E. Evolution des contenus du dessin
2. Thèmes
No que respeita à presença da deusa Inanna/Ištar nas cenas de apresentação, em todos os selos (números 36, 49, 58, 59 e 60)206 a divindade é identificada em termos antropomórficos, sendo distinguida pela presença da coroa chifrada, mas, sobretudo, pelas armas, tais como bastões com duas cabeças de panteras e cimitarras, elementos que podem surgir nas suas mãos ou projetadas dos seus ombros207. Para além destes, a deusa surge, por vezes, com um dos pés sobre um leão, reconhecido como seu animal-símbolo208. Dadas estas especificidades iconográficas, podemos aferir que o dono do selo e/ou o artesão parece ter procurado evocar a vertente bélica da deusa em detrimento das suas restantes facetas, o que, na nossa perspetiva, poderá espelhar a relação da divindade com os restantes intervenientes na cena, numa lógica de poder.
Nestas cenas encontramos também o orante/adorante e, por vezes, a deusa suplicante e uma outra figura antropomórfica, talvez um atendente do culto. A relação contratual, de poder e vassalagem, que as cenas de apresentação evocariam, estaria, aqui, a ser estabelecida entre Inanna/Ištar e o orante/adorante, que nos parece representar, pelo menos nos selos números 36, 58209 e, talvez, no nº 49210, o governante mesopotâmico. O soberano é identificado sobretudo
206 O selo nº 43 assume-se como a única exceção. Neste contexto, a presença da estrela de oito pontas parece coroar
a cena, evocando a presença da deusa Inanna/Ištar. Ademais, se levantarmos a hipótese do orante/adorante representar o governante terreno, então a sua presença justificar-se-ia ainda mais pois, ela detinha um papel soberano no âmbito da ideologia real mesopotâmica.
207 Em termos não-antropomórficos os símbolos evocativos desta divindade são apenas reconhecidos, nos selos deste
tipo, em dois exemplares, o nº 43 e o nº 49. Em ambos, o elemento que remete para a deusa é a estrela de oito pontas, cuja simbologia será descrita na segunda sub-temática, relativa ao selos do período Jemdet Nasr/Dinástico Arcaico.
208 A representação da deusa Inanna/Ištar nestes contornos está também patente em outros elementos da cultura
material mesopotâmica. Veja-se, Anexo 9, Figs. 25-26.
209 No selo nº 60 o orante/adorante não é representado. A cena é composta pela deusa Inanna/Ištar, uma figura
antropomórfica barbuda e um homem-touro, sendo que a ausência do orante pode estar relacionada com questões de gosto pessoal, ou com a mensagem que o proprietário do selo procurava transmitir.
210 O selo nº 49 encontra-se muito fragmentado, tendo apenas chegado até nós intacta a figura da deusa Inanna/Ištar
entronizada. Contudo, este é o único selo desta amostragem que possuí uma inscrição, a qual nos poderá elucidar sobre o possível proprietário do selo, e talvez sobre os elementos representados iconograficamente no mesmo. A inscrição encontra-se, tal como o selo, muito fragmentada, e indica a seguinte passagem: «… (of) Ešnunna». Contudo, em todos os selos exumados na região do Diyala que apresentam na inscrição uma referência à cidade de Ešnunna (selos números 12 e 15 da amostragem e os selos números 432, 724 e 735, FRANKFORT, 1955) encontra- se presente, antecedendo-lhe, o vocábulo «Ishakku (of Eshnunna)». É o que se verifica no selo nº 12, «Ó Tishpak, mighty king, King of the land of Warum, Kirikiri, ishakku of Eshnunna to Bilalama his son has presented (this
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pela presença do turbante real. No selo nº 58 parece-nos ainda mais verosímil a sua identificação, uma vez que este surge de perfil, segurando uma espécie de bastão, tal como acontece, frequentemente, em outros selos do Diyala datados do mesmo período211.
Assim, os selos em análise evocam uma imagem de poder e soberania da deusa Inanna/Ištar sobre o governante, espelhando a lógica da ideologia real mesopotâmica. Inanna/Ištar, soberana divina, parece entregar o bastão que segura, ao governante, o que nos remete para a escolha deste pelos deuses. A presença das armas, marca da destreza bélica da deusa, pode também ser interpretada como uma evocação do apoio divino à governança do suserano. Na guerra, a divindade lideraria, acompanharia e protegeria o monarca no campo de batalha, reforçando o vínculo contratual que os unia212.
Quanto aos contextos arqueológicos, os selos supracitados foram exumados em Khafajah213, em Tell Asmar214 e em Ishchali215. Ainda que não tenha sido possível determinar o local exato onde os selos números 58 e 59 foram exumados, os restantes foram identificados em contextos cúlticos216 e habitacionais217. Relativamente aos selos exumados em estruturas cúlticas, o nº 36 provém do templo dedicado ao deus lunar Nanna/Sîn, em Khafajah e o nº 60 provém do templo de Utu/Šamaš, em Ishchali218. A presença de múltiplas divindades em contextos cúlticos dedicados a um deus específico é natural, dado o caráter politeísta do sistema religioso
seal)».O termo Išakku, que como vimos significa governante permite identificar a mesma lógica do selo nº 49. De referir ainda que, no contexto das inscrições que apresentam indivíduos que não o governante da cidade, a lógica segue o esquema: nome do proprietário/filiação e/ou profissão/servência a dada divindade ou rei (selos números 6, 13 e 54 da amostragem e selos números 517, 593, 609, 649, 650, 729, 777, 886, 900, 912, 917 e 920, FRANKFORT, 1955) . Tendo tudo isto em conta não nos parece que no selo nº 49, estejamos perante esta última hipótese. Sobre as inscrições presentes nos selos da amostragem do Diyala veja-se, FRANKFORT, 1955: 48-52.
211 Veja-se Anexo 9, Fig. 27.
212 Esta visão é sobretudo pronunciada no corpus profético neo-assírio traduzido e analisado por Francisco Caramelo
(2002).
213 Selos números 36 e 58. 214 Selo números 49 e 59. 215 Selo nº 60.
216 Selo nº 36: locus: Tell D; nível: Templo de Sîn (FRANKFORT, 1955: Plaque 40); Selo nº 60: Locus: W 32:1;
Nível: Templo de Utu/Šamaš. O selo foi exumado numa área de pátio de entrada que daria acesso a um pequeno templo localizado a norte (FRANKFORT, 1955: Plaque 88; HILL; JACOBSEN, 1990: 79).
217 Selo nº 49: locus: J 19:11; nível: Casas IVa (FRANKFORT, 1955: Plaque 63).
218 Tendo em conta o contexto cúltico em que se identificaram, estes selos poderão ter servido de ex-votos, ou então
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mesopotâmico. Contudo, a presença destes dois selos cilíndricos nos templos de Nanna/Sîn e de Utu/Šamaš poderá evocar a relação familiar entre Inanna/Ištar e o deus lunar, seu pai, assim como a relação com a divindade solar, seu irmão.