunda, são imensas pessoas… depois eu enervo-me um bocado com isso.”. A Amélia quer ter as posições e as relações arrumadas na sua cabeça, mas em casa, na proximidade dos pais e dos irmãos, torna-se difícil, por oposição à paz – “arrumação”, “limpeza”, “silêncio” – que sente quando está sozinha. Ali, em casa, torna-se difícil de separar as coisas, perceber e aceitar qual o seu lugar. O Rúdi capta isso: “(…) a minha irmã „tava a reclamar porque tinha de separar as roupas de toda a gente e ninguém lhe ajudava (…) eu sentei-me no sofá e ela foi-me perguntando de quem eram as coisas para poder separar.”. Assim se vê como a Amélia precisa de “ajuda” para “separar” os conteúdos que são da relação com os pais dos que são da relação com os irmãos. O Rúdi, à semelhança do Fausto, parece também cumprir um papel organizador quando a “ajuda” a “separar” a “roupa”.
Todavia, apesar das vicissitudes aparentes que ser a “princesa da família” colocam, a Amélia afirma que não gostaria de ter uma irmã: “(…) se ela fosse tipo com a personalidade parecida à minha e à dos meus irmãos, eu ia entrar bué em choque com ela (…) eu „tou bem assim, não quero nenhuma irmã, „tou bem assim, sou a princesa da casa.”. Não é de estranhar que a Amélia, que tão ardilosamente teceu e reteceu para si esse lugar impenetrável a partir do qual consegue relacionar-se com os irmãos – numa ocupação do lugar da mãe, é certo –, não quisesse mais uma irmã, que poderia vir a colocar em causa o seu lugar na fratria. Entre os rapazes o encaixe dos lugares e dos papéis parece ser mais pacífico e assente em experiências de reciprocidade e troca mútua em que o mais novo fica feliz por poder aprender com o mais velho e o mais velho participa e contenta-se com o crescimento do mais novo. O Rúdi refere, no início da narrativa, uma característica importante desta relação com o Fausto quando conta: “(…) eu tinha para aí quatro anos (…) saímos para comprar bolachas de chocolate e uma fanta e ficámos a andar na rua a comer (…)”. No discurso do Rúdi transparece uma relação recíproca em que ambos vão “a andar na rua”, lado-a-lado. O Fausto também se refere a essa característica da relação de ambos quando diz: “(…) já temos mais interesses em comum (…) [o Rúdi] já sabe ver um rabinho, já dá para conversar.”. Assim, o apreciar das raparigas, um elemento masculino, agora partilhado entre os rapazes parece permitir a ambos expressar-se nesse lugar e participar na construção um do outro. Essa relação tem espaço para a diferença de idades num registo gratificante e saudável para ambas
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as partes. As expressões do masculino do Fausto, como ser “bom no desporto” parecem ser captadas pelo Rúdi – “aprendo muito com ele”. Quando afirma que aprende muito com o irmão o Rúdi está a enunciar que se identifica com ele. Continua: “(…) gosto de „tar com ele, nós muitas vezes saímos de casa para ir jogar basquete. Eu gosto porque aprendo muito com ele, ele joga muito bem.”. O Fausto constitui-se, para o Rúdi, como um exemplo a seguir e a par com quem se construir: “eu sempre achei que ele jogasse muito bem, ele era o meu irmão mais velho, eu ficava orgulhoso (…) a querer um dia ser como ele, ou melhor (…) em um tempo eu já lhe apanho.”.
Por seu turno o Fausto aceita e gratifica o crescimento do irmão e as expressões do masculino: “(…) ainda por cima joga de selecção (…) „tou a ver que o miúdo „tá-lhe a dar bem… fico contente (…) sangue do meu sangue. Sempre orgulhoso.”. Não só o gratifica como também participa nele: “(…) eu acompanho (…) o mano no basquete (…) dar umas dicas (…) se ele precisar de umas dicas já sabe.”. O Fausto participa no crescimento do Rúdi dando-lhe “dicas” sobre a constituição do seu masculino, “sobre miúdas e tal”. Esse movimento do Fausto em direcção ao Rúdi é percebido pelo Rúdi quando conta: “o meu irmão começou a dizer que ela era minha namorada.”.
Assim, na fratria Maia, o Fausto parece convidar o Rúdi à identificação ao masculino. Este movimento tem derivações em ambos: no Fausto, que se oferece como modelo de identificação; no Rúdi, que se identifica e se tenta diferenciar do irmão, superando as suas capacidades. Este lugar exclusivo aos rapazes leva a Amélia a estabelecer(-se n)um lugar feminino em certa medida sobreposto ao da mãe, lugar que terá constituído como possibilidade para o luto do lugar inicial.