3. Structure du rite expiatoire
1.3 Le thème du chant : le « catalogue des vaisseaux »
Iniciemos retomando os principais pontos dos pensamentos de Paulo Freire e de René Girard. Como vimos, para Freire só é possível pensar em educação fazendo-o a partir daquilo que constitui a experiência fundamental dos seres humanos, ou seja, a consciência de seu inacabamento. Esta consciência constitui a raiz mesma da prática educativa compreendida como processo que permite ao ser humano seguir em sua busca permanente de si mesmo, isto é, seguir na direção de sua vocação de humanizar-se, como vocação ontológica e histórica de ser mais. No mais, para Freire o ser humano é essencialmente um ser de relações, que integrado em seu tempo e espaço, não apenas capta a realidade que o cerca, mas cria uma pluralidade de respostas aos desafios com os quais se depara, o que lhe permite dinamizar o mundo e humanizar a realidade.
Assim, para Freire, a práxis enquanto ação e reflexão dos seres humanos sobre o mundo no sentido de transformá-lo, representa o modo humano de existir, aquilo que permite que o ser humano seja e não apenas esteja no mundo, porquanto seres do quefazer, situados e datados em seu contexto. Desta forma, a humanização representa também a vocação humana de ser sujeito a partir de sua capacidade de intervir no mundo, de interagir e transformar a realidade que o cerca, ou seja, a partir de sua práxis. Porém, na contramão da vocação humana, Freire identifica a desumanização decorrente de uma sociedade opressora que rebaixa os seres humanos à condição de objetos. É mediante a renúncia de sua práxis, que os
seres humanos assumem o comportamento típico dos animais e se fazem meros espectadores diante da realidade. Freire destaca os diversos mitos através dos quais se sustenta a estrutura opressora, sendo que o eixo central que os perpassa é o intuito de fundamentar uma distinção “ontológica” entre opressores e oprimidos. É a superioridade “ontológica” dos opressores que lhes assegura o “direito” de prescrever aos oprimidos as tarefas de seu tempo.
Ao definir a desumanização como possibilidade histórica, não como vocação humana ou destino dado, Freire abre o caminho para a possibilidade da transformação da realidade. Porém, embora considere que tal tarefa compete aos oprimidos, destaca que, ao assumirem a luta pelo fim da dominação, estes tendem a buscar tão e somente uma inversão da ordem opressora onde se tornariam opressores dos opressores, o que significaria a manutenção da opressão e da desumanização. Isto se dá na medida em que para os oprimidos ser humano significa ser opressor, pois, imersos na realidade opressora, assumem o opressor como seu testemunho de humanidade. Freire salienta que a condição fundamental dos oprimidos é sua contraditória dualidade existencial, pois “hospedando” em si a figura do opressor, são eles e ao mesmo tempo o opressor neles hospedado, na direção do qual movem tanto seu desejo quanto sua perspectiva de realizarem-se como seres humanos. A contraditória condição dos oprimidos de serem “hospedeiros” do opressor tal como apontado por Freire, constitui a conexão a ser estabelecida com o pensamento de René Girard.
De acordo com Girard, o ser humano se constitui como tal na medida em que ultrapassa o instinto puramente animal e faz-se um ser desejante. No entanto, uma vez que o ser humano deseja intensamente, mas não sabe o que desejar, o desejo constitutivo do seres humanos é um desejo que busca um modelo ao qual imitar. Deste modo, o desejo mimético é o desejo característico do ser humano, aspecto que constitui o eixo central das relações que os seres humanos estabelecem entre si. Girard destaca que o ser humano deseja incessantemente, porém ele não sabe exatamente o que desejar uma vez que aquilo que ele deseja é o ser. Deste modo, o sujeito, ao imitar o desejo de seu modelo, o faz porque nele vê a superioridade de ser que deseja. No entanto, a superioridade de ser que ele identifica no modelo lhe parece associada à posse de um determinado objeto. Desta forma, atrela o ser ao ter, de modo que seu desejo se faz um desejo de apropriação daquilo que pertence ao modelo.
Portanto, a rivalidade mimética não se origina mediante a convergência de desejos voltados para um mesmo objeto, mas porque a posse do objeto está relacionada à superioridade do ser. Assim, a violência se dá na medida em que a rivalidade mimética deixa de ser mediada pelo objeto em questão e se converte em uma disputa tão e somente por prestígio. Neste sentido, Girard aponta o double bind – o duplo imperativo contraditório –
como fundamento das relações entre os seres humanos, constituindo o pano de fundo da rivalidade mimética, na medida em que o sujeito se vê entre “vozes” que lhe dizem “imite-me se quiser ser” e ao mesmo tempo “não me imite porque eu não abrirei mão da minha superioridade”. Disto procede não apenas a violência resultante da rivalidade entre modelo e sujeito, mas que o desejo humano se volte para a violência mesma como signo de superioridade.
Esta dinâmica pela qual o desejo do discípulo se torna um desejo pela violência mesma corresponde à tendência que Freire identifica nos oprimidos de, na luta pela sua humanização, realizarem apenas a inversão da ordem opressora. De acordo com a perspectiva do desejo mimético, temos que os oprimidos “hospedam” em si o opressor uma vez que este é o modelo a quem imita os desejos. Para os oprimidos o opressor é seu modelo de humanidade, sendo que os opressores lhe parecem dotados do ser que almejam em sua incompletude, em sua carência de ser. Porém, é pela opressão que os opressores sustentam sua superioridade de ser, de modo que, por internalizarem em si o opressor, o que os oprimidos desejam é oprimir.
Cabe ressaltar que, para Freire, a contraditória condição dos oprimidos de serem “hospedeiros” do opressor é o resultado de sua imersão na realidade opressora. No entanto, considerando a teoria do desejo mimético de Girard, temos que tal condição não é simplesmente fruto da dinâmica de uma sociedade opressora, mas de uma situação que remete à condição existencial do próprio ser humano, na medida em que é por natureza que ele deseja mimeticamente. Ao que nos parece, Freire se aproxima da compreensão de Girard ao afirmar que os oprimidos sofrem uma dualidade que se instaura na interioridade de seu ser, designando-a como uma dualidade existencial que os leva a uma “luta interior” nascida do dilema entre serem eles mesmos ou serem duplos, entre expulsarem ou não o opressor de dentro de si.
Neste sentido, Freire aponta a conscientização como uma das tarefas fundamentais da educação, uma vez que a ela compete o papel de desvelar os mecanismos da sociedade opressora. No entanto, ressalta que a opressão exerce tamanha força sobre os seres humanos que seu resultado é o medo da liberdade, o que leva os oprimidos a verem a conscientização não como uma via de libertação, mas como um perigo a ser evitado. Deste modo, preferem refugiar-se em sua segurança vital a lançar-se à liberdade arriscada. A partir destas considerações, partiremos para a tentativa de encontrar uma “saída” que torne possível transpor esta contraditória condição em que se encontram os oprimidos.
3.2 O PERIGO DA CONSCIENTIZAÇÃO: A AMEAÇA DE MORRER PARA NASCER