O levantamento de dados foi realizado de forma individualizada, em um contato previamente agendado quando do aceite do convite para participação no estudo, conforme já descrito anteriormente. Todos foram lembrados na véspera, via telefone, do compromisso agendado com a pesquisadora e, embora alguns tenham solicitado alteração, todos compareceram ao momento de coleta de dados. Esse momento era iniciado sempre com a reapresentação do TCLE e com a lembrança de que poderiam solicitar outras informações ou mesmo desistir da pesquisa a qualquer momento, se assim o desejassem.
A aplicação das ferramentas teve duração média de duas horas, e foi gravada na íntegra. Em um primeiro momento foram buscados e registrados os dados sociodemográficos, da primeira parte da entrevista semiestruturada. Em seguida foi aplicada a técnica da trajetória socioprofissional, iniciando-se com a construção conjunta (pesquisadora e sujeito de pesquisa) do desenho do genetograma em uma folha avulsa e concluindo-se com o preenchimento, igualmente de forma conjunta, do restante da técnica da trajetória sócio profissional, já no computador. Ao final, retornou-se à entrevista semiestruturada, para coletar os dados
relativos às questões norteadoras, oportunizando-se espaço livre para comentários além daqueles mediados pelas ferramentas.
O processo de levantamento de dados foi realizado, em sua maioria, em um espaço físico reservado e adequado, na própria empresa de consultoria e assessoria, à exceção de dois sujeitos que, por terem agendado no período noturno, foram ouvidos em uma sala de consultório de psicologia da própria pesquisadora. Os horários para esse segundo contato, de aplicação das ferramentas de coleta de dados foram todos agendados de acordo com a disponibilidade dos participantes.
Resguardou-se um tempo amplo para levantar os dados de todos os participantes, o que se mostrou como um procedimento válido, pois, tal como na aplicação piloto, os demais também relataram, de uma forma ou de outra, que fazer uma retrospectiva da sua vida, entendida aqui como trajetória laboral, era se darem conta daquilo que fizeram e de como estão, situação essa manifestada e constatada pela maioria de forma negativa, mobilizando sentimentos. Percebeu-se nesse momento que os recursos da metodologia qualitativa de fato mobilizam aspectos subjetivos, tanto para os sujeitos quanto para a própria pesquisadora. Ao se darem conta da sua trajetória, alguns se emocionaram ao ponto de chorarem, avaliando negativamente esse percurso.
A mobilização de sentimentos, no caso principalmente da aplicação da trajetória socioprofissional, mostrou que esse instrumento, ainda que adaptado, vai ao encontro dos conceitos originais da técnica, bem como do fundamento teórico que lhe respalda, a Psicossociologia, na medida em que possibilita resgatar eventos objetivos e subjetivos, simultaneamente, ou seja, que as dimensões coletiva e individual apresentaram-se de forma imbricada, como um verdadeiro mosaico. 4.6 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE E DE DEVOLUÇÃO DE DADOS
Essa etapa da pesquisa, naquilo que tange à parte estrutural, consiste em uma das últimas etapas a ser desenvolvida, embora na prática de pesquisas qualitativas possa se dar de modo cronológico um pouco diferente, iniciando-se já simultaneamente à coleta de dados. A análise de dados, para Bogdan e Biklen, é
o processo de busca e de organização sistemático de transcrições de entrevistas, de notas de campo e de outros materiais que foram sendo acumulados, com o objetivo de aumentar a sua própria compreensão desses mesmos materiais e
de lhe permitir apresentar aos outros aquilo que encontrou (1994, p. 205).
Após a transcrição literal das 11 entrevistas e da construção e reexame das histórias oriundas das narrativas obtidas mediante a técnica da trajetória socioprofissional, buscou-se estabelecer articulações entre os conteúdos obtidos por meio destas duas ferramentas, constituindo-se esta busca como um primeiro passo nos procedimentos de análise dos dados. Essa análise foi realizada através da Análise de Conteúdo, entendida como um conjunto de técnicas de análise que buscam, através de procedimentos sistemáticos e objetivos da descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relacionados às condições de produção destas mensagens (BARDIN, 1979). Esse recurso de análise de dados
parte de uma leitura de primeiro plano das falas, depoimentos e documentos, para atingir um nível mais aprofundado, ultrapassando os sentidos manifestos do material. Para isso, geralmente, todos os procedimentos levam a relacionar estruturas semânticas (significantes) com estruturas sociológicas (significados) dos enunciados e a articular a superfície dos enunciados dos textos com os fatores que determinam suas características: variáveis psicossociais, contexto cultural e processo de produção da mensagem (MINAYO, 2010, p. 308). Optou-se especificamente pela análise temática de conteúdos, na qual a noção de tema está ligada à narrativa e a determinado assunto, podendo aparecer em uma palavra, uma frase ou um resumo. Nessa modalidade de análise, “o tema é a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura” (BARDIN, 1979, p. 105). A análise temática desdobra-se nas etapas sequenciais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos e interpretação (MINAYO, 2010). Na pré-análise o pesquisador retoma os objetivos iniciais da pesquisa, possibilitando assim a escolha dos documentos a serem analisados. Nessa etapa também se desenvolveu a leitura flutuante, a qual consistiu em contato direto e intenso com o material e impregnação pelo seu conteúdo. Na etapa de exploração do material, através da operação classificatória encontra-se o núcleo de compreensão do texto; nesse momento fizeram-se recortes em unidades de registro e
identificaram-se as categorias e subcategorias, considerando o material de pesquisa no seu conjunto, ou seja, registros das entrevistas e da técnica da trajetória socioprofissional.
Já na última etapa de análise, quando são realizadas inferências e interpretações baseadas no campo teórico que respalda o estudo possibilitando abertura às novas teorias emergidas dessas mesmas análises, procurando “colocar em relevo as informações obtidas” (MINAYO, 2010, p. 318), buscou-se estruturar e interpretar os resultados encontrados, na direção de contemplar os objetivos estabelecidos para a pesquisa, a partir dos parâmetros epistemológicos adotados. O momento final da análise dos dados foi reservado
[...] à elaboração de idéias e ao livre pensar, estando aberto a novas idéias. É um momento fundamental ao êxito da pesquisa, que se caracteriza por um volume expressivo de trabalho ora operacional, ora intelectivo, porém sempre minucioso, do qual resulta a essência do estudo (KRAWULSKI, 2003, p. 53).
No que tange à devolução dos dados, foram aventadas com os participantes da pesquisa e também com os selecionadores da empresa de consultoria e assessoria algumas possibilidades: uma primeira seria a presença na sessão pública de defesa de dissertação; outra seria acessar o arquivo correspondente à dissertação no site do PPGP posteriormente; uma última, mais viável, seria uma apresentação dos resultados em Brusque, na própria empresa de consultoria e assessoria. Nesse momento, inclusive, poderiam ser convidadas outras pessoas e entidades do município cujos interesses profissionais convergem com a problemática tratada no estudo. Para viabilizar essa devolução, tanto com o intuito de socializar o conhecimento construído quanto de atender aos preceitos éticos, será dirigido convite em tempo hábil à alternativa escolhida, podendo, inclusive se concretizar mais de uma possibilidade.
5 OS PARTICIPANTES E SUA TRAJETÓRIA