• Aucun résultat trouvé

Quando Ariès (1981) aborda o sentimento de infância, associa a emergência deste sentimento ao sentimento de família. Tanto Ariès (1981), quanto Foucault (1977; 2001; entre outros) nos ajudam a compreender que a família nuclear é constituída a partir de uma centralidade dada à criança. Na verdade, o que ocorre de novidade neste período é que a família passa a ser formada a partir de uma nova relação com o sexo. Foucault (1977) irá dizer que a família que passa a se constituir como modelo no século XVIII é aquela que se forma a partir de outros sentimentos, diferentes dos exclusivamente contratuais do dispositivo da aliança. Esse novo sentimento é o amor e o dispositivo da sexualidade atua nos casais como forma de gerenciar esse amor31.

O aspecto que nos interessa nessa discussão é o fato de que, ao se colocar a centralidade nas crianças e por consequência, acionar a família nuclear para cuidar, proteger e zelar pela vida destas crianças, produz-se ainda outro sentimento que diz respeito ao do amor, no caso, das mães pelos seus filhos, ou como definem alguns autores, do amor materno (BADINTER, 1985).

O século XVIII é, no caso, responsável pela produção de outro imperativo ligado ao sentimento de infância, que é o de atribuir às mulheres um sentimento incondicional e instintivo pelos seus filhos. Badinter (1985) irá

30 Ver por exemplo Louro (2007a e 2007b)

98

problematizar o sentimento de amor materno a partir da análise de diferentes práticas de abandono das crianças por suas mães durante toda a Idade Média e início da modernidade. Apesar de inúmeras críticas que são proferidas ao seu trabalho, Badinter (1985) traz alguns elementos importantes a respeito de toda uma explicação social para estes abandonos que tentam, por sua vez, preservar o sentimento de amor materno como algo inerente e natural da mulher. Sugere-se nesse caso que, o abandono é feito, justamente, em nome desse amor.

No século XIII, por exemplo, o índice de crianças que eram deixadas com amas de leite era altíssimo e mais ainda os casos de mortalidade das crianças nessas condições. Por que então as mães abandonavam seus filhos, sabendo de toda essa condição insalubre de vida? Segundo Badinter (1985) a explicação que era dada forjava a ideia de que a vida no campo, com as amas de leite, era mais saudável do que a vida nos aglomerados das cidades. Como estas, outras explicações surgem, sempre atrelando os atos de abandono aos atos em nome desse amor instintivo. Assim, diz Badinter (1985), é que ―o amor materno está salvo‖.

A discussão feita por Badinter (1985) busca compreender quais são as condições de emergência desse amor e porque em determinado momento histórico ele se torna imprescindível, ou para usar a expressão de Foucault (1977), estratégico. O que se observa é que o percurso histórico no qual se pode localizar as representações sociais em torno das mulheres é muito próximo do percurso histórico das representações em torno das crianças. A explicação dada por Badinter (1985) é que tanto as mulheres, quanto as crianças possuem representações sociais marginais de modo que, quando a criança emerge colocando para a família a tarefa de zelar por sua vida, a mulher, tão ―idiota‖ quanto à criança é acionada para cumprir este ―papel‖ mais do que os homens.

No debate empreendido pela autora há pelo menos três tipos de discursos que são preferidos em diferentes momentos históricos e que justificam a condição marginal dada à mulher, são eles: (1) os provenientes do legado Aristotélico; (2) os provenientes da teologia cristã; e, por fim, (3) os provenientes do absolutismo político.

99

Na concepção de Aristóteles existe um princípio de desigualdade ―natural‖ entre os indivíduos. Isto é, a natureza criou indivíduos com capacidades naturais para mandar e, indivíduos com capacidades naturais para obedecer. Os homens são os indivíduos dotados da capacidade de mandar e as mulheres, no caso, possuem uma única ―virtude moral‖ que é a de ―vencer a dificuldade de obedecer‖ e um único mérito, que é ser dotada de um ―bom ventre‖ (BADINTER, 1985, p. 32).

Os discursos teológicos são provenientes de dois grandes textos: o Gênesis e a Epístola aos Efésios. O Gênesis se apresenta por meio de 3 atos: O primeiro deles apresenta o drama da criação do homem e difunde-se a ideia de que o homem, ao ser criado por Deus, dá nome a todas as coisas, mas, se vê infeliz por não ter alguém nesse mundo que lhe ―servisse‖, por isso, pede a Deus uma serviçal. Da espinha dorsal do homem, Deus cria a mulher (Eva, a serviçal); O segundo ato apresenta Eva como a pecadora, a que incita a curiosidade, a audácia e a vontade de poder. Eva é quem leva o homem a se perder no caminho do pecado; No terceiro ato, expõe a maldição pela qual homens e mulheres terão de viver devido ao pecado incitado por Eva. As maldições são, no caso, multiplicar essa dor do pecado, com dor ao parir e a mais contundente para a condição da mulher: ―E a tua paixão será o teu marido, e ele te dominará‖ (BADINTER, 1985, p. 34). A paixão, segundo Badinter (1985), implica passividade, submissão e alienação diante da dominação masculina.

O texto produzido pelo apóstolo Paulo, a Epístola aos efésios, é o segundo de maior repercussão no que diz respeito a essa representação da mulher. O que o apóstolo diz neste texto é que de fato existe uma igualdade entre os indivíduos, mas esta está apenas no interior de grupos de pessoas com as mesmas características. Nesse caso, há igualdade entre um grupo de homens e, entre um grupo de mulheres, mas não há igualdade entre os grupos de mulheres e os grupos de homens.

O que Badinter (1985) registra e que parece interessante é que, até o final do século XVII, a subordinação da mulher diante do homem ocorria porque os textos teológicos ressaltavam a sua imoralidade devido ao pecado original da carne. No século XVIII, apoiados nos discursos de Aristóteles, os discursos teológicos agregam esta submissão a outro fator associado à natureza da

100

mulher: a sua invalidez. Essa discussão permite compreender o seguinte: que as representações da mulher vão, da antiguidade, à idade média e modernidade, de pecadora à inválida. De imoral à frágil e incapaz. Um movimento, aliás, muito próximo ao que Ariès (1981) registra sobre a infância, que de despudorada se torna inocente. Estas representações justificam socialmente toda uma ação corretiva e educativa para as crianças e um comportamento de subserviência das mulheres em relação aos homens.

O discurso teológico foi responsável também por colocar a mulher diante de uma representação de incapacidade. Essa representação é a que justificou a superioridade e a autoridade da figura paterna na configuração e no governo da família. Em relação ao absolutismo político, Badinter (1985, p. 41) irá dizer que: ―(...) o pai é para seus filhos o que o rei é para seus súditos, o que Deus é para os homens, ou seja, o que o pastor é para seu rebanho‖. A questão é que o Deus, o rei, o pai ou o pastor só se dirigem as suas criaturas por meio de intermediários ―vigilantes‖, estes por sua vez são a igreja, a polícia e a mulher-mãe.

A mulher é, no caso, a pessoa que será mais enfaticamente convocada para vigiar as crianças. Mas o século XVIII investe especificamente na construção de um amor da mulher para com seus filhos, para que esta vigia seja feita em nome desse amor.

O fato de esse amor ter sido construído por um conjunto heterogêneo de práticas, discursivas e não discursivas, faz com que alguns autores compreendam que a maternidade opera como um dispositivo do poder, assim como a sexualidade e a infância. Marcello (2009, p. 231), por exemplo, discute as condições de emergência do sentimento de amor materno e diz que a maternidade é um dispositivo que emerge a partir das seguintes condições: da formação e consolidação dos estados nacionais; da modificação de atitudes frente à criança; da diferenciação dos sexos masculino e feminino32; da naturalização da amamentação e da condição feminina enquanto figura tridimensional (mãe, mulher e esposa) 33. A autora afirma que:

32

Portanto, a partir de práticas ―divisórias‖ do corpo.

101

Todos estes fatores, engendrados, tornaram possível a existência de um dispositivo que opera para a produção de práticas maternas e sujeitos-mães até então impensáveis ou improváveis na cultura ocidental (MARCELLO, 2009, p. 231).

Destas discussões extraímos pelo menos dois elementos para seguir pensando. O primeiro diz respeito ao desafio empreendido na presente tese, que é o de pensar a infância a partir do conceito de dispositivo e que Marcello (2009) e outros autores discutidos no segundo capítulo do presente trabalho sugerem ou afirmam o fato de que um dispositivo nunca está sozinho e opera sempre de maneira articulada a outros tantos dispositivos, como já pudemos discutir em outros momentos.

O segundo elemento corresponde ao fato de que a construção social e os discursos que subalternizaram a mulher e a criança ao longo de séculos foram responsáveis por produzirem inúmeras práticas que são divisórias, imprimindo lugares sociais ou ―papéis‖ para as crianças, para as mulheres e para os homens. Instalaram, digamos assim, os indivíduos de maneira divisória em uma rede complexa de poderes e saberes. Entretanto, essa mesma trama impulsionou diferentes movimentos que vieram problematizar essas práticas, exigindo novos lugares sociais, novas representações e, especialmente a desconstrução destes discursos. Localizam nestes movimentos o das mulheres, que em diferentes períodos históricos vieram por meio do conceito de gênero, imprimir pensamentos de luta e de resistência e que, sobretudo, encontraram em Foucault elementos para esta empreitada. A seguir traremos alguns elementos deste debate.

4.2. A sexualidade para Foucault e o impacto sobre a noção de