3. ANALYSE DES IMPACTS DES DISPOSITIONS ENVISAGÉES
4.2.3. Textes d’application
Quando o sujeito em uma situação analítica é incapaz de dizer ou formular pensamentos, expressões ou palavras que se encontram inacessíveis naquele
momento, o analisando é forçado a continuar divagando e fugindo da questão primordial. Esse discurso emitido, porém, vai desenhar o entorno daquilo que ele vem rondando e, mesmo que essas palavras possam vir ao sujeito com o passar da análise, o analista pode interpretá-las, e a interpretação busca alcançar aquilo que o analisando não consegue colocar em palavras, e possibilita que este sujeito saia da posição de assujeitado.
O que é indizível do ponto de observação ou posição do analisando não é necessariamente indizível do ponto de observação do analista. Para Lacan, através da interpretação do analista, o analisando pode ser capaz de nomear o significante ao qual ele, enquanto sujeito, está assujeitado. Ao interpolar ou fazer o analisando pronunciar a palavra ou palavras (ou combinação de palavras: ajuntamento) ao redor da qual ou das quais ele tem circulado, aquela causa inatingível, intocável e imóvel é impactada, a fuga daquele centro de ausência é atenuada, e a causa toma o rumo da “subjetivação” (FINK, 1998, p. 48).
Isso possibilita pensar que o alcance do que não se podia dizer por parte do analisando dirige o sujeito a um espaço onde a fala pode gerar a simbolização daquilo que, por não ser acessível, gerava sofrimento. Isso, no entanto, não quer dizer que a causa traumática tenha sido uma palavra ou uma expressão, mas, com esse trabalho analítico, o analisando pode ir em direção à palavra, nem que seja somente a emissão de murmúrios, de sons ou fonemas.
Pode-se compreender que o trauma não se limita a uma ação, a um acontecimento que permite a generalização do quadro. Não é possível dizer que esta vivência ou experiência poderá produzir uma situação traumática em todos os sujeitos que se encontrarem nesta situação. Isso é banalizar a singularidade subjetiva dos sujeitos, pois, como dito anteriormente, o meio, a cultura, a família, os costumes, que vão cercar o pré-sujeito, é o que criará um berço simbólico único, singular. Neste berço simbólico é que ocorre o encontro com a linguagem, que, com o que vimos até aqui, permite compreender que é fundamental para que ocorram as inscrições psíquicas a partir do “empréstimo” dos significantes do Outro; este Outro sendo aquele que já interpreta (pela linguagem) o dado a ver no corpo do bebê e, dessa forma, supõe um saber inconsciente nele que possibilita as inscrições nesse sujeito.
Bem, então, se o trauma é um instante, um ocorrido ou uma vivência que precisa ser simbolizada, podemos perceber que um resto deste real é que produz o trauma, ou o quadro cujo tal desencadeia. Dessa forma, Lacan nos permite
justamente compreender que é “a linguagem que cria o trauma!” Aonde a letra não produziu simbolização é que ocorre a situação traumática; portanto isso equivale a dizer que o sintoma é uma letra. Jerusalinsky se utiliza do pensamento de Pommier para uma significativa contribuição no que diz respeito ao efeito da psicanálise e sua articulação com as formações do inconsciente:
(...) O sintoma é, portanto, uma letra. Se a psicanálise tem um efeito
terapêutico é além disso, porque existe esta equivalência generalizada entre as formações do inconsciente e a instância da letra: toda ação sobre a letra no nível da linguagem durante a cura, terá, graças a essa equivalência, um eco sobre o corpo [grifos do autor] (JERUSALINSKY, 2011, p. 125).
Na clínica se opera com a fala, e é pela sua relação com a inscrição da letra que a psicanálise pode proporcionar um efeito terapêutico a nível de ressignificação pela fala. É na clínica que se intervém com as duas faces da letra:
Intervém com a letra que, como uma moeda, apresenta duas caras: uma que se volta para o simbólico, para a articulação significante, para a possibilidade de um saber que se produz o sujeito, e outra que se volta para a inscrição enquanto rasura, para o real, pra que o que não cessa de não se
inscrever, para o gozo [grifos do autor] (JERUSALINSKI, 2011, p. 126).
Como leitura, a partir disto, é possível pensar que se uma cena traumática produz sintoma é porque criou um traço que se inscreveu no circuito pulsional e que, portanto, sempre retorna pela repetição. Se o sintoma é uma letra que irrompe pelo enigma das formações do inconsciente, recordar a cena traumática implica trabalhar no encadeamento dessa letra enigmática em redes que permitam a produção de um saber falado. A psicanálise aposta na associação livre, de forma que na clínica não seria suficiente somente as formações do inconsciente, nem a irrupção da letra, ou ainda o sujeito recordar a cena supostamente traumática. É necessário implicação do sujeito nestas formações e que produza algo a partir destas para se fazer valer a proposta de recordar para elaborar em vez de somente repetir.
Um ponto importante que Freud apresenta em seu texto Análise Terminável e Interminável (1996n), é que toda neurose comporta um momento traumático acidental e um momento constitucional. Ele lembra que “somente quando um caso é predominantemente traumático é que a análise alcançará sucesso” (FREUD, 1996n, p. 236), posto que os efeitos prejudiciais do trauma se tornarão mais manifestos, e, com o fortalecimento do ego, Freud diz que é possível “substituir por uma solução
correta a decisão inadequada tomada em sua vida primitiva” (1996n, p. 236). Observa-se, portanto, que Freud aposta que a Psicanálise pode promover o suporte que o sujeito, em situação de sofrimento derivado de um momento traumático, precisa para produzir elaboração daquilo que o fez adoecer.
A respeito do fim da análise, Machado contribui:
Lacan nos ensina que o final de análise consiste em levar o sujeito à travessia da fantasia, portanto, ao ponto congruente com o S(A/), ou seja, ao desvelamento da falta do Outro, instante em que o horror de saber se transmuta em desejo de saber. Neste momento o sujeito pode se deparar com o que está por detrás da cortina da fantasia, o traumático. Sabemos com Freud que a única verdade é aquela que se passou a vida toda velado, a verdade da castração, só aí neste momento, ao final da análise, é possível com ela consentir (2006, p. 46).
Isso acorreria quando os significantes levassem à construção de uma frase, ou algo para além da ficção. O autor ainda destaca que há uma diferença entre a posição do sujeito no tempo do trauma, no tempo da fantasia e no tempo da sua travessia. “No trauma, ele é tomado por algo que o ultrapassa. Na fantasia, trata-se de um recurso do sujeito, uma maneira de articular, de velar o insuportável, o traumático. Já a travessia da fantasia é o tempo de se poder abrir o véu” (2006, p. 47).
Com isto traçamos um caminho que nos leva a compreender o que significa o trauma para a psicanálise, sua articulação com a estrutura psíquica, seus efeitos e a ação da análise no trabalho psíquico, de forma a alcançar o objetivo proposto no início deste trabalho.
CONCLUSÃO
Este trabalho teve seus encaminhamentos com o propósito de conceber um percurso dentro da teoria psicanalítica a respeito do trauma, como este ocorre, sua ligação com os sintomas somáticos e psíquicos, bem como o trabalho analítico realizado na clínica e seus efeitos produzidos no sujeito.
Freud, que é considerado precursor da psicanálise, nos acompanhou desde o início deste trabalho com suas construções, já na pré-história da teoria. Inicialmente, para Freud, o trauma é produzido por um episódio em que se experimentou grande medo, ou um conjunto de pequenos acontecimentos (ofensas, susto...) que, inter- relacionados, podem substituir o grande trauma. Ele acredita que a descarga não adequada dessas impressões experimentadas psiquicamente é o que gera o trauma.
Neste princípio da teorização psicanalítica, Freud está intrigado pela irrupção da histeria e a liga à hereditariedade e a um “gatilho” que pode ter desencadeado os sintomas, sendo um destes gatilhos o trauma como causa incidental da histeria. Percebeu-se, então, que o acontecimento traumatizante e os sintomas histéricos são separados por um período de latência, o que indica sua ligação com o psíquico, e ainda que o evento externo em si não produz o trauma, mas vai desencadear uma atividade psíquica que é patogênica. Logo, as histéricas atendidas por Freud passam a relatar um acontecimento de cunho sexual e, em seguida, surge o quadro histérico. Isso irá caracterizar e dar forma à teoria da sedução.
A teoria da sedução refere-se a uma lembrança relacionada à vida sexual que permanece “adormecida” até ser evocada no futuro pela ressignificação deste evento como experiência sexual, fazendo surgir, então, os sintomas. Essa teoria não se sustenta por muito tempo, sendo substituída por um conceito fundamental da psicanálise, que é o de fantasia. Essa mudança de rumo vai pôr em dúvida a verdade do acontecimento e criar a noção de ficção que se desenvolve em âmbito inconsciente, ou seja, os sintomas não são mais gerados pela sedução real, mas, sim, pela sedução fantasiada.
Aqui aparece a repetição da cena traumática, que vai dizer de um além do princípio do prazer, pois, como o princípio do prazer diz da tentativa de sempre
encontrar satisfação, esse além fala da compulsão à repetição da cena traumática que é um evento que provoca desprazer. Essa compulsão à repetição vai ser ligada por Freud à ideia de pulsão de morte, que se une ao aspecto “demoníaco” de toda pulsão que se dirige a uma tendência absoluta de descarga, e que leva a repetir justamente aquilo que o sujeito gostaria de esquecer.
A analogia de que se cria um escudo que protege o psíquico dos excessos de estimulação que podem prejudicá-lo, refere que o traumático seria esses excessos de excitações que podem provocar uma ruptura nessa barreira de proteção. Esse excesso vai pôr em movimento as medidas defensivas do sujeito, o que nos permite ler que os sintomas seriam oriundos dessas defesas. Essa analogia vai permitir pensar que o psíquico permite inscrições, e que essas inscrições são fundamentais na estruturação do aparelho psíquico.
Também nos detivemos em Lacan e, para que fosse compreensível sua visão do que é traumático, entramos no conceito de letra, o qual atrela o funcionamento psíquico à linguagem. Para pensar na inscrição dessa letra foi necessário remontar ao período em que o bebê nasce e se encontra aos cuidados da mãe, e esta vai interpretar as suas manifestações, o que leva a pensar em uma forma de comunicação. A repetição desses cuidados vai estabelecer um circuito pulsional. É a partir das marcas que se inscrevem os traços, os quais testemunham uma passagem de algo que não está mais ali. Isso somente é possível compreender quando se pensa nas estruturas do real, simbólico e imaginário, que têm origem a partir da linguagem e do exercício das funções materna e paterna.
Para advir um sujeito é necessário que o bebê seja colocado como objeto de desejo da mãe, que vai lhe emprestar seus significantes e construir uma imagem do filho, a qual precisa ser apropriada mais tarde pelo próprio sujeito. Essa posição de ser objeto de desejo, porém, é também uma posição insuportável, pois esse lugar de desejo do Outro fala de sua falta oriunda da castração, que se faz valer a partir da linguagem. Esse encontro com o Outro é traumático, e é a fantasia que vela essa posição insuportável que sustenta o sujeito ante o anteparo do traumático, da sua posição de objeto.
A operação do recalque pressupõe o esquecimento ou apagamento, mas o traço nunca é abolido em si, porém é negada sua passagem para o simbólico, o que faz ser empurrado em direção ao real. Essa constatação permite colocar a letra com
uma face no simbólico e outra no real, ou seja, o real é a instância na qual fica tudo o que não é simbolizado ou não pôde ser simbolizado, e a letra no simbólico representa o sujeito enquanto desejante, e que vai possibilitar também a produção da linguagem como escrita. Dito isto, o trauma vem a ser exatamente aquilo que não pode ser simbolizado, que não produziu significação ao sujeito.
Freud vai ressaltar que o trauma possui uma índole positiva e outra negativa; que na leitura de Dunker os positivos seriam a consequência da compulsão à repetição, que, por via da narrativa, tendem a tornar real a experiência traumática, e os efeitos negativos não buscariam a repetição ou recordação, e sim são as reações defensivas que vão constituir os sintomas. A repetição vai falar desse encontro com o real, e esse encontro é situado entre o trauma e a fantasia, sendo ambos representantes de duas bordas do real.
Com tudo isto que foi construído é necessário, agora, pensar em como a psicanálise pode vir a ser suporte para o sujeito que está em sofrimento. Se é o simbólico que representa a linguagem, e o que não pode ser simbolizado é o real que pode produzir o trauma, então é a linguagem que cria o trauma. Como a letra tem uma face voltada para o simbólico e outra para o real, o sintoma é, portanto, uma letra, e é justamente por possuir essas duas faces que o sujeito, em análise, pode ressignificar o sem sentido que produz sintoma. É a letra que irrompe pelo enigma das formações do inconsciente, e recordar a cena traumática implica em o sujeito trabalhar no encadeamento de redes de significantes que permitam um saber falado a respeito disso, e aqui reside, então, o efeito terapêutico proporcionado pela clínica.
O trauma é possível de ser suportado pelo sujeito por ser velado pela fantasia, a qual, juntamente com o trauma, faz o real como local do encontro do sujeito com o sem sentido, com aquilo que não pode ser elaborado. Isso permite concluir, de forma clara, que não se pode encontrar na situação externa ao sujeito a explicação do trauma, e sim a posição do sujeito na cadeia significante é que vai permitir este lidar com aquilo que vem de fora e produzir um significado dentro desta cadeia em que se encontra.
O termo trauma vem sendo utilizado em grandes proporções pelas pessoas em geral, o que acaba promovendo uma rotulação sobre o sujeito dependendo da situação em que se encontra. Essa “rotulação” precisa de espaço para reflexão, pois
ela pode agir justamente ao contrário da proposta analítica que a psicanálise tem, engessando o sujeito a um diagnóstico ou a um tratamento que não é apropriado a ele. Perceber o sujeito como ser singular não permite enquadrá-lo em diagnósticos preconcebidos, pois, ao fazê-lo, ele acaba sendo limitado, e, ao não poder se mover, adoece. A análise deve permitir e dar suporte para o sujeito construir e desconstruir significantes que o assujeitam, dando condições de ele trabalhar aquilo que o faz sofrer.
Este trabalho realizou um percurso em alguns pontos que permitem entender o que o trauma representa à psicanálise, mas há muito ainda a ser discutido, pois os sujeitos vão se reinventando no decorrer do tempo e, com isso, as redes significantes vão haver-se com esse novo e abrir caminho a novas fontes de sofrimento. É necessário que a busca, a interpretação e o estudo continuem produzindo referenciais para aqueles que procuram entender o sofrimento psíquico. A falta que move o sujeito desejante é o que move também a sua tentativa de conhecer, de se conhecer e se reinventar.
REFERÊNCIAS
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