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CHAPITRE II : MÉTHODOLOGIE

10. OUTILS DE MESURE

10.3. Tests neuropsychologiques

5.5.1 Avaliação dos pontos positivos e negativos do Curso de PLE: o espaço concedido ao estudo da gramática

Esta aula está dividida em duas etapas. A primeira etapa da aula está voltada para a explicação do professor Y sobre as avaliações que a turma realizaria. A primeira avaliação constituía-se da apresentação de um seminário sobre a culinária brasileira e a segunda avaliação seria a produção de um artigo de opinião. Já a segunda etapa da aula destinava-se a avaliação do Curso de PLE por parte dos alunos e que se configura como nosso objeto de análise.

O primeiro momento da aula em questão destinou-se a orientação de como aconteceria o seminário, das datas de apresentação, da divisão dos componentes das equipes, da escolha das regiões do Brasil e de outras orientações relacionadas ao tratamento da temática do seminário. Vale salientar que, devido ao recorte metodológico que fazemos, não analisaremos o discurso do professor produzido nesta parte da aula, pelo fato desta não nos remeter nem direta ou indiretamente ao ensino da análise linguística. Assim, por ter este teor supracitado, justificamos também que não investigaremos as atividades realizadas pelo professor Y, já que o próprio previa outros objetivos para a aula em questão, tais como serão explicitados a seguir.

As cenas desta aula são diferenciadas, pois ela tem como objetivo principal a realização de uma avaliação coletiva sobre o Curso de PLE. A partir desta avaliação, observamos e investigamos como as concepções de ensino da língua, que atravessam a prática

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de ensino do professor, se evidenciam em seu discurso sobre as questões de análise linguística e quais são os desdobramentos deste posicionamento. Sobre os pontos a serem avaliados a respeito do Curso de PLE, é importante ressaltar que o professor Y não direcionou perguntas para que os alunos expusessem suas opiniões a cerca do Curso, mas deixou-os livres para que falassem sobre as lacunas possivelmente observadas.

Teremos como ponto de reflexão o discurso produzido pelo professor Y, especialmente, durante esta segunda parte da aula, pois acreditamos que nos releva o posicionamento deste, frente às questões levantadas pelos alunos sobre o ensino de tópicos gramaticais. A gramática está intrinsecamente ligada aos fatores de organização estrutural das unidades mínimas da língua e que nos permitem, quando são devidamente contextualizadas, uma apropriação mais segura e confortável destas estruturas que estão organizadas na construção e em função dos mais diversos tipos de textos e gêneros textuais.

Especificamente, neste momento de avaliação do Curso, os alunos ressaltam que os principais aspectos positivos das aulas relacionam-se com a riqueza do vocabulário na leitura de diversos textos com as mais variadas temáticas, tais como violência, religião, ditadura militar, festas, danças e comidas típicas das regiões do Brasil. Em relação aos aspectos que precisavam ser ampliados destacou-se a ampliação do vocabulário produzido localmente como, por exemplo, uma amostra de expressões idiomáticas típicas da cidade em que os alunos estavam imersos e um estudo que contemplasse com mais frequência os aspectos gramaticais da língua.

Aluno 1:Eu gostaria de ter estudado mais é...tipo eu gostei muito da parte cultural + mas também gostaria de ter dado mais gramática(...) Eu vi futuro de subjuntivo e o infinitivo pessoal e tal + então pra mim tipo não é aplicável no momento e tal...eu cheguei aqui e todo mundo fala isso + e eu tenho muito problema de...porque aqui fazem muitas combinações verbais...

Aluno 2: Na Gramática + pra mim é difícil na situação utilizar os tempos verbais corretos + porque na Alemanha eu aprendi tudo + infinitivo pessoal + o subjuntivo + o passado assim...mas depois usar ficou meio difícil.

Aluno 3: E pra mim não sei + um texto pelo menos um texto inteiro +pegar somente um texto de um livro e colocar os verbos só no infinitivo + e deixar a gente escolher o tempo + porque assim a gente tem que pensar. (grifos nossos).

A partir das opiniões dos alunos podemos refletir também sobre a necessidade que eles apresentam, sendo este fato intrinsecamente ligado às suas culturas de aprender, principalmente no que diz respeito ao estudo sistematizado de tópicos gramaticais, sendo isso expresso pela própria necessidade de uso comunicativo, afirmado com o seguinte

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posicionamento “eu cheguei aqui e todo mundo fala isso[referindo-se ao futuro do subjuntivo e ao infinito impessoal] e eu tenho muito problema de...porque aqui fazem muitas

combinações verbais.... Na Gramática, pra mim é difícil na situação utilizar os tempos verbais corretos (...). (grifos nossos).

Ao considerar o posicionamento dos alunos, observamos uma diferença entre os objetivos do professor com os objetivos dos alunos. Estas declarações sinalizam a necessidade de refletirmos atentamente sobre a abordagem adotada para o ensino de línguas, já que esta norteia nossas escolhas do conteúdo a ensinar e de como ensinar. Desta forma, emergem questionamentos que instigam a postura adota no ensino de PLE, frente a uma abordagem que busca contemplar a língua como um instrumento que viabiliza a comunicação, tais como: Qual é o lugar da codificação gramatical? Quando ela surge? De que ela emerge? Por que a incessante necessidade por parte dos alunos de conhecer e compreender o sistema gramatical e consequentemente o seu uso?

Corroboramos com a ideia de que o estudo da gramática de uma língua através de amostras recortadas e isoladas do sistema linguístico pode não abranger a totalidade da sua utilização, já que semanticamente, discursivamente e pragmaticamente um item gramatical poderá obter uma nova categorização e exprimir um novo significado quando se mostram em situações concretas. Contudo, a compreensão do funcionamento padrão dos aspectos gramaticais de uma língua pode assegurar, em um primeiro momento, a noção do que seja estanque e sólido nesta língua, para então contemplar e dominar uma noção funcional destes aspectos e poder transitar seguramente e adequadamente no espaço de uso da língua, de acordo com suas necessidades de interação. O professor Y adota o seguinte posicionamento em relação ao ensino da análise linguística ao declarar em sala de aula que:

Professor Y: Eu acho que da gramática houve né + do que a gente trabalhou...não talvez adequados pra o quê você tá colocando né + de perceber efetivamente + de perceber como é que são feitas as construções aqui + né.

Acho que tá muito claro + por exemplo, + que isso é princípio também da abordagem que a gente trabalha né :: de não trazer + por exemplo + o estudo dos verbos como a gente fez aqui + de trazer a gramática e a relação dos verbos e a conjugação +isso pra mim não serve + serve pouco + né? (grifos nossos).

O fato de o professor Y pautar-se na teoria do Interacionismo Sociodiscursivo, que oferece para o ensino de línguas, com base no gênero textual, o modelo de uma arquitetura textual e que nos permite contemplar, a partir dos mecanismos de textualização, tópicos gramaticais, que colaboram para articulação da produção textual, seja ela escrita ou

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oral. O subsídio de uma teoria se faz necessário para toda prática de ensino, contudo as diversas assunções teóricas devem nos levar a caminhos que nos possibilitem chegar a descrições coerentes e relevantes das noções gramaticais. O ensino da análise linguística se faz importante pelo fato de responder aos sentidos e aos efeitos criados na rede comunicativa, que são equacionados e relevados através da linguagem. Assim, as escolhas das amostras da língua e o modo de sistematizá-las compreendem uma série de possibilidades de metodologias. Uma parte dessas escolhas concerne às referências metodológicas construídas pelo próprio professor ao longo de sua formação profissional são evidenciadas também pelo professor Y, quanto ao seu posicionamento sobre o ensino dos verbos.

Professor Y: Eu acho que o mais interessante é você entender dentro do texto qual é a função daquele verbo + né? Que tempo efetivamente tá sendo construído ali dentro do texto + porque não é só os aspectos morfológicos do verbo +por exemplo + que vão dá a referência temporal dele + as vezes tem relação com o adjunto adnominal ou adjunto verbal né + e aí....

(...) talvez +fazer a comparação com o que está na gramática + como é que ele

aparece nos textos? Pra vocês terem essa noção de distinção + né. Então + como é que tá na gramática? Aparece assim esse tempo verbal...Como é que nos textos ele aparece? Aparece assim + esse tempo verbal...(grifos nossos).

O tratamento dos aspectos gramaticais não se relaciona automaticamente de forma disjunta do texto, mas antes pela evocação que determinadas funções fazem de determinadas categorias. É importante, para o ensino de língua estrangeira, que não se descreva aprioristicamente os desequilíbrios, ou seja, as variações de construção sintática, mas antes observar as correspondências regulares que respondam pelo estabelecimento do modelo categorial dos vários itens que estão em funcionamento na produção linguística. Assim, o ensino da análise linguística que é norteado pela gramática em uso não deve, todavia, contrariar o que está previsto pelo sistema linguístico, ao capturar para análise uma descrição comum de fatos aleatórios, nem tão pouco uma análise que ignore o sistema regulador de todos os enunciados da língua, sejam quais forem as suas manifestações nos eventos interativos. Ao falar sobre a forma como compreende o ensino dos verbos, o professor Y remete-se diretamente à teoria, que não somente norteia o seu agir em sala de aula, mas que também rege o seu próprio discurso do saber a ensinar, ao afirmar que:

Professor Y: Recorri também à base do ISD + e também com relação à construção da temporalidade + eu utilizo bastante é :: a referência culioliana de construção da temporalidade dentro do texto +apesar de não utilizar né + esses termos com eles + mas nos exercícios + eu me focalizava nessas perspectivas teóricas. (grifos nossos)

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Apesar de afirmar que não utiliza metalinguagem teórica, já a usava na busca de justificar o seu agir e para que os alunos compreendessem o porquê da sua concepção de ensino de gramática que, por sua vez, pautava-se em uma teoria linguística para dar suporte ao olhar que se punha sobre o objeto a ensinar. A metalinguagem especializada se configura como o próprio insumo do ensino dos aspectos gramaticais, através de uma metalinguagem especializada e que consagra este uso em particular como o mais completo e correto.

Professor Y: E aí + um dos pontos negativos que eles colocaram + mesmo havendo essa metalinguagemné + o tempo todo em sala de aula + mas talvez eu não tenha conseguido sistematizar da forma como deveria ter sistematizado pra eles +né + e aí por ser uma primeira experiência e tudo...

E um dos pontos negativos que eles colocaram + foi de não ter trabalhado muitos aspectos da gramática tradicional + certo.(grifos nossos)

É importante observar no ensino de língua estrangeira, a tentativa que fazemos de aplicar a teoria a todo custo, e isto implica pensar não em uma abordagem ideal para determinado contexto, mas antes uma abordagem coerente dos fatos gramaticais da língua e de seu funcionamento nos textos e nos discursos. É igualmente importante compreendermos que não podemos descartar os modos de aprender dos alunos. Por mais que o professor esteja munido de uma teoria para orientar o seu agir, deve-se procurar conjugar o suporte que a teoria nos dá com as necessidades de aprendizagem dos alunos e que poderão reorientar o ensino do professor em relação à flexibilidade no modo de tratar o conteúdo, principalmente no que diz respeito à demanda gramatical. Desta forma, não é interessante desprezar o ensino de gramática, mas pensar em uma forma de fazer que não delimite o ensino de línguas a uma autossuficiência dos itens gramaticais, mas antes procurar contextualizar o uso desses itens nos textos em pleno funcionamento social, pensando igualmente em outras questões que vão além da estrutura gramatical. No próximo ponto, examinaremos a prática de ensino de gramática do professor X, também sujeito participante desta pesquisa.