A presente pesquisa se caracteriza como qualitativa, entendida como aquela que se ocupa de estudos voltados para os aspectos simbólicos e subjetivos, dedicada à análise dos significados que os sujeitos dão às suas ações dentro de um contexto específico, bem como por meio das relações que as mesmas estabelecem (MINAYO; SANCHES, 1993; CHIZZOTTI, 2000; VICTORA et.al., 2000). É uma abordagem feita para se ter uma visão êmica, ou seja, relativa ao grupo escolhido conforme os objetivos que buscam construir um conhecimento aprofundado sobre um pequeno grupo em que o processo de coleta supõe uma relação entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados (VICTORA et.al., 2000). Tal escolha metodológica se justifica quando meu interesse se volta para os significados construídos sobre a sexualidade dos homens transexuais a partir da construção das histórias das suas práticas (sexuais) enquanto sujeitos sócio-históricos que emergem como efeito de relações de poder (FOUCAULT, 1988). Assim, não se trata de descobrir dados, mas de produzir perguntas e reflexões de modo que haja o reconhecimento da aproximação entre sujeito e objeto envolvendo sempre significados, intenções, valores motivos e atitudes, aspectos dificilmente quantificáveis (MINAYO, 2009). Desta forma, o registro detalhado de observações, informações e entrevistas servem para a interpretação dos eventos (VICTORA et.al., 2000), tal como os escritos etnográficos, que são falas das falas de outras pessoas. O que precisamos entender sobre determinado acontecimento aparece como pano de fundo dos aspectos observados isoladamente – rituais, gestos, ideia, costume, processo de decifrar códigos (GEERTZ, 1989). Por isso, foi seguida uma proposta teórica que desloca a noção de um sujeito pré-discursivo para outro que
emerge das condições sócio históricas produzido como efeito de linguagem, ou seja, um sujeito contingencial (FOUCAULT, 2008; HALL, 2006).
Sabemos que para Foucault existem duas noções de sujeito: um sujeito natural e anterior a realidade social; e o sujeito tomado como consequência – causa/efeito – ou seja, um sujeito facilmente manipulável. O autor trabalhou primeiro com os saberes (arqueologia), com o saber e o poder (genealogia) e depois com os sujeitos (ética e cuidado de si, uma estética da existência), de modo que cabe pensar se existe uma noção básica de sujeito para ele. Havendo, seria um sujeito descentrado de origem ou substância natural, não preexistente ao mundo social e tampouco causa do meio social. No entanto, o objetivo de Foucault foi de compreender os diferentes modos de como os seres humanos se tornam sujeitos, o que acontece por meio dos modos de subjetivação, isto é, maneiras em que os seres humanos se tornam sujeitos localizados em um contexto histórico, dentro de jogos de verdade e saber/poder, e relações complexas não causais (VEIGA-NETO, 2011).
Na interpretação de Araújo (2008), o objeto de Foucault foi o discurso e como ele participa na formação dos sujeitos, ou seja, questões que sustentam a questão central de sua obra: como nos tornamos o que somos. Esta lógica discursiva não trata de interioridade nem de essência, mas de um conjunto de elementos que conversam entre si produzindo modos singulares de existência na qual a subjetividade é entendida como causa e efeito de relações de poder.
Para Lima (2015), todavia, existem duas significações de sujeitos em Foucault. Uma que se inscreve em uma ideia de assujeitamento ao outro, pautada por relações de controle e dependência, e outra inscrita na ideia de identidade, caracterizada por uma noção de si mesmo constituída pelo autoconhecimento. Há em ambos os casos poder de subjugação que objetifica. Há um processo que deixa a ideia de sujeito para a noção de processos de subjetivação, o que leva Foucault olhar para a história das práticas.
Quem produz vídeos para o YT produz para este tipo de mídia interferindo profundamente na forma como o arquivo será desenvolvido. Podemos pensar no objetivo que o sujeito possui e como essa mídia produz determinados tipos de narrativas. É possível que se encontre modos de subjetividades nessa mídia e no canal. Há neste substrato a possibilidade de produção de conteúdo com forte componente democrático, uma vez que qualquer pessoa pode tornar-se youtuber e produzir conteúdo do modo que lhe convier. Em suma, o YT acaba se caracterizando como um espaço de articulação muito profícuo para traduzir diferentes formas de ser e popularizar determinadas discussões.
3.2 (Contra) Procedimentos de análise: arquivamento e arquivização
Buscarei refletir sobre o material a partir das contribuições de Foucault no que se refere aos processos discursivos e tomando como referência as regularidades discursivas, as descontinuidades e rupturas para que possamos compreender como elas emergem. Entende-se que o discurso não se dá aleatoriamente, mas sim como efeito de uma regulação em que é ao mesmo tempo barrado, estimulado, silenciado e organizado. A produção discursiva nos auxilia na compreensão de que o sujeito se constitui como efeito dos jogos discursivos (FOUCAULT, 2012).
Fisher (2012) complementa que contribuições foucaultianas para o processo de construção de conhecimento funcionam como atitudes metodológicas que implicam em compreender que há presença de lutas discursivas que se relacionam com a linguagem e permitem ir para além das coisas dadas, uma vez que fatos e enunciados não são óbvios e dizem respeito às palavras e coisas. Lembrando que as práticas podem ser discursivas e não discursivas, e dizem respeito às relações de poder que fazem aparecer a multiplicidade complexa dos fatos e das coisas revelando o regime de verdade localizado espaço temporalmente (FISHER, 2012).
A autora acrescenta ainda que a formação discursiva é um “feixe complexo de relações que faz com que algumas coisas possam ser ditas (e tomadas como verdadeiras) num certo momento e num lugar” (FISHER, 2012, p. 101). Assim, o desafio seria descrever o que é dito, quem diz, em que circunstância, frases e enunciados e realizar exercício de dúvida permanente, pois determinadas nomeações são tão reificadas que passam a ser tomadas como naturalizadas.
Observa-se quanto ao contexto de enunciação sua regularidade, suas transformações históricas e econômicas, aproximações e distanciamentos entre discursos e formações de silêncios (FOUCAULT, 2012). Moraes (2010) fala que a unidade em Foucault não se trata de coerência visível e horizontal entre os objetos, mas de um sistema mais amplo que a torna possível, de modo que a impressão de uma unidade discursiva já é parte dos efeitos dos jogos de poder em que os enunciados são elementos internos aos discursos que têm sentidos comuns que formam, nessa convergência, os discursos. O lugar da enunciação define o sentido que o discurso irá tomar.
Também não se buscará identificar o que está por trás dos enunciados, nem a intenção e nem os aspectos inconscientes, mas trabalhar na aparição escrita entendida como o conjunto de enunciados que possuem sentidos convergentes. Tampouco se trata de um discurso narrativo
de estrutura frasal com proposições, sujeitos e predicados uma vez que, se colocado em contextos diferentes, assume sentidos diferentes. Procurou-se, sim, entender como o contexto e as contingências históricas produzem determinados conteúdos e não outros, e quais regras que determinam “onde os objetos se perfilam e se transformam” (CASTRO, 2016, p. 177).
Deste modo, a pesquisa passa por descrever os enunciados que aparecem como objetos, conceitos e estratégias. As frases produzidas são as interpretações dos enunciados, mas não se confundem com eles. O ato ilocutório se produz "pelo próprio fato de ter sido enunciado” (FOUCAULT, 2009, p. 94). Os critérios utilizados para a individualização de cada um são os mesmos, entretanto é necessário mais que um enunciado para a realização de um ato de fala ou ato ilocutório (juramento, prece, contrato, promessa). Existem fórmulas distintas ou frases separadas. Os atos se constituem pela série de enunciados ou soma de enunciados por necessária justaposição. O autor alerta ainda que “língua e enunciado não estão no mesmo nível de existência” (FOUCAULT, 2009, p. 96), não se confundem com frases, proposições ou fala, no entanto são indispensáveis para que estas últimas existam em termo de aceitabilidade e interpretabilidade.
Não é necessário que se persiga uma unidade curta ou longa de enunciado, ou mesmo forte, deliberada, mas ela deve ser tomada como outra dentro de um nexo lógico entre os aspectos gramatical e locutório. Mais que um elemento ou recorte demarcável, o ato ilocutório é uma ‘função’ exercida de forma vertical relacionada a diversas unidades que permite dizer se elas (unidades) estão ali (FOUCAULT, 2009).
Assim sendo, nos ocuparemos de compreender as relações discursivas entre os três campos heterogêneos descritos abaixo:
1. Quais são as superfícies de emergência, ou seja, onde o discurso sobre a experiência erótica dos homens trans emerge (blogs, fotoblogs e videologs etc.) (FRAGOSO, 2011);
2. Quais instâncias buscam delimitar essas experiências, ou seja, que procuram designar, nomear ou instaurar discursos sobre as práticas sexuais dos homens trans (sexologia, psiquiatria, etc.);
3. Que grades de especificação são organizadas por tais discursos, ou seja, os sistemas de oposição, separação e reorganização que se constroem em relação às práticas sexuais dos homens trans (sexo/gênero; atividade/passividade; cisgeneridade/transgeneridade; amor/sexo; orgasmo/ejaculação/gozo).