LANGUAGES AND THE MACHINE
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5.2 The Assembly Process
Uma das questões interpretativas importantes que o Prelúdio n. 7 nos apresenta é a escolha do tempo de execução a ser adotado. Visto que Chopin era muito meticuloso com suas indicações no texto musical, vale considerar algumas reflexões sobre a mudança na indicação de andamento por ele realizada. Nos comentários críticos de sua edição do
Prelúdios Op. 28, Eigeldinger (2012, p. 62) aponta que em seu manuscrito autógrafo,
Chopin anota inicialmente o andamento Lento, o qual é anulado, por meio de uma rasura, sendo substituído por Andantino:
361 Como uma sonoridade enevoada, nebulosa.
Ex. 106: Prelúdio Op. 28 n. 7, manuscrito autógrafo, c. 1-4. Rasura da notação do andamento original e indicação Andantino ao lado.
Conforme assinala Hedley (1973, p. 19-20), a chave para interpretar a música de Chopin se encontra em uma leitura cuidadosa e criteriosa de sua notação, que é extremamente específica. As alterações de andamento que o compositor realiza em seus manuscritos podem nos ajudar a compreender melhor suas intenções quanto à execução do tempo desejado para uma determinada obra, sendo assim um importante guia para a performance. Consequentemente, no caso do n. 7, saber que a intenção inicial de Chopin era o andamento Lento nos faz conjecturar que o Andantino posteriormente anotado é ligeiramente mais rápido que o lento, porém, não muito movido. Para continuar essa discussão é necessário ressaltar algumas questões quanto ao significado do termo
andantino. Ao final do século XVIII, nota-se algumas divergências neste sentido. Isto se
deve pelo fato do andamento Andante ter uma conotação de um tempo mais movimentado no século XVIII. Deste modo, Andantino, cujo sufixo diminutivo “ino” sugere minimizar as características do Andante, implica em um andamento menos rápido. Por isso, para alguns compositores como Clementi, Türk e Mozart, Andantino era um tempo mais calmo que o Andante, e estaria, portanto, entre o Lento e o Andante (em ordem crescente de velocidade seria Lento-Andantino-Andante). No entanto, a partir do final do século XVIII, e sobretudo no início do século XIX o Andante passa a adquirir a conotação de um tempo fortemente expressivo, e, portanto, mais lento. Consequentemente, no século XIX, o diminutivo “ino” de Andantino passa a minimizar sua lentidão, e esse andamento passa então a ser definido como um tempo mais rápido que Andante. Esta concepção se torna então a predominante no século XIX (ROSENBLUM, 1991, p. 316-7).
Qual seria o entendimento de Chopin para este andamento?363 Higgins (1973, p. 114-115) ressalta que a percepção de Chopin para alguns andamentos reflete a concepção
363 A ambiguidade do andamento Andantino pode ser notada claramente em uma carta de Beethoven (1813) ao seu editor George Thomson: “No futuro, [...] eu imploro que você especifique se o Andantino é para ser mais rápido ou mais lento que o Andante, pois esta palavra, assim como muitas outras na música, tem um significado tão impreciso que em algumas ocasiões Andantino é próximo do Allegro, enquanto em outras é quase como um Adagio” (BEETHOVEN apud FALOWS, 2001, p. 608-9, tradução nossa).
de uma geração anterior. Aponta por exemplo que, para o compositor, o andamento
Andante tinha acepção de um tempo mais rápido que o atual,364 uma vez que as indicações
de metrônomo deixadas por Chopin em alguns de seus manuscritos para os andamentos
Andante (e Lento) revelam tal concepção. A exemplo, o manuscrito do Noturno Op. 9 n. 2, cuja indicação colcheia = 132 denota um Andante mais movimentado, assim como
também o manuscrito do Noturno Op. 15 n. 1, cuja indicação de semínima = 69 para o
Andante cantabile também sugere um tempo mais movido. Deste modo, percebe-se que
Chopin compreendia o Andante segundo a visão tradicional do século XVIII.
Sendo assim, acreditamos que Andantino neste caso indique um tempo de execução mais calmo, à maneira da tradição do século XVIII, no entanto, sem ser demasiadamente vagaroso (visto que o próprio Andante de Chopin é mais movimentado). Compreendemos que, ao alterar a indicação de Lento para Andantino em seu manuscrito, estaria sugerindo um andamento levemente mais fluente. As performances de Perahia, Barenboim, Koczalski e Schiff por exemplo, ilustram tal entendimento, ou seja, um tempo de execução mais tranquilo, porém ainda fluente (semínima aprox. = 88). Não obstante, pode-se notar diferentes concepções entre os intérpretes. Alguns optam por um tempo ainda mais movimentado, como Argerich, Kissin, Cortot, Avdeeva e Pletnev (semínima aprox. = 104), refletindo a concepção moderna de Andantino, enquanto outros decidem por um tempo bem mais vagaroso, como Novaes, Freire, Lugansky e Arrau (semínima aprox. = 75). Optamos pelo tempo de execução com semínima equivalente a aprox. 88, refletindo a maneira da tradição do século XVIII e a prática do Andante em Chopin (com um tempo mais tranquilo, porém ainda fluente).
Alguns autores365 descrevem o caráter evocado por este Prelúdio como lamentoso,
ou ainda, de inocência e simplicidade. Em relação à dinâmica, Chopin anota somente p e
dolce no c.1366 sugerindo uma sonoridade suave a toda a obra. Em concordância com tais indicações, Cortot (1926, p. 18) enfatiza o lado poético e nostálgico da obra, sugerindo ao intérprete uma execução mais intimista, fazendo alusão à imagem de uma recordação de um momento agradável. Ressalta ainda que a interpretação deste Prelúdio, cujos 16 compassos não apresentam maiores dificuldades quanto à técnica pianística, depende muito da qualidade do sentimento evocado pelo intérprete. Por fim, vários autores
364 Assim como também o andamento Lento.
365 HUNEKER (1943, p. iv) e KRESKY (1994, p. 37).
apontam para o fato de que o Prelúdio n. 7 encontra-se no estilo de mazurka, conforme discutiremos a seguir.