Para perceber quais os reflexos da profissionalização da política no jornalismo português e verificar se as tendências identificadas a nível internacional e nos estudos desenvolvidos sobre eleições presidenciais em Portugal se verificam também quando analisadas as eleições legislativas, optamos por desenvolver uma análise de conteúdo e uma análise dos enquadramentos ou framing.
O primeiro método, a análise de conteúdo, permite uma análise quantitativa já que “classifica material textual, reduzindo-o a um conjunto de dados relevantes e prontos a tratar” (Weber, 1990:5) e é utilizada habitualmente para estudar textos provenientes de documentos históricos, notícias ou “estórias” de jornais, discursos políticos ou mensagens diplomáticas (ibidem). É importante ainda referir e, como explica Weber, que a análise de conteúdo recorre a um conjunto de procedimentos para fazer “inferências válidas” sobre o texto em análise (idem: 9). Estes procedimentos são apontados por Moraes (1999), quando explica que é necessário dividir o conteúdo de análise em unidades e estas em categorias, para uma posterior interpretação dos dados.
O segundo método, framing permite uma análise qualitativa dos textos recolhidos. Segundo Robert Entman, o framing é um processo que se caracteriza por “selecionar e destacar alguns aspetos de eventos ou assuntos e, ao fazer a ligação entre eles, promove uma particular interpretação, avaliação e/ou solução” (2004:5). Assim, este método surge como um complemento à análise de conteúdo, por permitir um retrato da forma como os media portugueses fizeram a cobertura das eleições legislativas de 1987, 1999 e 2009 e assim recolher reflexos que indiquem profissionalização da política. Desta forma, seguimos o modelo definido por Brewer e Sigelman (2002), que consideram para a cobertura de campanhas eleitorais três principais tipos de enquadramentos:
1-Substância: inclui temas específicos de campanha ou a postura do candidato em relação a determinado assunto;
2- Liderança: inclui características de liderança do candidato;
3-Jogo: diz respeito à estratégia e tática de campanha, bem como o sucesso eleitoral, por exemplo, através da divulgação de sondagens.
Este modelo de enquadramentos será essencialmente útil, por um lado porque através dele é possível captar alguns reflexos da profissionalização da política, nomeadamente através do de liderança, já que podemos retirar ilações sobre o grau de personalização das campanhas. Por outro lado, vai ser útil ver até que ponto uma evolução do enquadramento jogo, em detrimento do de substância, pode significar um jornalismo mais interpretativo e crítico e como tal, um aumento dos reflexos da profissionalização.
Assim definimos como amostra de análise todas as notícias e artigos de opinião, sobre a campanha eleitoral, publicados desde o dia anterior ao primeiro dia oficial de campanha eleitoral até ao dia anterior ao dia de eleição11 das eleições legislativas de 1987, 1999 e 2009 nos diários Jornal de Notícias, Diário de Notícias e Correio da Manhã e no semanário Expresso. Foram escolhidos apenas estes jornais, pois para além de terem acompanhado as três eleições (em termos de existência), à data da primeira eleição ainda só havia um canal de televisão e era público, daí a exclusão da televisão apesar da importância deste meio na evolução das campanhas eleitorais.
Estes períodos de análise foram escolhidos por serem datas em que ocorreram eleições legislativas no final das décadas, ou seja, permitem um retrato ao longo do tempo. A escolha da primeira eleição em análise prende-se com o facto de ter ocorrido na altura em que se começam a verificar mudanças a nível mediático e político em Portugal (anos de 1980). Desta forma, para a eleição de 1987 foi considerado o período entre o dia 27 de junho e o 18 de julho; para 1999 entre o 25 de setembro e o 9 de outubro; e, para 2009, de 12 a 26 de setembro.
Uma vez definida a amostra e, tendo em conta os parâmetros definidores da profissionalização da política, bem como as análises de conteúdo desenvolvidas por Wilke e Reinmann (2001) e Serrano (2006) e o modelo de enquadramentos já referido, foram estabelecidas as seguintes unidades de registo:
1- Género jornalístico;
Para perceber a evolução da descrição e da opinião, no sentido de aferir sobre uma predominância do jornalismo interpretativo e para permitir uma distinção entre os dados recolhidos das notícias e dos artigos de opinião. Desta forma, podemos perceber
11 Dia destinado ao Período de Reflexão em que “ é proibida toda a propaganda eleitoral, seja qual for a
forma de que se revista, a partir das zero horas do dia anterior ao dia marcado para as eleições.” (art.41º do Diário da República, I Série- Nº 101).
se um estilo mais interpretativo nos dá ou não mais reflexos da profissionalização e corroborar ou refutar a hipótese 5.
2- Intervenientes;
Quem são os protagonistas das notícias e dos artigos de opinião? O objetivo é perceber se o destaque ao candidato ultrapassa o destaque dado ao partido político, no sentido da personalização da campanha. Pretende-se também perceber que relevância podem ter outras figuras do partido e se isso pode colocar em causa a centralização das atividades partidárias.
3- Características de liderança do candidato;
4- Características pessoais, físicas e psicológicas do candidato;
Estas duas unidades de registo permitem perceber o destaque dado ao candidato e se esse destaque se centra mais nas suas características de liderança ou se nas características físicas e psicológicas. Para além de percebermos a existência do enquadramento liderança, estas duas unidades conjugadas com a primeira vão permitir aferir sobre a hipótese 1.
5- Vida privada e familiar do candidato;
Através desta unidade de registo podemos, mais uma vez, perceber o destaque dado ao candidato e validar a hipótese 3;
6- Estratégias e táticas de campanha; 7- Assuntos de governação e política;
Para além de aferirmos sobre o tipo de enquadramento predominante: substância ou jogo, estas duas unidades de registo, sobretudo a estratégia podem dar-nos indicações sobre a profissionalização das campanhas.
8- Assessores de Imprensa e Staff de Campanha;
A referência à existência destas figuras vão permitir corroborar ou refutar a hipótese 2.
9- Sondagens e estudos de mercado;
Com a referência a estudos internos vamos poder aferir sobre a sua realização por parte dos partidos políticos e validar a hipótese 4.
10- Referência ao papel dos media na campanha; 11- Descrições dadas pelo jornalista
Estas últimas três unidades de registo vão ser consideradas para perceber até que ponto uma maior intervenção dos jornalistas nas campanhas políticas nos pode indicar mais reflexos da profissionalização da política.
É importante realçar que serão também considerados para a análise os títulos, bem como subtítulos e respectivos leads, para não enviesarmos a análise ao excluir estas partes.
Para cada uma destas unidades de registos foram criadas categorias, discriminadas no manual de codificação (ver Anexo A).
Foram, também, construídas tabelas de análise para cada jornal, de forma a recolher os dados obtidos, para posterior tratamento.