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Falta-nos também um conhecimento aprofundado dos determinantes da saúde da população activa trabalhadora, relacionados com os estilos de vida (v.g., consumo de tabaco, de álcool e de drogas, dieta, actividade física, gestão do stresse) (Portugal. Ministério da Saúde, 2002: 51). Impõe-se, no entanto, relacionar os lifestyles com os work styles (Wenzel, 1994), por grupos homogéneos de trabalhadores.

Por exemplo, 7% dos homens e 18.1% das mulheres, de 15 ou mais anos de idade (n=41543), referiram ter tomado medicamentos para dormir nas duas últimas semanas anteriores à inquirição. Essa proporção tende a aumentar com a idade. Se nos limitarmos à população de trabalhadores activos (n=21756), a proporção é de 11.5% para as mulheres e 4.4% para os homens. São sobretudo os colarinhos azuis do sexo feminino (12.7%) quem toma medicação para dormir, em maior proporção do que os colegas do sexo masculino (3.9). As diferenças são estatisticamente muito significativas (p <.001) (Graça, 2002b)

Quanto aos hábitos tabágicos, dever-se-á ter em conta a diferenciação socioprofissional e não apenas a distribuição por género. Segundo o último relatório do Director-Geral e Alto- Comissário da Saúde (Portugal. Ministério da Saúde, 2002. 52), “o consumo de tabaco é a principal causa evitável de morbilidade e mortalidade, sendo responsável por cerca de 20% da mortalidade total”, ou seja, o equivalente a 11 mil mortos. Há, por outro lado, uma crescente consciência dos efeitos negativos do fumo passivo no local de trabalho e em casa, sendo hoje “o principal poluente evitável do ar interior”. Sabe-se, por fim, que a desabituação tabágica, “em especial se ocorrer antes da meia-idade, contribui para uma redução do risco de doença atribuível ao consumo de tabaco, que atinge, passados 10 a 15 anos de abstinência, valores semelhantes aos dos não-fumadores”.

De acordo com o último Inquérito Nacional de Saúde, 19.2% da população com 10 ou mais anos de idade é actualmente fumadora. Há diferenças acentuadas por género, idade e categoria socioprofissional: (i) nos grupos etários mais jovens há uma maior proporção de fumadores actuais (por exemplo, 37% no grupo dos 25 aos 34 anos); (ii) em contrapartida é nos grupos mais idosos que se regista um maior número de ex-fumadores; (iii) 30.5% dos homens fumam, contra apenas 8.9% das mulheres; (iv) cerca de 22% dos homens são ex-

fumadores e menos de 48% nunca fumaram; (v) no caso das mulheres, a proporção das que nunca fumaram é muito maior (87%) do que a média na população (68%) (Portugal. INSA, 2001).

Se se seleccionar apenas os trabalhadores activos (n=21805), constata-se que 29.2% deles são fumadores actuais (30.2% entre os colarinhos brancos e 28.4% entre os colarinhos azuis). A proporção de ex-fumadores também é maior entre os primeiros (15.5%) em comparação com os segundos (13.5%) (Quadro II.29).

Quadro II. 29 — População inquirida de trabalhadores activos, de 10 ou mais anos de idade, por consumo de tabaco e tipo de trabalho (Continente, 1998/99) (n=21786) (%)

Tipo de trabalho Consumo de tabaco

Colarinho branco Colarinho azul Total

Fumador actual 30.3 28.4 29.2

Ex-fumador 15.5 13.5 14.4

Nunca fumou 54.2 58.1 56.4

Total N=9348 N=12438 N=21786

Fonte: Portugal. INSA (2001); Graça (2002b)

O grupo profissional em que há maior proporção de fumadores actuais é o dos Técnicos e profissionais de nível intermédio (34.2%) e dos Operários, artífices e trabalhadores similares (35.2%). Os primeiros pertencem ao grupo dos colarinhos brancos e os segundos ao grupo dos colarinhos azuis. Em contrapartida, os A gricultores e trabalhadores qualificados da agricultura e pescas são os que registam a proporção mais alta (70.2%) dos que nunca fumaram. Por seu turno, é nas

Profissões científicas e técnicas que se verifica a maior proporção de ex-fumadores (19.8%).

O Director-Geral da Saúde e Alto Comissário da Saúde registava, com agrado, o facto de (i) nos últimos anos ter havido uma diminuição do consumo de tabaco em Portugal; e de (ii) continuarmos a ser “o país da EU com menor prevalência de fumadores”. Em contrapartida, apontava como facto preocupante a tendência para continuar a aumentar o tabagismo nas mulheres: “Em 1987, 5% das mulheres com mais de 15 anos referiram fumar diariamente. Este valor subiu para 6.5% em 1996 e 7.9% em 1999”. Entre os homens parece registar-se alguma diminuição do consumo, “à excepção do grupo etário dos 35-44 anos” (Portugal. Ministério da Saúde, 2002. 54).

O facto de Portugal continuar a ter a mais baixa taxa de prevalência na União Europeia seria devida, em grande medida, ao peso das mulheres portuguesas não-fumadoras mas também ao impacto da interdição do tabaco na publicidade, introduzida em 1983 (WHO, 1997a). Analisando a prevalência do tabagismo nas mulheres da UE no período de 1950-1990, e apesar dos problemas metodológicos que a comparação de dados entre países levanta, Graham (1996. 249-250) chama a atenção para a historicidade do fenómeno e para a especificidade da situação na Europa meridional. Em boa verdade a situação menos má de Portugal entre as Nações tabagistas teria mais a ver com controlo social e segregação sexual do que aos (des)méritos da saúde pública : “(…) Cigarette smoking among women is a relatively recent phenomenon in southern Europe. Surveys point to prevalence rates of 10% or less up until the late 1960s in Italy, the 1970s in Spain and Greece and the 1980s in Portugal, with a sharp increase since then (...). Southern EC countries appear to be at an earlier stage of the prevalence curve that has characterized women’s smoking in northern Europe”.

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Por outro lado, há suficiente evidência empírica de que o declínio do hábito de fumar entre as mulheres tem-se verificado sobretudo entre os grupos de mais elevado status

socioeconómico (Glendinning et al., 1994; Graham, 1994; Vries, 1995). As lições que se podem tirar destas tendências são relevantes para Portugal e para as empresas que queiram introduzir programas de prevenção do tabagismo activo e passivo (Fielding, 1991a; 1992). “As southern EC countries move through a process of diffusion that has marked out the history of women’s smoking in northern Europe, there is a particular and urgent need to identify strategies to reduce the rate of recruitment of young women into cigarette smoking and to enable those in more materially-disadvantaged circumstances to mach the rates of decline in prevalence achieved by women in higher socio-economic groups” (Graham, 1996. 253).

Refira-se, por fim, o elevado nível de sedentarismo dos portugueses e a sua atitude pouco favorável a uma vida activa saudável através da actividade física (European Commission, 1999; Portugal. INSA, 2001).

2.8. Os principais prompting factors da(s) política(s) de saúde no trabalho

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