Nas décadas de 1940 e 1950 o governo populista de Vargas, com o intuito de atender a demanda de trabalhadores rurais, assim como atender também parte da população urbana excedente das grandes cidades e retirantes da região do semi-árido nordestino, cria “uma política de colonização dirigida intitulada “Marcha para o Oeste” (Ponciano, 2007, p. 93). Essa política tinha como meta central, a ocupação de várias regiões brasileiras, fundamentalmente o Centro- Oeste e Amazônia.
A política do Estado Novo traz uma inovação, dirigida para um projeto de nação, de um Brasil para os brasileiros.
Sobre a questão territorial no Brasil, em meados do século XX, o governo já acenava para a Marcha para o Oeste. Neste contexto, Ponciano (2007, p. 95) acrescenta que:
No campo, a presença da política de Estado Novo se faz sentir, no final da década de 1939, através da “Marcha para o Oeste”. Esse slogan, criado pelo Governo Vargas, no final dos anos 30, para divulgar seu programa de colonização dirigida, visava ocupar os espaços vazios do interior do Brasil e a povoar as regiões brasileiras com pouca densidade populacional.
Surgem, nesse cenário, a questão de integração e desenvolvimento econômico e social dos vazios da região Centro-Oeste e a região Amazônica, procurando de forma definitiva a incorporação de vasto território brasileiro a uma nova ordem de geopolítica nacional.
Neste sentido, Linharo (1986) argumenta que esta estratégia do governo, além de caso de segurança nacional, também carregava em seu
bojo o estímulo à transformação profunda no sistema fundiário nacional, segundo ele:
Delineiam-se assim, estratégia de colonização: armar um cerco ao latifúndio, de fôlego longo. Apoiar a pequena propriedade de modo a que eles, lentamente, corroessem a velha ordem fundiária, e, aos poucos, instaurasse a nova realidade agrícola que o desenvolvimento industrial do país exigiria. Ao invés de esperar o lento avanço das transformações, era forçoso estimular a mudança através de dispositivos especialmente orientados para isto (LINHARO, 1986, p. 21 apud PONCIANO, 2007, p. 95).
Uma questão que preocupava os governantes da época era o inchaço das grandes cidades, seu crescimento desordenado por parte da população desocupada. Isso acarretaria um crescimento das cidades sem infra-estrutura adequada, o que as levaria a um colapso e, conseqüentemente, ao processo de bairros deteriorados.
Dessa forma, o governo incentiva a imigração para regiões interioranas do Brasil, oferecendo terras a baixo custo e subsidiando a compra de sementes, ferramentas e material para moradias.
Para Ponciano (2007, p. 96), uma das estratégias do Governo Vargas foi assegurar esse plano de ocupação das regiões brasileira e o de criar estrutura para a locomoção dessa população migratória pelo interior do Brasil, resultando na:
[...] construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil, especificamente a do ramal de Ponta Porã, iniciada em 1938 com a Estação Ferroviária de Indubrasil (situada próximo a Campo Grande) e concluída em 1953, na cidade de Ponta Porã, fronteira com o Paraguai, deixa indícios de que faz parte desta política de colonização dirigida, além de vincular-se também a questão da nacionalização das fronteiras, posto que proporcionava um maior controle por parte do Governo Federal desta região. Desde o inicio da construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil (NOB), que tem seu começo na primeira década do século XX, no Estado de São Paulo, destaca-se o povoamento que essa construção trouxe para a região sul do Mato Grosso.
Destaca-se aqui a implantação da estrada de ferro Noroeste do Brasil, responsável pelo desenvolvimento da parte sul do Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul). “Isso se deu principalmente do ponto de vista das correntes migratórias, trabalhando nesse sentido como corredor de entrada na região e também como um seguimento de desenvolvimento dos setores comerciais”. (QUEIROZ, 1997, p. 153 apud PONCIANO, 2007, p. 96).
Economicamente, o processo de colonização criado por Vargas era viável, porém ficava pendente a questão da ocupação de regiões economicamente pobres e socialmente insalubres, como os Estados de Mato Grosso, Goiás e Amazonas. Nesse aspecto, Ponciano (2007, p. 98) apresenta a estratégia política de Vargas para levar seu projeto adiante, urge a necessidade de conduzir a ocupação territorial através do símbolo da brasilidade, ou seja, de patriotismo e nacionalismo. No seu entendimento, descreve que:
Nessa perspectiva, o governo do Estado Novo procurou mostrar que a efetiva construção do país só se faria por meio de união entre governo e sociedade, do funcionamento perfeito entre o campo político e o econômico, o que facilitaria a implantação da política de colonização estadonovista que visava ao desbravamento de áreas vazias por migrantes, sobretudo por aqueles de regiões onde a grande concentração de mão-de- obra poderia manifestar tensões sociais e braços desocupados em demasias.
Mais uma vez a política do Estado Novo mostra esta disposição em construir um projeto de nação, onde a meta principal a ser alcançada é de um “Brasil para os brasileiros”, incentivando sobremaneira a ocupação das regiões fronteiriças e grandes vazios do território nacional. Sobre essa premissa, Linharo diz o seguinte: “a criação da brasilidade repousava, pois, numa nova proposta que combina colonização e industrialização” (LINHARO, 1982, p. 23 apud PONCIANO 2007, p. 98).
Com a crise do café, o Brasil passa por uma severa crise de trabalho, há um aumento de mão-de-obra da população desocupada, era preciso agir rápido. Diante dessa situação o governo cria em 1930, o Departamento Nacional de Povoamento, diretamente subordinado ao Ministério do Trabalho. Ainda dando andamento a sua política de colonização, o governo “em 1938, cria-se a Divisão de Terra e
Colonização (VASCONCELOS (1986) apud PONCIANO, (2007, p. 98).”
Dessa maneira, esse órgão subordinado ao Ministério da Agricultura tem a árdua tarefa de implantar em algumas regiões do Brasil as Colônias Agrícolas Nacionais (CANs), tendo como diploma legal o Decreto-Lei 3.059, sancionado em fevereiro de 1941. Este decreto trazia em seu conteúdo a proposta de fixar o homem na terra, produzir bens agrícolas para o mercado e para sua existência (PONCIANO, 2007).
Além do objetivo de fixar o trabalhador em suas terras, as CANs planejadas tinham outra função importante para a nação – a de prosperarem e tornarem-se centros urbanos regionais. A Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG) foi a primeira de uma série de oito Colônias Agrícolas criadas e geridas pelo governo federal, a partir de 1941 (ANDRADE, 2006, p. 22). Isto, de certa forma ocorreu em algumas delas, haja vista, das oito colônias nacionais, somente duas prosperaram, foi a de Dourados no Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, a de Goiás, hoje Ceres no Estado de Goiás.
Registra-se que os colonos antes de tomarem posse da terra, eram submetidos às regras estabelecidas, porém eles eram subsidiados pelo governo para a compra de materiais e ferramentas. Segundo Ponciano, essas regras ditavam que:
Somente poderiam receber os lotes de terras os cidadãos brasileiros acima de 18 anos ‘que não forem proprietários rurais e reconhecidamente pobres Estrangeiros, só os de conhecimento agrícolas qualificados. Ficava vedada a concessão de lotes a funcionários públicos federais, estaduais e municipais. Os lotes, de 20 a 50 hectares, mais as casas e outras benfeitorias seriam concedidos gratuitamente. Além disso, oferecia-se ao colono: trabalho a salário ou empreitada em obras ou serviços da colônia, pelo menos durante o primeiro ano; assistência médica e farmacêutica e serviços de enfermagem, até a emancipação da colônia; [...] (LENHARO, 1986, p. 52 apud PONCIANO, 2007, p. 98,99).
No entanto, foi registrado por Ponciano que o plano de colonização da Nova República teve seu início em 1941. Entretanto, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA
esclarece que sua implantação deu-se somente quatro anos após essa oficialização, conforme relatório enunciando que:
As atividades fundiárias na região da Grande Dourados tiveram origem com a criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados, criada pelo Decreto-Lei nº 5.941, de 28 de outubro de 1.943, em terras da União, no então Território Federal de Ponta Porã, com a reserva de uma única área a ser demarcada não inferior a 300.000 hectares, decreto este do então presidente Getúlio Vargas. Segundo GRESSLER, SWENSSOR, (1988, p. 81 apud PONCIANO 2007, p. 99).
O sul do Mato Grosso, na época, era uma região isolada do resto do país, um sertão jogado à própria sorte e dominado pelo banditismo, que aterrorizava aqueles que aventuravam fixarem-se em terras sulmatogrossenses. Por essa e outras razões, o governo Vargas tem insucesso na implantação da CAND, havendo uma grande dificuldade por parte dos funcionários do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC) no levantamento topográfico e, conseqüentemente, na demarcação das parcelas. Além disso, havia o enfrentamento de várias doenças tropicais. Diante dessas dificuldades regionais, o projeto foi legado a sua realização ao governo de Eurico Gaspar Dutra, em 1948 (PONCIANO, 2007).