4. THESIS OBJECTIVES
4.5 The New MAF Conceptual Framework
O OEDT [170] utiliza o termo “mortes relacionadas com o consumo de drogas” para designar as mortes directamente provocadas pelo consumo de uma ou mais drogas psicoactivas e que simultaneamente ocorrem num curto espaço de tempo após o consumo. Estas mortes, referidas ainda por overdose por drogas de abuso, morte induzida por drogas ilícitas, ou morte directamente relacionada
com o uso de drogas, são atribuídas ao consumo excessivo e aos efeitos imediatos da(s) droga(s) [170,171]. Por outro lado, distingue-se a existência de mortes indirectamente relacionadas com o consumo de drogas, compreendendo esta designação a morte resultante de causas naturais ou as situações de morte violenta. As primeiras em consequência de patologias agudas ou crónicas associadas ao consumo (e.g. infecciosas, cardíacas). As segundas provocadas por agentes externos, nas quais se integram os homicídios, suicídios e acidentes, por exemplo, sob a influência de drogas de abuso [171]. A BZP foi associada a óbitos e alguns casos de intoxicação. Em 1999, na Suécia, após a morte de um jovem de 22 anos, a análise toxicológica post mortem revelou a presença de BZP, numa concentração de 1,7 µg/g de sangue periférico, em associação com MDMA, MDA e tetrahidrocanabinol (THC) [36]. Na Suíça, uma morte de uma mulher de 23 anos foi registada após esta ter ingerido duas cápsulas de A2
(BZP) e um comprimido de ecstasy numa rave [146]. No entanto, a BZP foi identificada novamente na Suécia, em 2002, numa amostra post mortem de um indivíduo de 24 anos em associação com a anfetamina e THC [37]. No Reino Unido, a BZP foi encontrada em amostras post mortem (sangue e urina) referentes a duas vítimas de acidente de viação, sendo também identificadas outras substâncias (e.g. canabinóides, cocaína, etanol, MDMA).
As mortes e dados relativos às urgências hospitalares tendem a ser indicadores precoces do consumo de drogas [172]. Apesar da crença generalizada de que são drogas seguras e de toxicidade reduzida, os relatos de intoxicação não são invulgares, em particular, no que respeita à BZP e mCPP. No entanto, o número de intoxicações pode estar subestimado; em alguns países, as estatísticas nacionais referentes à informação hospitalar são difíceis de obter (e.g. Portugal).
O Children's Hospital of Michigan [84] refere um caso de intoxicação. Um jovem de 16 anos foi admitido na urgência hospitalar com um episódio agudo de convulsões, após a ingestão de 2 a 3 comprimidos de ecstasy durante uma festa. A análise toxicológica revelou a presença de MDMA e BZP na urina [84]. Em 2004, um artigo publicado no New Zealand Herald [53] relatava que, no espaço de um mês, 5 indivíduos tinham sido admitidos nas urgências hospitalares, em Dunedim, na Nova Zelândia, após a ingestão de BZP. Quanto aos sintomas apresentados menciona taquicardia, hipertensão e hipertermia. O consumo de BZP pode desencadear um episódio psicótico em indivíduos susceptíveis, encontrando-se descrita a sua ocorrência associada à ingestão da Rapture (que contém BZP e TFMPP) em associação com óxido nitroso e cannabis [12]. A análise toxicológica efectuada na urina revelou a presença maioritária de BZP e não evidenciou a presença de canabinóides ou álcool [12]. Na Suécia, entre 1999 e 2004, a BZP foi detectada em 56 amostras biológicas (urina e/ou sangue), isolada ou em associação com outras drogas, onze das colheitas foram efectuadas em indivíduos detidos nos estabelecimentos prisionais [36].
Gee et al. [14] num estudo prospectivo efectuado entre Abril de 2005 e Setembro de 2005, no serviço de emergência do Christchurch Hospital, na Nova Zelândia, registaram 80 ocorrências que envolveram um total de 61 indivíduos, com suspeita de intoxicação atribuída ao consumo de BZP. Os resultados obtidos neste estudo, realizado na população consumidora destas drogas recreativas (party pills), evidenciaram, entre outros, que os indivíduos envolvidos nestes contextos eram na sua maioria do grupo etário dos 15-36 anos.
Malta e Reino Unido também descrevem a existência de BZP em amostras biológicas in vivo (sangue e urina) [37]. Em Malta, num hospital, entre Março e Dezembro de 2006 a BZP foi detectada em 14 amostras de urina. Em três amostras, a BZP foi a única substância encontrada, em duas a MDMA também foi identificada, enquanto nas restantes foram identificadas mais do que duas substâncias psicoactivas (e.g. cocaína, MDMA, opiáceos, THC). No mesmo ano, entre Maio e Dezembro de 2006, no Reino Unido a BZP foi identificada em 5 amostras de urina in vivo, numa delas a BZP foi a única substância encontrada, sendo que nas outras 4 foi identificada também a TFMPP. No mesmo país, em Maio de 2006 durante um único fim semana, refere-se a admissão hospitalar de sete jovens após o consumo de comprimidos (4 a 9 comprimidos/indivíduo) supostamente de ecstasy ou anfetaminas adquiridos ao mesmo fornecedor. Na admissão revelavam sintomas de intoxicação simpaticomimética (midríase, ansiedade, agitação e taquicardia). A BZP foi detectada em 4 amostras, sendo que as concentrações encontradas em três dos casos (1,9, 1,9 e 2,5 mg/L) excedem a concentração referida em amostras post mortem [37].
Por outro lado, no Reino Unido as piperazinas foram associadas a um caso de agressão sexual, a BZP e a MeOPP foi detectada na urina da vítima [37].
Para além da BZP, TFMPP e MeOPP é também de realçar as intoxicações atribuídas à mCPP em França e na Bélgica, associadas a festivais de música [45,58].
3
Métodos de preparação de amostras biológicas para
separação cromatográfica
A análise de amostras biológicas líquidas (e.g. plasma, soro, urina, sangue post mortem) ou sólidas (e.g. cabelo) por técnicas cromatográficas hifenadas requer um pré-tratamento da amostra, devido à complexidade das matrizes envolvidas, à sua incompatibilidade com os sistemas cromatográficos, e ao facto de muitos dos compostos a analisar se encontrarem em concentrações vestigiais [173,174]. O objectivo final de qualquer pré-tratamento da amostra é a obtenção do composto de interesse numa forma e concentração tal que possa ser rapidamente introduzida e separada no sistema cromatográfico [175,176], com selectividade e sensibilidade adequadas [177]. Por outro lado, a presença de compostos endógenos, como proteínas (e.g. albumina), lípidos (e.g. colesterol), lipoproteínas e sais, entre outros, incompatíveis com a coluna cromatográfica [174], responsáveis pela diminuição da eficiência extractiva [177,178] e pela sensibilidade do método [179], bem como a presença de moléculas de água incompatíveis com a coluna cromatográfica e o detector, restringem a análise directa da amostra biológica por cromatografia em fase gasosa (GC) associada a sistemas de detecção. Dado que em geral os compostos a analisar se encontram em quantidades vestigiais, a preparação da amostra permite aumentar a sensibilidade do método por concentração dos analitos no extracto obtido, e a preparação das amostras biológicas pode envolver ainda a hidrólise dos compostos conjugados, a precipitação das proteínas e a derivatização química, esta última antes ou após as etapas de extracção e purificação [173,180].
Os métodos descritos para o isolamento e concentração das piperazinas em amostras biológicas são a extracção líquido-líquido (LLE) e a extracção em fase sólida (SPE). A primeira é a técnica mais utilizada para a extracção das piperazinas em amostras biológicas, apesar de, como refere Bishop et al. [68], dada a natureza polar destes compostos, a sua extracção por LLE ser geralmente difícil. Por outro lado, a utilização da SPE como técnica de extracção encontra-se em franca expansão, reflectindo a tendência actual no que concerne ao isolamento de drogas de abuso a partir de matrizes biológicas.