Este conto de Alice fecha o ciclo da infância. Aqui, Alice se encontra com um grupo, no qual pela primeira vez Alice se empodera de um papel que pretende assumir e se reconhece com iguais. Alice, não é mais aquela que observa, agora Alice age.
O conto se relaciona ao final da fase em que morei na Vila Caiçara, onde me lembro da segunda infância. Foi lá que comecei a crescer e me descobrir não só como menina, mas como mulher.
Quando estava na oitava série, nos mudamos para uma casinha no Jardim Imperador, bairro mais afastado da Vila Caiçara e do centro da Praia Grande. Era um bairro bem pobre, e a casa, recém-construída, novinha. Tinha um quarto, sala, cozinha, banheiro e quintal. Mudamos para essa casa porque meu padrasto estava comprando um apartamento e realizando, enfim, o sonho da casa própria. Como morávamos de aluguel, foi preciso economizar. Nós não tínhamos móveis porque a casa anterior era mobiliada, assim, além de pouco espaço, tudo era improvisado.
Eu dormia na sala, e minha irmã, com os pais no quarto. Todos os cômodos eram bem pequenos. Eu não era mais criança. Lembro-me de mim já adolescente. Não tinha vergonha nenhuma de morar ali, mas minha mãe tinha. Na frente da casa tinha um terreno com uma casa-barraco onde morava uma família de negros pobres.
Eu fiz amizade com o pessoal. O lugar era muito pobre, mas eu gostava. Lembro-me de cuidar de uma família de patos... Era quase um sítio. Tinha muitos bichos por perto.
Agora eu não era mais uma autista na escola. Comecei a descobrir meu potencial como aluna, eu passei a dar conta sozinha das minhas coisas e agora conseguia me organizar com lições, trabalho e estudo. Passei a ser boa aluna na escola, tirar notas boas e ser reconhecida. Fiz amizades novas e consegui entrar para a turminha de meninas “legais e inteligentes” da sala. Cursava o último ano no Colégio Santa Maria e éramos a turma dos mais velhos da escola. Um terror, mas uma delícia! Eu fiz grandes amigas e foi ótimo ter me encontrado antes de sair do Santa, porque pude entrar no Ensino Médio com mais segurança dos meus potenciais. Poder ser vista e aceita por aquele grupo de meninas foi das coisas mais importantes da minha vida. Creio que só passei a acreditar em mim depois que elas o fizeram e acho que estar aqui hoje é resultado desse encontro.
Encontro também com o percurso de Matheus, que em seu relato de vida traz as memórias ligadas aos meninos da rua, às travessuras, aos seus heróis, que nesse passo para a adolescência vão se construindo como referências. Matheus em seu relato: “Teve um tempo que eu vivi em São Paulo, mas eu ficava entre São Paulo e São Carlos... ficava lá em Pinheiros. Fiquei um tempo lá, com uma tia, mas eu ficava um pouco lá, um pouco cá (...) televisão, eu só fui conhecer quando tinha doze anos na casa da minha tia, em São Paulo (...) tinha uns primos em São Paulo, sempre mantinha contato e lá eu conheci televisão, então toda vez que ia para são Paulo eu via televisão, tinha um programa na televisão chamado Vigilante Rodoviário, que eu era fã, Lessie (risos), tinha Turma do Sete, na Record, tudo assim, uns programinhas meio infantis, mas eram interessantes, eu gostava. E em São Carlos, mesmo, eu
tinha uns quatorze anos quando chegou a televisão em São Carlos. Meu vizinho tinha uma televisão. Ele era inspetor de ensino. Tinha um cargo mais elevado, sabe? Naquela época professor tinha um certo status, sabe? ... E ele era um acima de diretor. Ele já foi professor, depois subiu, então ele era uma pessoa que tinha mais recurso... Ele tinha um carro, naquela época só tinha carro importado, não tinha nacional, tinha casa na praia, no Guarujá... Ia todo ano para o Guarujá, sabe? Era assim! Era sócio do São Carlos Clube... Tinha piscina no São Carlos Clube. Uma vez por semana (a gente) ia assistir televisão na casa dele para assistir o Vigilante Rodoviário.
A gente ia toda quarta-feira, eu não esqueço, assistir o Vigilante Rodoviário... E aí, a mulher lá, a mãe do Paulinho, acabava o filme, ela já ia e apagava a televisão: ’Bora, todo mundo, bora (ao som de palmas)’. A minha mãe, coitada, se esforçou e comprou uma televisão depois. Isso eu tinha quatorze anos, mas mesmo assim a gente assistia aqueles filminhos lá... desenho animado. Mas no dia a dia era rua, brincava de bola, futebol.
O bairro, era molecada que vivia ali, que muito bem, em harmonia, brincava de Tarzan. A nossa referência era Tarzan, os filmes de faroeste. Nosso referencial era esse. Tinha as matinês no cinema de São Carlos, então a gente tentava imitar nas nossas brincadeiras (...) brincava de espora, de Tarzan, de... (risos) índio...”
O que chama atenção nesses encontros de vida que não se encontraram, são as similaridades das buscas, das construções de modelos, das experiências do crescimento.
Apesar de estarmos tão distantes em tempo, idade e geografia, nessa fase entre os doze e quatorze anos, foi o momento de viver em grupo e, de alguma forma, já ir buscando caminhos que conduzissem à vida adulta, ir buscando construir no imaginário “o que seria quando crescesse”.
O que salta de Alice, minha autobiografia, e a de Matheus são os modelos, os heróis, os arquétipos que vão servindo como base para construção do eu-adulto. Em Alice surgem as princesas; na vida de Matheus, os cowboys e o Tarzan.
Sobre as escolhas dos arquétipos em Alice, a primeira pergunta que me fiz foi: “Por que antes foram fadas e agora foram princesas?”. A escolha dos personagens em Alice não foi estudada, como já dito. Os contos foram escritos intuitivamente e só nas análises é que perguntas como estas foram sendo respondidas.
A princípio, a escolha parece não importar. Ao buscar suas referências simbólicas nós vamos nos encontrando nos escritos sobre arquétipos, e nos vendo cada vez mais ligados ao coletivo, ao social, ao ancestral. Vamos nos dando conta de que nossa memória, nosso imaginário, não são apenas construções individuais ou coletivas ligadas a um determinado tempo e espaço. Somos seres cujo imaginário transcende, seres que apesar de etéreos trazemos conosco certa eternidade, deixamos no mundo alguma cicatriz. Passamos pela vida carregando um monte de outras vidas desconhecidas, guardadas em nosso inconsciente. O ser humano é rede, nunca é um.
As princesas aparecem no momento de transição entre a infância e a adolescência. Por que princesas?
“Na linha de Jung, a princesa representa o arquétipo da donzela, preparando-se para iniciar a vida amorosa, sexual e constituir família, encontrando o príncipe encantado” (Correia, 2010, p. 09).
A escolha pelas fadas, anteriormente, deu-se pela infância inocente que aquele momento representava: a magia, o encantamento, a imanência do imaginário infantil. Agora passamos por um processo de amadurecimento, um marco. A princesa é um símbolo de iniciação. Momento que “marca o aparecimento do ego individual na transição da infância para meninice” (Henderson, 2002, p. 128).
O mito do herói, segundo Henderson, parece ser a primeira etapa na diferenciação da psique. No caso de Matheus, os heróis aparecem personificados nas figuras dos personagens da TV, dos filmes, dos desenhos. Os heróis representam os ritos de iniciação: separação, iniciação e retorno (trata-se do monomito, segundo Campbell):
Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodigios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtem uma vitoria decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer beneficios aos semelhantes. Prometeu foi aos céus, roubou o fogo dos deuses e voltou à terra. Jasão navegou por entre as rochas em colisão para chegar a um mar de prodigios, evitou o dargão que guardava o Velocino de ouro e retornou com o Velocino e com o poder de recuperar o trono, que lhe pertencia por direito, de um usurpador. Enéias desceu ao mundo inferior, cruzou o horrendo rio dos mortos, atirou um bocado de comida embebida em uma substancia calmante ao cão de guarda de três cabeças, Cérbero, e finalmente conversou com a sombra do seu falecido pai. Tudo lhe foi revelado: o destino dos espíritos e o de Roma, que ele estaba por descubrir: “e, com essa sabedoria, ele poderia evitar ou enfrentar todas as provações”. Retornou, pasando pelo portão de marfim, ao seu trabalho no mundo”. (Campbell, 1997, p. 36)
A ressonância dos arquétipos é também produto das imagens que consumimos, fato muito bem observado no relato
de Matheus. Se vivemos num mundo cultural rodeado de imagens, estas de certa forma moldam também nosso imaginário.
“O exterior impõe-se ao indivíduo, sendo o corpo alvo reiterado do poder da imagem. Diariamente, somos confrontados/as com certos modos de pensar, agir e sentir, que nos colocam em determinados lugares, contribuindo para a nossa constituição como sujeitos portadores de uma identidade, em que a representação e a imagem do ser humano têm um papel fundamental, colocando os sujeitos frente a um permanente espelho” (Correia, 2010, p. 03)
Há uma relação direta entre as imagens produzidas pelo indivíduo e as assimiladas pelo meio em que vive. Culturalmente, ainda estamos cerceados pelo conhecimento como produto da construção ocidental branca e patriarcal. Uma cultura que se valoriza sobre outras e impõem modelos para homens e mulheres.
Se meninos escolhem heróis, meninas escolhem princesas... Ao menos, em um determinado tempo histórico.
Apesar das princesas representarem arquétipos do momento de transição da vida de menina para a de mulher, nossas releituras em contos de fadas, desenhos animados, brinquedos... trazem como representação:
“(...) um modelo hegemônico de feminilidade: etnia branca, jovem, heterossexual, magra, bonita e dócil, indo ao encontro das características que a sociedade ainda privilegia em relação à feminilidade. Além da insistência, por parte do mercado de consumo, dos signos de eterna juventude e de beleza nas representações femininas, determinando quais as mulheres passíveis de serem amadas ou desejadas, o amor romântico apresenta-se como o ideal de felicidade” (Correia, 2010, p.13) O encontro de Alice com as princesas traz também algum sentimento de “inadequação” ao grupo, o que na verdade deve relacionar-se a um sentimento de não pertencimento a este
arquétipo imposto pelo social. Os atributos misturados ao arquétipo original da princesa transformam o arquétipo em modelo, destituindo-o da sua função simbólica e transformando- o em um ideal utópico ou mero estereótipo.
Alice não se identifica, mas busca em sua subjetividade elementos que possam interessar às princesas e conquistar então o seu espaço. Alice quer o “idem”, quer o igual, mas não se vê igual pela sua história, pela sua experiência, pela forma como se põe no mundo na representação simbólica de Castigo.
Os processos vividos por mim e Matheus podem se referir ao fim do movimento de afastamento descrito no monomito ou a fase em que começamos a nos distanciar do núcleo familiar e da vida infantil, nos preparando para o processo de iniciação. Um arremedo, um fazer-se pronto para o ritual iniciático, que nesse momento é dado apenas por reconhecimento em modelos e representações midiáticas. Numa perspectiva da antropologia simbólica de caráter hermenêutico do estudo das estórias de vida e o material autobiográfico, vemos que:
“E o universo da iniciação imanta os mitos literários. E na construção do(s) personagem(ns) estamos também em pleno universo da narrativa autobiográfica, biográfica, romanesca, como gênero literário mas todas como estórias de vida (…) ler o romance como autobiográfico e, já cruzando com os resultados da psicocrítica, vê-los como seres de linguagem de um ‘moi orphique’ que agencia como personagens os fantasmas, de modo que os personagens são objetos interiores postos na narratividade do texto. Permite-nos ainda ver o convite ao pacto fantasmático como uma ressonância fantasmática e um círculo hermenêutico garantidos por um ‘contrato de leitura’ que torna a obra aberta numa circulação fantasmático-poética (fantástica) com o receptor (…)” (Paula Carvalho, 1998, p.229 e 239)