Ao perceber que o momento de se assumir se aproxima, Simon precisa atravessar o limiar entre a farsa da heterossexualidade e a sua verdadeira sexualidade. Esse processo não acontecerá em um mundo fantástico, mas na própria consciência do personagem, o qual precisa agora iniciar um processo de acabamento de si mesmo na tentativa de compreender melhor a si para, então, “renascer” socialmente como aquilo que de fato é. Simon não está dentro da baleia, mas já é habitante antigo de um rígido armário que o esconde e protege dos conflitos entre forças centrífugas e centrípetas do espaço social enquanto ele se envolve em uma manta heterossexual. Porém, em sua jornada, ele precisará se despir dessa proteção para entrar no conflito das forças verbo-ideológicas e iniciar os desafios que o levarão até a sua recompensa e concretização de sua jornada.
Ao sair do ventre da baleia – ou, nesse caso específico, do armário –, o herói compreende a sua sexualidade internamente e inicia o seu processo de construção de si e compartilhamento com os outros. É nesse momento que a máscara heterossexual exaustivamente construída ao longo do tempo começa a ruir e o herói começa a ser reconstruído para si mesmo e para os outros. Diante disso, nessa segunda fase da jornada, o herói percorre a sua iniciação, momento em que
Tendo cruzado o limiar, o herói caminha por uma paisagem onírica povoada por formas curiosamente fluidas e ambíguas, na qual deve sobreviver a uma sucessão de provas. Essa é a fase favorita do mito-aventura. Ela produziu uma literatura mundial plena de testes e provações miraculosos. O herói é auxiliado, de forma encoberta, pelo conselho, pelos amuletos e pelos agentes secretos do auxiliar sobrenatural que havia encontrado antes de penetrar nessa região. Ou, talvez, ele aqui descubra, pela primeira vez, que existe um poder benigno, em toda parte, que o sustenta em sua passagem sobre-humana. (CAMPBELL, 2007, p. 102).
O momento da iniciação é, a partir das palavras de Campbell, o momento decisivo em que o herói passará por uma sucessão de provas que o separam do seu destino final. É nesse momento em que, nas narrativas clássicas, monstros, demônios e criaturas sobrenaturais ou extremamente fortes aparecem para encontrar o herói e realizar os grandes embates. No meio dessas batalhas, ele contará com a ajuda e o apoio que ele adquiriu no primeiro momento da sua jornada, e é essa ajuda que o sustentará em seus momentos de maior dificuldade.
Na narrativa de Simon, os monstros e as criaturas estranhas são substituídos por uma série de violências e medos gerados pelos próprios seres humanos e desconectados de qualquer força sobrenatural. Simon é vítima da própria agenda social dos humanos, criada e moldada por eles. E essa agenda é a sua grande inimiga. Desse modo, por muitas vezes, os desafios do herói aparecerão de forma mascarada ou simbólica, mas, nem por isso, de maneira menos eficiente e potente na intenção de conter o avanço do herói em sua jornada e silenciá-lo antes que atinja a sua apoteose.
E assim é que se alguém — em qualquer sociedade — assumir por si mesmo a tarefa de fazer a perigosa jornada na escuridão, por meio da descida, intencional ou involuntária, aos tortuosos caminhos do seu próprio labirinto espiritual, logo se verá numa paisagem de figuras simbólicas (podendo qualquer delas devorá-lo), o que não é menos maravilhoso que o selvagem mundo siberiano do pudak e das montanhas sagradas. No vocabulário dos místicos, esse é o segundo estágio do Caminho, o estágio da ‘purificação do eu’, em que os sentidos são ‘purificados e tornados humildes’ e as energias e interesses, ‘concentrados em coisas transcendentais’; ou, num vocabulário mais moderno: trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação das imagens infantis do nosso passado pessoal. (CAMPBELL, 2007, p. 105).
A partir da descrição de Campbell, é evidente a transmutação dos monstros em símbolos que apavoram o herói por estarem ligados a seus medos e uma série de outros desafios que podem se materializar ao longo da jornada. As forças verbo-ideológicas (BAKHTIN, 2015) aparecerão nesse momento de embate com toda força e materialidade. As forças centrípetas surgirão aqui como as grandes inimigas de Simon, o que evoca, necessariamente, a sua contraparte: as forças centrífugas. As forças se materializam na segunda parte da jornada como elementos que funcionarão como propulsoras do florescer identitário do herói e outras como forma de mantê-lo em seu silenciamento. Assim, o caminho de provas será povoado por inúmeros episódios de violência contra o que o corpo de Simon representa, sobretudo após ser forçado a sair do armário, como será explicitado. Após esse episódio, o herói passa por processos que ficam bem marcados na narrativa: a mulher como tentação, substituída pelo conforto do armário que pode ser uma tentação para fugir da sua jornada; o encontro com a
deusa, que nada mais é do que a confiança em uma amiga para se revelar gay; a sintonia com o pai, aqui tratada como (de)sintonia em virtude de problemáticas na relação com os dois; a apoteose, momento em que parece se consolidar a coesão identitária buscada pelo personagem; e, por fim, a benção final, momento em que o personagem parece se dar conta da identidade que construiu e é encaminhado para os passos que darão fim a sua aventura. Esses aspectos são evidenciados no esquema abaixo.
Figura 6 – Esquema representativo da “iniciação”, segundo momento da jornada do herói
Fonte: Campbell (2007).
As provas começam a cair sobre Simon proporcionalmente ao quanto ele se vê envolvido com Blue. A cada e-mail trocado, Simon se apaixona ainda mais pelo rapaz e tem, cada vez mais, consciência de quem é. Essa intensidade com a que sente esses sentimentos por outro rapaz é inversamente proporcional ao quanto ele pode demonstrar isso para os seus amigos ou familiares, dada a sua opção por se manter no armário. No entanto, esse descompasso acaba o incomodando e o deixando confuso, afinal, se ele se assumir, não é garantia que Blue revelará sua identidade também e, caso Martin revele o seu segredo, também pode ser uma razão para Blue parar de falar com ele. No meio desse conflito, permanecer no armário parece ser a opção que evitaria menos problema para o rapaz, pois já é um local conhecido e que lhe fornece mais segurança. O armário é a grande tentação de Simon porque é a sua barreira contra um mundo que parece ainda não estar pronto para receber pessoas como ele. Em uma discussão
O caminho de
provas
O encontro com a
deusa
A mulher
como tentação
A sintonia com
o pai
A apoteose
com Martin, que questiona o fato de o rapaz não estar ajudando de forma efetiva para que ele e Abby se aproximem, Simon quase deixa que o rapaz revele o seu segredo. No entanto, a tentação pelo armário fala mais alto.
Eu lanço um olhar ameaçador para Martin, mas ele se vira na hora, arrasado. Ah, jura? Aquele babaca merece se sentir assim.
— É, pois é. — Martin se levanta e fica olhando para um ponto aleatório atrás de mim. — Eu vou...
Vou falar sobre sua orientação sexual como se fosse da minha conta, Simon. Vou contar para a porcaria da escola inteira bem aqui e agora, porque sou um babaca e é assim que as coisas vão ser.
— Ei, espera aí — digo. — Tive uma ideia. Vocês querem ir à Waffle House amanhã depois da aula? Podemos repassar o texto. Eu me odeio. Eu me odeio.
— Se vocês não quiserem, tudo bem...
— Ai, meu Deus. É sério, Simon? Seria incrível. Amanhã depois da aula, né? Acho que consigo pegar o carro da minha mãe emprestado. — Abby sorri e me cutuca na bochecha.
— Legal. Obrigado, Simon — diz Martin. — Seria ótimo. — Que bom — respondo.
Embarquei nessa oficialmente. Estou deixando que Martin Addison me chantageie. Não sei como me sentir. Estou com nojo de mim mesmo. Estou aliviado.
— Você é sensacional, Simon — diz Abby.
Não sou, não. Nem um pouco. (ALBERTALLI, 2016, p. 101).
Apesar de estar cedendo a uma chantagem, Simon está garantindo mais dias na frágil identidade falsa fabricada por ele. Seus pedaços já começam a ruir, mas o garoto acredita que pode fazer com que isso aconteça de uma forma amenizada e que não cause tantos problemas como parece que causará. É pensando nisso que, após esse encontro com Martin e Abby, o rapaz tem o seu encontro com a deusa. Esse momento é caracterizado por Campbell (2007, p. 119) como o momento em que o herói está pronto para receber “a benção do amor, que é a própria vida, aproveitada como o involúcro da eternidade”; o que parece é que, após enfrentar algumas provas, o herói ganha nesse momento a benção para seguir os demais passos de sua jornada, uma espécie de liberdade abençoada pelo sobrenatural. Na narrativa de Simon, o herói não recebe a ajuda de uma deusa ou uma benção, mas aproveita um momento sozinho com sua amiga Abby para se declarar gay.
— Abby. Posso te contar uma coisa? — Claro, o que foi?
A música parece sumir. Paramos em um sinal vermelho, estou esperando para virar à esquerda e só consigo ouvir o estalo frenético da seta piscando. Acho que meu coração está batendo no mesmo ritmo.
— Você não pode contar para ninguém — acrescento. — Ninguém sabe. Ela não fala nada, mas percebo que está se virando para mim. As pernas estão dobradas no banco. Ela espera.
Eu não planejava fazer isso hoje. — Então. É o seguinte. Eu sou gay.
É a primeira vez que digo isso em voz alta. Hesito, com as mãos no volante, e espero sentir alguma coisa extraordinária. O sinal fica verde.
— Ah — diz Abby.
E, em seguida, há uma pausa densa, carregada. Faço uma curva à esquerda.
— Simon, pare o carro.
Há uma pequena padaria à direita, e eu paro na entrada. Está fechada agora. Eu coloco o carro em ponto morto.
— Suas mãos estão tremendo — diz Abby, baixinho.
Ela puxa meu braço, levanta a manga do meu casaco e coloca a mão sobre a minha. Sentada de pernas cruzadas no banco, Abby se vira de lado e fica de frente para mim. Mal olho para ela.
— É a primeira vez que você conta para alguém? — pergunta ela, um instante depois.
Faço que sim.
— Uau. — Ela respira fundo. — Simon, eu me sinto honrada.
Eu me recosto no banco, suspiro e me viro para ela. O cinto de segurança me incomoda. Puxo a mão, fazendo Abby soltá-la. Então, seguro de novo a mão dela, que entrelaça os dedos nos meus.
— Você está surpresa? — pergunto. — Não.
Ela me olha intensamente. Iluminados apenas pela luz dos postes, os olhos de Abby são quase só as pupilas, com um contorno castanho e fino.
— Você sabia?
— Não, nem desconfiava. — Mas não está surpresa.
— Você quer que eu fique surpresa? Ela parece nervosa.
— Não sei — respondo.
Ela aperta minha mão. (ALBERTALLI, 2016, p. 112).
Nesse momento, Simon parece conseguir, de fato, a benção do amor. No caso do herói esse amor é convertido em aceitação daquilo que ele é. Abby lhe dá o olhar do outro, o olhar que enxerga de fora esse corpo para muito grotesco como algo natural e livre de qualquer camada a ser evitada. A reação da menina choca Simon por não vir carregada de surpresa, exasperação ou qualquer questionamento. Abby o aceita e pronto. Simon, ao se chocar com tal reação, começa, então, a ressignificar a si mesmo, afinal, muitos dos seus temores sobre o que os amigos pensariam estavam apenas na sua cabeça atordoada por ter escutado tantas violências simbólicas e físicas a quem demonstrava ser homoafetivo. Diante disso, Abby não só foi sua benção como também a possibilidade de fazer com que ele consiga se abrir para os outros. No entanto, o armário volta a aparecer como tentação para o rapaz.
Não é mais fácil. É impossível. Porque, apesar de eu ter a sensação de que conheço Abby desde sempre, eu só a conheço faz quatro meses. E acho que não deu tempo de ela ter ideias predeterminadas a meu respeito. Mas sou amigo de Leah desde o sexto ano, e de Nick desde que tínhamos quatro anos. E essa coisa gay. Parece tão importante. É quase intransponível. Não sei como contar uma coisa assim para eles e continuar me sentindo o mesmo Simon. Porque, se Leah e Nick não me reconhecerem, eu também não vou mais me reconhecer. (ALBERTALLI, 2016, p. 119-120).
A velha questão de Simon volta a atormentá-lo. Na cabeça dele, Abby é sua amiga há poucos meses, logo, não faria muita diferença saber que ele é gay. Mas o que pode acontecer quando seus dois outros amigos mais antigos descobrirem? O que está em jogo não é só a amizade deles, mas toda a vida e identidade de Simon que correm risco a partir da sua revelação. A visão de Simon decorre do pensamento de que, ao se assumir, evidenciará que encenou uma identidade provisória por esse tempo todo e, ao final do processo, os amigos não o reconhecerão mais e, sobretudo, ele mesmo não terá a menor noção de quem é. Seu corpo está adaptado e ajustado ao armário, ele não consegue ver uma possibilidade de agir no mundo diferente da que criou para si mesmo como mecanismo de defesa. Urge, aqui, o centro da nossa discussão acerca das identidades inacabadas.
[...] nas sociedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes. (GIDDENS, 1990, p. 37-38).
O que assevera Giddens entra em contraste com o que é a alta modernidade, um período de mudanças cada vez mais rápidas, abrangentes e em processo contínuo as quais, por vezes, não acontecem sem que sejam acompanhadas de reflexão, de modo a resultar que “as prática sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre aquelas próprias práticas, alterando, assim, constitutivamente, seu caráter” (GIDDENS, 1990, p. 37-38). Esse processo faz com que seja constante o embate entre as novas concepções de mundo renovadas pelos novos avanços e as velhas verdades que insistem em monologizar (BAKHTIN, 2015) os sentidos sobre práticas discursivas, corpos e estruturas que, em nome da tradição, tentam se manter ao longo do tempo, ainda que causem sofrimento e exclusão de diversos sujeitos. Simon se encontra exatamente em uma época em que esse embate é fomentado com o avanço dos meios tecnológicos em que o acesso à internet e, consequentemente, à informação faz com que o sistema corra perigo de ter sua forma de funcionamento descoberta e combatida, originando, pois, os diversos movimentos que lutam pela volta dos “bons costumes” e do “tradicionalismo” como forma de combater os novos sentidos que começaram a brotar nas sociedades após anos de luta de diversos movimentos sociais. As identidades são múltiplas, e muitas delas estão inscritas, ao mesmo tempo, nos corpos dos sujeitos. Quase nenhuma está ali de forma definitiva, até mesmo a cor da pele ou
dos olhos se pode mudar hoje, porém, em conjunto, dão coesão aos sujeitos. O problema se inicia quando ela é entendida como “resolvida” ou unificada (HALL, 2015). O contraditório é que é assim que os sujeitos se reconhecem. Embora estejam circulando e interagindo com o mundo, é necessária essa percepção para que se tenha coesão com o mundo social. Todavia, é inegável o constante devir, o constante inacabamento e o constante processo identitário que preenche o sujeito do seu nascimento até sua morte.
Assim, a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo ‘imaginário’ ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre ‘em processo’, sempre ‘sendo formada’. As partes ‘femininas’ do eu masculino, por exemplo, que são negadas, permanecem com ele e encontram expressão inconsciente em muitas formas não reconhecidas, na vida adulta. Assim, em vez de falar identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já́ está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é ‘preenchida’ a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a ‘identidade’ e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos ‘eus’ divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude. (HALL, 2015, p. 24-25).
A grande questão de Simon é a que o vazio mencionado por Hall é sentido por ele desde o momento em que ele se descobriu gay. Desde esse dia, o rapaz sabia que deveria esconder seus desejos e impulsos das outras pessoas para evitar ficar em evidência. O vazio segue o perseguindo naquele momento em que se encontra, a questão é que agora ele está apaixonado e não dá para continuar mantendo a fachada que ele construiu. A sua identidade, até então resolvida, una e perfeitamente acabada, esbarra na sua grande questão, ou melhor, no seu grande vazio. Enquanto o vazio da sexualidade não for preenchido, ele continuará em crise consigo mesmo. O que Simon não percebe é que, apesar de negar a identidade homoafetiva externamente e para fazer com que os outros não percebam isso em seu corpo, o herói sabe que é gay e essa consciência já tem influenciado a sua vida desde a descoberta. Na verdade, a identidade gay dele ganha vida quando ele começa a interagir com Blue, porque, a partir daquele momento, já não era só uma série de desejos e pulsões na mente do personagem, mas uma série de práticas discursivas que evidenciavam a sua identidade sendo materializada pela linguagem em formato de e-mails sendo trocados com um outro ser. Ora, se a grande questão da jornada do herói é a sua construção identitária, não foi a ameaça de Martin o seu ponto de partida ou chamado para a aventura, e sim a conversa com Blue. Foi com o primeiro e-mail trocado que a identidade gay de Simon saiu do mundo das ideias e entrou no mundo
discursivamente. Foi nesse momento que sua crise maior se instaurou e que sua fachada mascarada começou a ruir em definitivo. Os ventos de um tempo cronotópico que permite a mudança e as águas da modernidade líquida corroem os caminhos seguros de Simon e lhe propiciam a possibilidade de construir e socializar uma identidade que, há pouco tempo, seria impossível de ser manifestada socialmente. Ele só precisa entender que seu pedaço gay é facilmente encaixável com seu todo identitário. A falta de coesão que ele enfrenta é justamente em decorrência do armário que o sufoca e não lhe permite viver plenamente quem é. Antes que o rapaz abrace sua identidade e se revele para o mundo, Martin acaba sendo mais rápido.
24 de dezembro, 10:15
CONVITE ABERTO DE SIMON SPIER A TODOS OS GAROTOS Queridos rapazes de Creekwood,
Com esta missiva, declaro que sou completamente gay e estou aberto para negócios. Os interessados podem fazer contato direto comigo para discutir planos de sexo anal pelo cu. Ou bluequete. Mas não me façam ter dor nos ovos. Garotas não precisam se candidatar. Isso é tudo. (ALBERTALLI, 2016, p. 142).
Nesse momento da narrativa, acontece a exposição do corpo grotesco. Privado de escolher quando, onde, como e para quem, Simon tem tirado de si o momento da saída do armário e é exposto como corpo diferente dos demais. Evidencia-se nesse momento a dualidade que envolve a identidade, a sua contrapartida, a diferença, as quais não devem ser vistas como opostas, uma vez que a identidade depende da existência da diferença para existir (WOODWARD, 2014). As identidades são fabricadas exatamente pela marcação da diferença, que ocorre por meio de sistemas simbólicos ou pela simples exclusão. Tatuados nos corpos dos sujeitos, esses símbolos as marca como pertencentes a um grupo específico e, em diálogo com os valores sociais vigentes, são o alvo para que se atuem as forças de coerção capazes de “domesticar” esses corpos selvagens. É importante perceber aqui a fundamental importância do outro nesse processo, visto que é o outro que observa esses símbolos no “eu” e dá esse acabamento de corpo estranho ou grotesco. Para Bakhtin (2019, p. 47), “é impossível ver o todo acabado desde o interior, mas apenas de fora. A exotopia que dá acabamento”. Assim, somente o outro é que consegue contemplar o sujeito de fora, e é esse olhar que constrói a sua identidade. O “eu” pode apenas desconfiar do que é ou investir em parecer algo, mas essa identidade fabricada só se materializa com a concordância advinda do acabamento do outro. Simon