Há algo que ultrapassa o corpo como metáfora. É a experiência do corpo. A experiência perpassa todos os corpos. Neste sentido ela é a construtora dos corpos. Ela é quem faz os corpos. Ela é quem destrói. A experiência é. Tudo o que é existente, abstrata ou fisicamente. A experiência esvai-se. Não se apreende a experiência, mas há a experiência do aprisionamento. O corpo antecede à experiência como realidade ontológica, mas o corpo não prescinde da experiência. Aqui não há hierarquia. Aqui tem vivência. Talvez...sabedoria (OLIVEIRA, 2007, p. 110)
Um ponto forte da aprendizagem nas casas de samba é a vivência. Foram unânimes as menções dos mestres ao se referirem a importância do processo de vivência nas aulas, onde os sambadores mirins convivem com os colegas, com o mestre ou nas apresentações do grupo adulto. Esse processo também foi mencionado para se referirem a importância da vivência da comunidade e da relação com o lugar como fundamento importante da aprendizagem da música produzida naquele contexto. A música que é feita pela comunidade não está desatrelada dos modos de vida. Nesse sentido, os componentes na universidade estão em desvantagem visto a estrutura de organização dos componentes na universidade, como já refletido, os horários fechados, a carga-horária, o espaço, são empecilhos para que essa vivência se materialize de maneira mais efetiva. No entanto, a importância dessa vivência é tão fundamental que penso que ela deve ser incentivada pelos professores, ao mesmo tempo que o próprio componente, mesmo entendendo as suas especificidades, pode
buscar ações que aproximem esse elemento da sala de aula. O recurso audiovisual, as visitas de campo, a visita de convidados, penso que todas essas são ações que podem incentivar a vivência no processo de formação do estudante universitário. Aqui, me inspiro nos sambas do Recôncavo como uma referência fundamental, no entanto, essa racionalidade se aplica a qualquer que seja a tradição que é trabalhada em sala de aula. O que se discute aqui é muito mais um pensamento e uma racionalidade do que um repertório em si.
No âmbito dessa racionalidade, fazer e aprender música são processos diretamente ligados aos costumes da comunidade. Faz-se música ao cortar a cana, ao bater o feijão, ao lavar a roupa, ao tomar uma “meóta”66 no bar, ou seja, esse fazer
musical é parte de um viver, da caminhada da vida67. Por isso, viver, a vivência é um
elemento fundamental. É comum que as pessoas, ao se referirem ao samba, digam que ele é a própria vida, assim como no jongo, no cavalo marinho, no coco. Pensando assim, não vejo maneira melhor de se aprender esta música do que a vivendo. Essa ideia reforça a importância que trouxe acima em relação ao professor de música estar em constante processo de etnografia das práticas musicais, no que tange a pesquisa, formação. Trago novamente a fala do Mestre Milton Primo já apresentada no capítulo anterior por ela representar um fundamento para entendermos a importância da vivência a luz da concepção da transmissão desta tradição na Casa de samba Mestre Zé de Lelinha. Segundo ele,
(...) cantar todo mundo canta, tocar todo mundo pode tocar. Mas eu acho também que a pessoa deve vivenciar um pouco a atmosfera que a gente tá, estão. Eu digo os sambadores, as sambadeiras, o jeito de falar, até de gritar a chula, não sei, talvez uma vivência, uma experiência. Estar mais na comunidade, porque você pode chegar, fazer uma oficina, workshop, “oh o pandeiro é assim”, a letra do samba é assim, mas e o jeito de cantar, a gente e tal, não sei se isso é passado com a vivência, por isso eu digo, talvez estar mais presente, ouvir mais.
(...) Aí eu volto ao que falei no inicio, eu deixo sempre o processo de escuta, que a gente faz a coisa na transmissão na oralidade na vivência, então se ele não vivencia, não escuta, não está assistindo, não tá ouvindo, ele não vai reproduzir.(...) Por isso que eu digo, tem que vir, a gente tem que escutar, tem que observar, ir no caruru, ir no
66 Termo que se refere a cachaça.
67 O compositor Roberto Mendes, na música “O samba antes do samba”, ilustra essa relação da música com o dia a dia das pessoas. Nesse caso ele faz uma alusão a narrativa de criação do samba. Observo essa relação quando ele canta o verso “som de facão no tabuleiro de cana, palma na mão e o cabula no tambor”. Para apreciar esta canção, acessar: < https://www.youtube.com/watch?v=twCPnCMpS2I>
ensaio, participar efetivamente de uma roda, sentir a atmosfera, porque o samba é uma vivência mesmo (informação verbal).
É justamente no lugar dessa vivência que emerge esse trabalho, visto que o pensamento de fronteira ou o conhecimento de fronteira sempre foi o que me norteou, que me orientou, ou melhor, que me “suleou”, na minha formação, assim como na minha atuação enquanto docente. Creio que não teria como ser diferente, visto que muito do que aprendi representa a minha própria vida, a citar minha relação ainda em casa com a minha avó, filha do Recôncavo e apaixonada pelo samba, a vivência no bairro onde fui criado cuja maioria da população é negra, o que faz com que essa identidade reflita nos hábitos culturais da comunidade. E ainda, reflete a minha formação enquanto músico nas rodas de samba e na própria relação com o pagode baiano, gênero que considero oriundo da diáspora dos sambas do Recôncavo no contexto soteropolitano. Se fosse diferente, se estas fronteiras epistemológicas não fossem materializadas em mim e na minha prática, teria que negar, invisibilizar, esquecer, apagar toda a minha vida externa ao contexto acadêmico. Seria como exterminar parte da minha vida.
Sendo assim, esse texto mais do que uma discussão acadêmica, se refere a sobrevivências, a existências, a valorização, ao direito de ser o que se é. A discussão aqui é sobre existir para si e para outro. É sobre o direito de pensar e falar com a própria voz, ou melhor, com o próprio corpo. É estudar quem somos e quem podemos ser. É de considerar a própria existência na produção do conhecimento. A consideração da escrita enquanto uma ferramenta tecnológica da área de música, a valorização do fazer musical enquanto processo, a etnografia enquanto
fundamento músico-pedagógico, do ponto de vista conceitual, epistemológico, e a vivência, enquanto um ideal, ao meu ver, juntos, podem ser um caminho promissor
para uma descolonização do ensino de música. Além disso, me parece que esses elementos, conectados com uma visão de construção criativa, sem preconceitos, considerando todas as possibilidades de existências, têm potencial para lançar luz sobre um conceito de uma educação musical afrodiaspórica. Uma educação musical que é viva e que têm múltiplas identidades, mas que não abre mão de sua ancestralidade, de sua matriz. Aqui a ideia é de uma matriz que é africana, ressignificada, recriada a partir da sua conexão com novas referências e novos territórios. É a criação de uma nova existência. Uma existência com possibilidade de
múltiplas identidades. Viva e em constante transformação. Uma antena parabólica edificada no mangue como na figura 5. Ou ainda, como uma existência negra conectada com o mundo, como na ilustração de Walter Mariano, na figura 6.
Figura 6 - Antena Parabólica fincada no mangue
Fonte: Texto “O Recifense e a Contemporaneidade”68
Figura 7 - Ilustração de Walter Mariano para o ENICECULT69
68 Imagem retirada do texto “O recifense e a contemporaneidade”. Disponível em: <https://modulacao.wordpress.com/2014/12/02/o-recifense-e-a-contemporaneidade-por-tota-maia/>
69 Encontro Internacional de Cultura, Linguagens e Tecnologias do Recôncavo, promovido pelo Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT), vinculado à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).