1.5 Activit´es de recherche
1.5.1 Th´ematiques de recherche
Para que possamos levantar a reflexão sobre a relação entre a TC e os diálogos entre teorias de gêneros da melhor maneira possível, pensamos em discutir os dez aspectos que caracterizam sistemas entendidos como complexos. Apesar de Morin não falar especificamente em “sistemas” nos referenciais que trouxemos para a discussão acima, achamos interessante pensar a partir dessa nomenclatura em razão do nosso fenômeno de estudo dar abertura para isso, quando levamos em consideração, juntamente com Paiva (2016), que a linguagem em si é um sistema complexo. Desse modo, todos os fenômenos que envolvem a linguagem podem também ser pensados a partir desse viés.
Esses dez aspectos2 foram desenvolvidos pelos autores Cilliers (1998), Harvey (1999) e Lyotard (1998) em suas pesquisas. A intenção é criar uma discussão refletindo esses aspectos como categorias dinâmicas para desenvolver essa relação que defendemos. Desse modo, é importante salientar que as análises que empreenderemos nesta tese, em muitos casos, não irão condizer totalmente com aquilo que se entende por paradigma complexo, mas, por isso mesmo, é válida essa constante reflexão, por ela ser uma das características da TC, como vimos acima. Assim, o que estamos definindo como sistema complexo nesta tese são os diálogos/interlocuções entre as teorias de gêneros nos trabalhos de mestrado e doutorado analisados. Essa definição vai ao encontro do que Cilliers (1998), Harvey (1999) e Lyotard (1998) caracterizam como sistemas que podem ser interpretados via TC. Para essa discussão, faremos a enumeração dos dez aspectos seguidos dos comentários.
1 - Sistemas complexos possuem um grande número de elementos:
Esse primeiro aspecto é bastante pontual na pesquisa a que estamos nos dedicando. Como veremos nas seções específicas de análise dos diálogos e interlocuções das teorias de gêneros, existe um grande número de ocorrência de diálogos não só entre as teorias de gênero
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Encontramos também uma discussão sobre esses dez aspectos dos sistemas complexos em Silva (2000). A autora faz um estudo sobre as contribuições da epistemologia complexa para os estudos organizacionais. Devemos a ela a proposta de organização desses aspectos.
textual, mas também entre essas teorias e outras teorias empreendidas quando se trata de estudos textuais e discursivos das diversas práticas sociais. Como esses diálogos podem ser caracterizados de inúmeras maneiras, consequentemente, as teorias de gêneros também são muitas; poderemos constatar isso nas seções dois e três que serão dedicadas especificamente para a discussão sobre tais teorias. Outro fator com bastante diversidade são as teses e as dissertações que utilizaremos nas análises. Apesar do grande número de exemplares que coletamos, esse número ainda não dá conta de uma total representação, pois a nossa coleta de dados esteve restrita as cinco Universidades em que os programas de Pós-graduação têm, ou tiveram, destaque com as suas pesquisas de mestrado e doutorado sobre gêneros. Por fim, é essencial pensar também sobre a diversidade de linhas de pesquisa nas quais se encontram os trabalhos que iremos analisar. Isso é importante na medida em que também direciona as pesquisas para determinados diálogos e interlocuções.
2 - Os elementos constituintes de um sistema complexo interagem dinamicamente:
Esse aspecto nos ajuda a fortalecer a ideia de que os diálogos entre as teorias de gênero podem ser caracterizados como sistemas complexos. O que estamos querendo defender é que o que caracteriza esses diálogos é justamente a interação entre as teorias nas pesquisas analisadas. Outra questão importante a ser pensada, nesse sentido, é a própria interação entre os diversos autores das teorias de gênero textual, no sentido mais técnico, por assim dizer, e a interação entre os diferentes autores dos trabalhos pesquisados no intervalo dos dezesseis anos que pensamos para a coleta dos nossos dados. O que acontece é que os autores sempre trazem à discussão outros estudos que já foram defendidos e que têm relação com os seus estudos. Isso pode ser observado não somente entre pesquisas desenvolvidas em uma mesma instituição, mas também em instituições diferentes. Esse fator é bastante interessante, pois, apesar da constante utilização das teorias de autores renomados, também são referenciadas outras teorias e discussões que surgiram através das primeiras. Isso nos leva à reflexão do próximo aspecto.
3 - Os níveis de interação em sistemas complexos são muito ricos:
É importante esclarecer o que estamos querendo dizer com a expressão “níveis ricos de interação”. Neste trabalho, associaremos essa expressão com a própria diversidade de interação não somente entre os autores mais gerais sobre as teorias, como também entre
aqueles que desenvolvem questões mais específicas e pontuais. Dizemos também que os níveis de interação são muito ricos pela própria variedade de teorias de gêneros textuais, pela variedade de trabalhos que são feitos nessa área e pela diversidade de aspectos que podem ser trabalhados quando se fala em gêneros textuais. Assim, os níveis de interação são muito ricos, pois os estudos de gêneros textuais são feitos desde a pesquisa de estruturas de determinados gêneros até a funcionalidade dos gêneros e a utilização no/para o ensino, por exemplo.
4 - As interações em sistemas complexos não são lineares:
Esse é um dos aspectos que se caracteriza como fundamental para a nossa pesquisa. É extremamente importante que entendamos que na construção de uma concepção de diálogos e interlocuções entre teorias como as de gênero textual não existem interações lineares. Como já dissemos, a circularidade e a dinamicidade são fatores essenciais para a proposta que aqui desenvolvemos. Essas interlocuções não são lineares no sentido de que não seguem regras e caminhos específicos para acontecer. Além disso, não precisam ter necessariamente começos e fins demarcados, nem muito menos finalidades específicas. A mestiçagem de teorias, conforme veremos nas seções de análise, descaracteriza qualquer possibilidade de linearidade para esse sistema. Desse modo, os diferentes diálogos têm um caráter de dinamicidade e complementaridade evidente.
5 - As interações são, majoritariamente, de curta distância:
Esse quinto aspecto é o que menos se reflete, necessariamente, no nosso sistema complexo de diálogos e interlocuções. Aqui, o que entendemos por distância são os intervalos de tempo de desenvolvimento das várias teorias que constroem os diálogos. Nesse sentido, as interações que discutimos nos aspectos acima, não majoritariamente são realizadas em curta distância. Muitos dos diálogos que se constituem trazem relações entre teorias de gêneros textuais de tempos distintos. Isso se reflete não somente nas propostas de novas discussões sobre os aspectos que circundam os gêneros, mas também na utilização de teorias que são as bases (às vezes, mais antigas) para qualquer trabalho científico sobre gêneros textuais. Por outro lado, podemos falar de interações de curta distância quando as pesquisas trazem à discussão os resultados de outras pesquisas para apoiarem os seus projetos, o que é feito sempre que determinada temática específica é seguida.
6 - Nos sistemas complexos existe circularidade e recursividade nas interconexões:
Como pudemos ver em um dos tópicos acima, um dos princípios que regem a TC é o da recursão organizacional. Esse princípio é o que caracteriza o aspecto da recursividade e circularidade. No que se refere aos diálogos entre as teorias de gênero, podemos perceber que o processo de apreensão de teorias está marcado pela interação individual-coletivo, a análise dessas interações indica que um mesmo processo de utilização de teorias que pode se dar de maneira coletiva pode dar margem a diferentes procedimentos individuais, já que, apesar da diversidade de trabalhos, muitas teorias são utilizadas em comum. Esses procedimentos individuais são marcados pela singularidade das experiências em cada uma das pesquisas. Isso faz com que pesquisas semelhantes configurem processos coletivos distintos. Nesse sentido, são muitas as interações e as relações possíveis e não há trajetos definidos previamente, e muito menos inícios que sejam fixos e finalidades totalmente previsíveis por meio de hipóteses.
7 - Sistemas complexos são sistemas abertos:
A proposta defendida neste aspecto diz respeito às possíveis interações que podem ocorrer entre os diversos sistemas. O sistema é aberto se não se basta a si mesmo, se não há só dinamismo interno, isolado em si, mas na convivência com mundos externos, com o qual convive, por vezes, conflituosamente. Não se parte de um equilíbrio funcionalista, mas da sobrevivência em ambiente adverso. Quando consideramos, assim, que os diálogos entre teorias de gêneros são complexos, estamos querendo dizer que outros sistemas também estão em interação com ele, tais como a complexidade das linhas de pesquisa nas Universidades onde são feitas as pesquisas, por exemplo. Como vimos acima, o que caracteriza a complexidade dos fenômenos são justamente as diversas relações firmadas entre os mais variados fenômenos. Dessa maneira, não podemos deixar de caracterizar que existem interações entre diferentes sistemas. Neste trabalho, pesquisamos especificamente as inter- relações entre as teorias de gêneros, mas outras pesquisas podem ser pensadas levando em consideração outros sistemas complexos abertos envolvidos na disseminação de conhecimentos sobre gêneros textuais.
8 - Sistemas complexos operam sob condições longe de equilíbrio:
Nesse aspecto, é importante refletir que estabilidade, simetria e equilíbrio não combinam com sistemas complexos. Desse modo, os sistemas complexos necessitam sempre de transformações, mudanças e reelaborações. Então, deve-se concebê-los como processos, como um constante vir a ser. Como poderemos ver nas nossas análises, as interlocuções e diálogos entre teorias de gêneros se caracterizaram justamente por essas transformações e por estarem longe de um equilíbrio. Quando pensamos em uma teoria para dar conta desses diálogos, a TC é a mais interessante por possibilitar que pensemos nas várias reelaborações que são feitas quando esses diálogos acontecem. Ao considerar os conceitos de transformação e reelaboração, entende-se que não há como se manter estabilidade em um sistema complexo, pois a diversidade e a inter-relação que existe entre os diferentes elementos e a sua interação dinâmica com o ambiente combate qualquer tipo de reducionismo da realidade.
9 - A importância da história:
Aqui é essencial pensar, juntamente com Cilliers (1998), Harvey (1999) e Lyotard (1998), que a dimensão tempo é incorporada à dimensão espaço, pois, além dos sistemas evoluírem através dos tempos, o passado também tem sua responsabilidade, em parte, pelo comportamento presente. Não pode esquecer-se de levar em consideração o fator tempo para qualquer pesquisa que se queira empreender de modo a ser o mais abrangente possível. Em nossas análises, esse aspecto é fundamental por acreditarmos que as teorias de gêneros têm suas especificidades também quando se pensa em que época foram desenvolvidas e quais os propósitos em tempos diferentes. Como dissemos, os diálogos que analisaremos podem ocorrer entre diferentes teorias, em tempos diferentes e com finalidades muitas vezes também diferentes.
10 - Elementos individuais ignoram o comportamento do sistema total no qual estão emersos:
Nesse aspecto, é importante pensar a noção de interdependência, já que os elementos isolados não contém a complexidade do sistema total, não podendo nem controlar, nem compreender a complexidade totalmente. Isso acontece porque elementos isolados quase nunca exercem completo controle sobre um sistema descentralizado. Assim, ao pensarmos
nos diálogos e interlocuções entre as teorias de gênero textual, vale destacar que eles são construções diversas e que, sozinhos, não conseguem caracterizar uma realidade mais ampla. Alguns diálogos podem até parecer mais abrangentes, no entanto, se não levarmos em conta as diversas relações, não poderemos ter uma visão mais profunda daquilo que pesquisamos especificamente.
Assim, através da discussão que apresentamos, pudemos perceber que o pensamento complexo, iniciado com os trabalhos de Edgar Morin e depois difundido por muitos pesquisadores, ao enaltecer a dependência da parte perante o todo e as suas relações apresenta um dinamismo maior no entendimento de muitos fenômenos e, portanto, coloca-se numa alternativa mais concreta do que o determinismo e a estabilidade defendidos por uma abordagem funcionalista.