4. Operations
4.6. test
No livro A distinção (2007a), Bourdieu apresentará os habitus das classes dominantes e das classes populares como mais ajustados às suas posições do que o habitus da classe média, caracterizado como um habitus essencialmente pretensioso, clivado entre dois mundos – o de origem e o pretendido (DUBAR, 2005).
Partindo da estreita associação da posição social à disposição, Bourdieu lerá o habitus da classe média a partir da sua posição relativamente indeterminada no espaço social, marcada pela dupla “vizinhança” e pela necessidade constante de diferenciação dos polos opostos.
Entre as propriedades comuns a todos os ocupantes dessas posições médias ou neutras, as mais características são, sem dúvida, aquelas que se referem a essa indeterminação estrutural: situadas a igual distância dos dois polos extremos do campo das classes sociais, em um ponto médio ou, melhor ainda, um lugar neutro em que as forças de atração e de repulsa se equilibram, os pequeno- burgueses têm de enfrentar, incessantemente, alternativas éticas, estéticas ou políticas, portanto, obrigados a levar as operações mais correntes da existência à ordem da consciência e das escolhas estratégicas (BOURDIEU, 2007a, p. 324, grifo nosso).
A posição instável ocupada no espaço social, assediada pelo medo do declínio e investida pela possibilidade de ascensão, pode ser observada pela presença de maiores heterogeneidades de alguns indicadores20 dessa classe em comparação àqueles referentes à
19 Tais discussões são desenvolvidas de forma mais detalhada no tópico “Habitus e reflexividade” desse mesmo
capítulo.
20 Ao discutir questões relativas ao método da pesquisa que deu origem ao livro A distinção (2007a, p. 461),
Bourdieu citará tal heterogeneidade: “Um exame aprofundado das categorias que, ao final de uma primeira análise, revelaram-se as mais heterogêneas, tanto ao nível das características objetivas quanto ao nível das escolhas, em
burguesia e ao proletariado, pois “[...] várias características dos membros da pequena burguesia podem ser deduzidas do fato de que eles ocupam uma posição intermediária entre duas posições extremas, sem serem objetivamente identificáveis e subjetivamente identificados com uma ou com outra” (BOURDIEU, 2007a, p. 19).
O autor associará a indeterminação identitária ao aumento da margem de liberdade, já que uma maior abertura do universo dos possíveis implicará necessidade de deliberação maior do que na situação vivida pelas classes populares, por exemplo, cujo “realismo” e o correlato “efeito de clausura” são garantidos pela convivência num meio social rigidamente homogêneo.
E a diferença entre as práticas e as preferências culturais das diferentes classes deve-se, em uma parte importante, ao fato de que as oportunidades de encontrar, em sua vizinhança, o “mercado” em que as experiências culturais e o discursos a seu respeito podem encontrar valor, variam, praticamente, como as oportunidades de viver tais experiências e, sem dúvida, contribuem em parte para determiná-las: o reduzido interesse manifestado pelos membros das classes populares em relação às obras de cultura legítima a que eles poderiam ter acesso – sobretudo, pela televisão – não é o efeito somente de uma falta de competência e de familiaridade: do mesmo modo que os temas considerados vulgares, por exemplo, a televisão, são banidos da conversação burguesa (F.C., VI), os assuntos por excelência da conversação burguesa, exposições, teatro, concertos ou, até mesmo, cinema, são excluídos, de fato e de direito, da conversação popular na qual apenas poderiam exprimir a pretensão de se distinguir. A chamada à ordem mais implacável, sem dúvida suficiente para explicar o extraordinário realismo das classes populares, é constituída, sem dúvida, pelo efeito de clausura exercido pela homogeneidade do universo social diretamente experimentado: não existe outra linguagem possível, nem outro estilo de vida, nem outras relações de parentesco. O universo dos possíveis está fechado (BOURDIEU, 2007a, p. 357, grifo nosso).
Na direção oposta do princípio de conformidade, o habitus da classe média é marcado pela pretensão cultural. Estando associado a um lugar de passagem de indivíduos/grupos com trajetórias ascendentes e descendentes e, por isso, do “encontro” de indivíduos de origem sociais diferentes, o habitus da pequena burguesia, e especialmente de suas novas frações, não revela a sistematicidade e a unidade de estilo características dos habitus no geral, apresentando incongruências e variações das suas disposições.
As oposições surgidas desta dualidade das origens, no interior da nova pequena burguesia, exprimem-se muito claramente na relação entre as preferências e as recusas éticas: diferentemente da pequena burguesia em declínio que, conforme já vimos, rejeita em bloco os valores diretamente opostos aos seus, ou seja, as próprias virtudes cobiçadas pela nova pequena
particular os artesãos e os pequenos comerciantes, os quadros médios, os quadros superiores e os professores secundários e universitários [...]”.
burguesia (divertido, requintado, distinto, artista, cheio de fantasia), os membros dos serviços médico-sociais fazem escolhas contraditórias que, segundo parece, exprimem os antagonismos (variáveis segundo as origens) entre os valores do ambiente de partida e os valores do ambiente de chegada, de modo que alguns rejeitam as qualidades que a maior parte dos outros colocam em primeiro lugar (requintado, distinto, divertido), ao passo que outros recusam as qualidades mais cobiçadas pela pequena burguesia estabelecida (ponderado, clássico). Essas incertezas, até mesmo, incoerências, encontram-se, sem dúvida, em cada um dos membros dessas novas profissões que devem inventar uma nova arte de viver, principalmente, em matéria de vida doméstica, e redefinir suas referências sociais (BOURDIEU, 2007a, p.338).
É também na pequena burguesia em que a convivência com pessoas de outras classes sociais é mais comum, tanto no estabelecimento de ligações afetivas (casamento entre cônjuges de origens/trajetórias sociais significativamente heterogêneas) quanto nas relações de trabalho (enfermeira/médico, secretária/advogado), que possibilitam o acesso a outro mundo, deflagrando “’elevadas ambições culturais” desses grupos de “transição e de mediação, identificadas em intenção e em aspiração com as classes dominantes a quem prestam serviço e das quais se encontram bastante próximas [...]” (BOURDIEU, 2007a, p. 340).
Dentre outros fatores, a maior diversidade dos referentes sociais pode estar na origem do ecletismo das escolhas culturais, éticas, estéticas das classes médias. Tal ecletismo, relacionado à pretensão cultural característica dessa classe, pode ser confrontado com a univocidade do consumo cultural das classes populares e sua renúncia antecipada a quaisquer lucros simbólicos e à conformação à dimensão pragmática do consumo.
Sem fundamento consistente para as suas classificações e divididos entre seus gostos de tendência e seus gostos de vontade, os pequeno-burgueses estão condenados a proceder a escolhas desconexas (transformadas pela nova pequena burguesia, preocupada em reabilitar o folclore e as músicas exóticas, em um expediente existencial): tanto em suas preferências musicais ou em pintura, quanto em suas escolhas cotidianas (BOURDIEU, 2007a, p 306).
Segundo Bourdieu (2007a), as disposições – aparentemente incongruentes – da pequena burguesia não reproduzem sua posição social, mas a propensão inscrita nessa posição, definida pela leitura da sua trajetória social.
Se os pequeno-burgueses ascendentes podem agir como se tivessem oportunidades superiores ao que elas são – ou, pelo menos, ao que elas seriam, de fato, se eles não acreditassem que o fossem – e assim, aumentá-las realmente, é porque suas disposições tendem a reproduzir não a posição de que elas são produto, apreendida em determinado momento, mas o pendor no ponto considerado da trajetória individual e coletiva. O habitus pequeno-
burguês é o pendor da trajetória social, individual e coletiva, tornado propensão pela qual essa trajetória ascendente tende a prolongar-se e realizar- se: espécie de nisus perseverandi, como dizia Leibniz, em que o trajeto passado se conserva sob a forma de uma tensão para o futuro que o prolonga, ele delimita as ambições “razoáveis” e, por conseguinte, o preço que se deve pagar para realizar essa pretensão realista (BOURDIEU, 2007a, p. 312, grifo nosso).
Sobre as disposições pequeno-burguesas, estaria atuando uma “representação de si” que não se coaduna totalmente à posição ocupada no espaço social, criando certo hiato entre posição e disposição?
Os princípios-guia das disposições pequeno-burguesas – pretensão, ascetismo, boa vontade cultural –, sendo correlatos da não correspondência (relativa) entre posição e disposição, conduziriam a práticas cuja intenção é a correção da defasagem entre representação e posição social?
Bourdieu (2007a) chama a atenção para a importância conferida pelos pequeno- burgueses ao plano simbólico, percebida em virtude do investimento significativo em matéria de consumo cultural e apresentação de si. Tal estratégia estaria assentada na consideração da importância das manifestações simbólicas e das representações para as lutas de classificação social.
Como é testemunhado pela inversão da relação entre as quotas atribuídas à alimentação e ao vestuário, assim como, de modo mais geral, à substância e à aparência, quando se passa da classe operária para a pequena burguesia, as classes médias estão estreitamente vinculadas ao simbólico. Sua preocupação com o parecer – que pode ser vivenciada sob o modo da consciência infeliz, às vezes, disfarçada em arrogância (por meio de expressões, tais como “isto é suficiente para mim”, “ isso me agrada”, em relação às casas de campo pequeno-burguesas) – encontra-se na origem de sua pretensão, disposição permanente para esta espécie de blefe ou usurpação da identidade social que consiste em dar primazia ao parecer em detrimento do ser, em apropriar-se das aparências para obter a realidade, do nominal para conseguir o real, em tentar a modificação das posições nas classificações objetivas ao alterar a representação das posições na classificação ou dos princípios de classificação. O pequeno-burguês é aquele que, condenado a todas as contradições entre uma condição objetivamente dominada e uma participação em intenção e em vontade aos valores dominantes, é obcecado pela aparência a exibir diante dos outros e pelo julgamento destes sobre sua aparência (BOURDIEU, 2007a, p. 236, grifo do autor).
Em que medida a tentativa de controle da representação oferecida não proporciona uma relação de certa exterioridade com as disposições possuídas que passam a ser alvo de estratégias de manipulação?
O amplo reconhecimento dado ao arbitrário cultural dominante resulta na autocrítica e autoconsciência das práticas, discursos e consumo cultural de alguns setores médios.
A observação de si e de suas práticas culturais em relação ao paradigma cultural dominante concorre para certo distanciamento das disposições possuídas mediante reiterada busca de adequação (percebida pelos blefes culturais e erros de alodoxia) e nas simulações de familiaridade sedentas em alcançar lucros simbólicos.
O plano da ascensão gera uma dupla estratégia de distanciamento dos proletários e de identificação à burguesia. Essa identificação com os burgueses, convertidos em modelo do dever-ser, traz a experiência da inadequação de seu próprio ser que reinvidica tornar-se outra coisa e ocupar outro lugar social.
Em consequência disso, tais agentes estariam particularmente inclinados às práticas de auto-observação e de observação da cultura erudita associada a seus concorrentes. As disposições estéticas possuídas e suas escolhas culturais são “examinadas” e comparadas àquelas tidas como mais legítimas.
Isso é denotado em seu esforço em prestar reverência e reconhecimento da cultura erudita, em consumir seus produtos certificados, em estar por dentro, mas ao menos tempo em esforço dissimulador de suas disposições de origem que não coincidem com as pretendidas.