I.3. Nucléation
I.3.3. a Théorie
A pintura chegou-nos como um fragmento que apesar de estar em calamitoso estado de conservação se encontrava imbuído de história trans-memorial material e imaterial que nos auxiliou na compreensão da forma e extensão das graves patologias observadas, entre elas uma rara.
A Visitação teve o seu nascimento e o seu período de apogeu ao qual se sucedeu um de decadência e uma muito esperada ressurreição.
Provavelmente terá estado em bom estado de conservação durante um século e meio após a sua feitura, pois um documento de 1710 [22] refere obras na igreja realizadas pelo pedreiro Amaro dos Santos, mas ainda nada refere sobre a Visitação.
Meio século mais tarde, em 1755, todos sabem o que aconteceu ...
Dois anos após o terramoto realizaram-se grandes obras na capela-mor da igreja, infelizmente não descriminadas. No decorrer dessas obras é plausível que a pintura tenha sido removida do seu local original de exposição e tratada com incúria, pois em 1768 já se encontrava em «estado de velhice e incapacidade» [23].
Em 1789-90 a SCM da Aldeia Galega contrata o carpinteiro Eusébio dos Santos e o pintor-dourador Matias Gomes Neto para realizar uma obra no altar-mor [24]. Cuidamos que nessa época a pintura, anteriormente dada como “inútil”, terá, a ajuizar pelas longas incisões verticais, horizontais e semi-circulares (marcas de compasso) que apresentava na frente, sido utilizada para outra função: como superfície de trabalho.
É plausível que a obra tenha sofrido a sua decadência quase definitiva em 1799, quando o pintor Manuel António Araújo é contratado para realizar uma nova Visitação para a boca da tribuna [25]. Nessa altura a obra terá sido utilizada para uma segunda função: parede de forro da tribuna setecentista. Com esse propósito a pintura foi mutilada, cortada, desbastada (na frente e no reverso), as suas travessas foram arrancadas e desprezadas (deixando alguns dos cravos que as prendiam no painel), foi colocada na tribuna e repintada com uma monocromia branca nas superfícies expostas, onde havia acesso (90% do fragmento).
Pontualmente o suporte da pintura sofreu um ataque biológico de insectos xilófagos, antigo, não se podendo precisar a sua datação (diagnosticado em 2003).
A pintura ficou esquecida, desmemoriada, durante dois séculos... até... ao seu providencial achamento em 1998 (Fig. 5).
Seguiram-se duas intervenções de conservação e restauro no espaço de meia década.
A descoberta de 1998 constituiu um importante contributo para a história da pintura maneirista portuguesa, em particular para a obra do grande mestre Thomás Luis. Antes deste achado, o artista já era conhecido como
Fig. 5 Descoberta da pintura
Visitação de Thomás Luis
em 1998.
Fig. 6 Painel após o tratamento de conservação e restauro de 1998.
pintor das modalidades de óleo e de fresco, mas apenas se conheciam exemplos pictóricos materiais desta última técnica.
Na sequência desta essencial descoberta, procedeu-se ao primeiro tratamento de conservação e restauro da
Visitação, realizado em duas fases.
Na primeira fase desse tratamento realizou-se a limpeza da camada cromática que implicou a remoção de: tinta branca (que cobria 90% da obra); de verniz e de «três camadas pictóricas» [26]. O « trabalho (…) contribuiu numa primeira fase para ampliar as feridas na tábua Visitação, através de uma intervenção infelizmente não avisada (e não acompanhada)» [27] (Fig. 6).
Os contornos de uma pintura subjacente (arrependimentos de Thomás Luis), tenuemente visíveis a olho nu, terão sugerido aos técnicos uma Visitação anterior à Visitação que observavam, levando-os a optar por uma suposta pintura mais antiga e pelo consequente sacrifício de «três camadas pictóricas», neste caso parte integrante da Visitação de Thomás Luis. Os critérios da intervenção não foram aplicados de forma ponderada e crítica, com o conhecimento prévio da técnica e dos materiais originais, causando duas patologias irreversíveis (não definidas nos glossários de alterações em pintura de cavalete): lixiviações [28] (com a perda da «epiderme» [29] e em certos locais «da pele» [30] da Visitação – Figs. 7 - 9) e transposições (patologia rara [31] – Figs. 10 - 12). Além dessas patologias, a primeira intervenção deixou resíduos da monocromia branca (que cobria 90% da pintura) e de verniz subjacente (figs. 13 - 15).
Figs. 7 - 9 Thomás Luis, Visitação (1591-92). Detalhes da camada pictórica em mau estado de conservação com lixiviações, deixando estratos pictóricos subjacentes visíveis, incluindo arrependimentos – mão da Virgem, faixa e túnica de Santa Isabel (fotografias sob luz normal).
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A análise da superfície pictórica com luz normal e sob radiação ultra violeta (UV) permitiu detectar verniz em grandes extensões e em resíduos dispersos, que fluorescia do mesmo modo (Figs. 16 e 17).
A segunda fase do tratamento de 1998 incluiu o tratamento de «conservação curativa» [32] (Remoção das tábuas da tribuna setecentista; nivelamento das pranchas; colocação de oito travessas novas para estabilização do painel) e de restauro pontual do suporte e da camada pictórica (colmatação das lacunas no suporte com contraplacados e retoque monocromático cor-de-rosa claro [33] para facilitar a leitura – intervenção estética). A limpeza não foi concluída. A pintura permaneceu durante meia década com verniz por remover em resíduos pontuais e em grandes zonas (parte central esquerda da terceira tábua e zona inferior do painel - da terceira à oitava tábua).
As lixiviações, as transposições e os resíduos de verniz (de pequena dimensão) apenas se detectavam até à “linha branca” de fronteira entre a zona da camada cromática limpa (da camada branca que cobria a obra) e a zona de encosto das tábuas na tribuna tardo barroca (sem camada branca) que se observavam em bom estado de conservação, apenas cobertas com verniz antigo muito oxidado.
Figs. 10 - 15 Thomás Luis, Visitação (1591-92). Detalhes da camada pictórica em débil estado de conservação. De notar as transposições – aba e copa do chapéu da Virgem; manto de Santa Isabel –, e os resíduos dispersos de verniz e tinta branca (fotografias sob luz normal).
Fig. 16 e 17 Fotografias do mesmo detalhe da túnica e do manto da Virgem sob luz normal, no espectro visível (400-750 nm) e sob radiação UV, no espectro invisível (abaixo dos 400 nm). Observem-se os resíduos de verniz dispersos sobre a camada cromática original numa zona limpa heterogeneamente e as zonas apresentando ainda verniz por remover, que fluorescem do mesmo modo sob radiação UV.
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Figs. 18 e 19 Thomás Luis, Visitação, 1591-1592, mesmo detalhe sob luz normal e IRR.
O segundo e último tratamento de conservação e restauro, que descrevemos em seguida, foi efectuado entre 2003 e 2004.
A análise trans-memorial da obra permitiu aferir cientificamente a “história clínica” da Visitação, com patologias causadas por três factores de degradação distintos: ambiental, biológico e antropológico. O último factor referido predominou e foi o causador das patologias mais graves.