“Só é uns que querem…”89
Imagem 14 - Rainha perpétua e rainha do ano. Data: 2015
Créditos: Marcos Antônio
A imagem anterior retrata duas jovens, durante a procissão, a rainha do ano 2016 Caçote, e a rainha perpétua Jardelly, já destacada anteriormente. Podemos fazer
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uma visão com relação à imagem, neste caso, percebemos a presença de duas jovens, ambas seguindo as tradições dos seus avós, ou seja, dos mais velhos. Como já ressaltado, a jovem Jardelly atual rainha perpétua “rememora” os passos de sua bisavó Inácia, para ela uma forma de “seguir os passos deixados por sua avó”90
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Como vimos na imagem, ainda se tem presença dos jovens na irmandade, mas isso não significa afirmar que muitos participam ao mesmo tempo em que não devemos afirmar que não existem mais jovens na festa.
Manter a tradição, seu Enoc:
-Porque era mais animado, era no tempo do meu povo mais velho, tudim pulava hoje em dia tem esses moços, só se eles continua a pular pra frente, pular sabe saltando[…].
-Só é uns que querem é, porque uns bom querem, outros não querem, tem deles que acham feio até sair pulando, né não, que um dia nós fomos pra uma reunião, aí, o padre disse: essa festa não pode se acabar não, vai morrendo uns e vai entrando os outros, tome gosto na festa que essa festa é uma tradição.91
Quando seu Enoc cita, em sua fala, “tem uns que acha feio”, ele se refere a uma falta de interesse, para eles os jovens hoje sentem vergonha de ser da irmandade, ou de participar dela. Ao mesmo tempo em que ressalta “tem uns que querem”, observa- se, mais uma vez, que não existe uma falta de interesse total por parte dos jovens. Uma das maiores preocupações na fala de Seu Enoc, é o fato de que a festa não deve se acabar, vão morrendo uns e entrando outros, para ele, essa festa é uma tradição e os jovens têm que se interessar a participar dela, e não se envergonhar.
Os Caçotes mais velhos comparam as diferenças ocorridas com o tempo, do que era a festa antes, “mais animada”, com “mais Caçotes”, e como ela está hoje. Como vimos nas narrativas de Seu Enoc, este fato está sempre presente, ele se preocupa muito com a ausência dos jovens na festa. Para alguns Caçotes, essas mudanças do tempo não foram tão grandes e preocupantes, e o caso da narrativa de Motor:
-Os jovens, os jovens não está pouco, continua, mas não continua como era, sabe, porque realmente a família Caçote continua ainda, tem aqueles meninos , aqueles que é mais que é claro sabe, que a pessoa diz assim, a festa só tem branco dos Caçotes, mais é por que aqueles dali é os que vão ficando branco. E é uma mistura. Uma mistura meio de cor, sabe, por causa que realmente a
90JardellyLhuana da Costa Santos ,23 anos, entrevista realizada em 06/01/2016, na cidade de Jardim do Seridó.
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mistura de cor é, assim, por os homem vão casando com branco, aí vão se misturando, aí pronto, aí fica tudo misturado, aí os Caçotes hoje está misturado, é uma cor que é mistura, é moreno e, né, principalmente a rainha, a rainha hoje, a rainha perpétua hoje, ela é ela, já é assim, Jardelly ela é Caçote e a mistura de cor.92
Para Motor, a quantidade de jovens não diminuiu muito, ainda se tem a participação de jovens na festa. Em sua fala ressalta também questões voltadas para a cor da pele, pois na Irmandade hoje não tem apenas negros participando, para ele houve uma “misturas” com o tempo, aonde os negros iam casando com brancos e clareando a cor da pele de seus filhos, ou seja, a questão da mestiçagem. Hoje, na irmandade há muita presença de morenos, pardos, negros e até mesmo brancos.
Os Caçotes foram e são “guardiões” de suas histórias e tradições, para eles, independente das mudanças ao longo do tempo, o importante é que suas tradições continuem, e os jovens valorizem isto.
Atualmente, a Irmandade do Rosário permanece viva em suas tradições. E o fato de ter sobrevivido demonstra a sua integração social.
92Antônio Canuto do Nascimento Filho (Motor), 58 anos, entrevista realizada em 06/01/2016 na cidade de Jardim do Seridó/RN.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
“…gravou pra depois passar pra eu ver…”93
Chegamos ao término, de forma satisfatória, mas com a sensação de que esse não é o final. Muito ainda se tem do que ouvir e escrever sobre os Caçotes. Percebemos que, muitas histórias rodeiam a devoção aos Santos Padroeiros, seja ela sobre a festa, a irmandade ou até mesmo a um agente pertencente a ela. Os Negros do Rosário sabem a importância do ser negro, e fazem questão de repassar isso.
Esse trabalho se propôs a tratar da Irmandade do Rosário, em Jardim do Seridó/RN, em especial da família Caçote, a importância de se revelar as memórias e identidades negras, a partir de uma família e sua interação com o grupo, ou seja, um agente principal que seria a família e os aspectos que a rodeia.
Ao concluirmos, podemos perceber que, entre os muitos fatores, a resistência dessa tradição se dá, antes de tudo, pela predominância da fé do ser humano. Foi possível evidenciar uma relação muito forte entre passado e presente, mesmo com algumas mudanças, não satisfatórias, verificamos que a festa ainda se mantém “viva”, e que a oralidade é exemplo disto. Como dizia Seu Enoc, “Vai manter a tradição”.
Esperamos que este tipo de estudo seja retomado em outras experiências, visto ainda a carência de pesquisas sobre as experiências negras nos sertões do nordeste.
Portanto, realizar esta pesquisa me proporcionou um conforto, por ser tratar dos Caçotes, e por haver algo já pesquisado. Sei que, após esta pesquisa, serão despertados interesse e curiosidade, conduzindo a um maior conhecimento, portanto, não concluímos uma história, mais abrimos novos caminhos, boa sorte…
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REFERÊNCIAS
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