• Aucun résultat trouvé

Terms of reference for the climate research for development Oversight

Cecília: é... que é uma coisa que eu sempre gostei. Se você me perguntar, eu gosto

muito de história [risos].

Cecília admite que sua longa e profunda formação no interior do cânone musical europeu lhe fazia assumir uma atitude, em boa medida etnocêntrica e solipsística, ao tomar a música desta tradição como a música. O fato, inclusive, de que ela se referisse às práticas folclóricas como um traço cultural distinto (e talvez residual, ou hierarquicamente inferior) em relação às práticas musicais eruditas, não só reduzia as manifestações populares ao “folclore” como reificava as práticas eruditas como algo à parte (e acima) da própria cultura. Ou seja, a tradição musical “artística” ocidental era possivelmente compreendida como um fenômeno autônomo, que transcendia quaisquer contingenciamentos sociais, históricos e culturais. Algo que se encontra evidenciado na seguinte afirmação: “ou você toca instrumento dentro do cânone europeu, ou você pertence

à cultura”; mas também quando articula uma definição de “tradição oral” – como aquilo que “emana da cultura” – como se o cânone não pertencesse a algum mundo de cultura, como se fosse, portanto, supra-cultural. O que, no entanto, parece transparecer, ao longo de nossa conversa, é que esta noção reificada de cultura permanece em seu discurso.

De fato, a longa formação no cânone musical europeu da professora Cecília, a despeito de sua formação também em etnomusicologia, parece lhe ter talhado uma compreensão mais conservadora – e, de certo modo, reacionária – de cultura. A etnomusicóloga Cecília não parece, por exemplo, questionar os pressupostos que fundamentam as divisões entre popular e erudito, entre tradição oral e escrita, entre a própria etnomusicologia e a musicologia histórica. Para ela:

Cecília: [...] uma lida com a questão da música de tradição escrita, a outra lida, a

princípio, com música de tradição oral – que é uma abordagem diferente, você pensa mais em termos do agora. Para a etnomusicologia, é difícil você tentar estabelecer uma história da música daquele grupo, porque ela já passou, não é música viva, ela já passou. Isso gera uma certa dificuldade, você não tem um material escrito, as pessoas que faziam música já se foram, via de regra. Então, isso é uma coisa que eu acho que a musicologia, ela pode lidar; e a etnomusicologia, ela fica... bem, se a gente levar em conta, se levar em consideração de Guido Adler pra cá, que você tem material, que você pode fazer elementos comparativos, musicologicamente comparativos [...] Quer dizer, em termos da história, ela [a etnomusicologia] sempre fica mais desprivilegiada, do que aquele que tem o seu material já. Queira ou não queira, alguém escreveu, alguém disse, você tem um documento.

A etnomusicologia, por tratar (ou dever tratar) das tradições orais, deve deixar para a musicologia os objetos de estudo passíveis de serem considerados, a partir de uma perspectiva positivista, como portadores de evidências “factuais” e, portanto, “históricas” – que é uma maneira de tratar tanto os campos da etnomusicologia, quanto da musicologia e da própria história de maneira bastante rígida. Além do que, depreende-se também daí uma compreensão que, ao mesmo tempo que limita e condiciona a história, enquanto um campo de saber eminentemente interpretativo, à existência de fontes documentais escritas, retira da etnomusicologia a possibilidade de dialogar com a história – principalmente quando

92 levamos em consideração as contribuições já nem tão recentes da história cultural, da história oral e das mentalidades.

A preocupação que tenho aqui refere-se às limitações que tal concepção positivista de musicologia pode impor à música enquanto área de saber, com implicações evidentes para a educação e formação musical, dentre elas a valorização da partitura enquanto fonte documental privilegiada para a interpretação musicológica e, consequentemente, a reificação da noção de que a cultura ocidental é ou deve ser mantida como um referente estável para a formação científico-acadêmica em música. Ora, ao assumir a partitura (oriunda desta tradição cultural) como fonte privilegiada dos estudos musicológicos, evidencia-se uma relação ideal entre as práticas que devem constituir os objetos dos estudos musicológicos e a própria tradição musical e cultural ocidental. Em outros termos, estas são limitações que se referem tanto aos repertórios, tidos como mais apropriados para a investigação musical, mas também aos assuntos que devem ser considerados, a partir e dentro de certos limites (a existência de fontes documentais, por exemplo) que definiriam este campo de saber.

De fato, a professora Cecília parece desconsiderar não apenas as possibilidades de uma musicologia atenta para os múltiplos contextos culturais que envolvem “produção, práticas interpretativas, recepção e todas as outras atividades pelas quais a música é construída como uma prática cultural significativa” (Cook 2006, 8), mas os próprios desdobramentos teóricos que se produziram neste campo de saber desde as últimas décadas do século passado – dentre os quais, poderíamos citar resumidamente: o deslocamento da ênfase da pesquisa das origens para os usos musicais; o apagamento das fronteiras entre música “artística” e a cultura popular; e o decorrente questionamento das hierarquias estéticas que tanto confundiam-se com juízos de valor e que caracterizavam a “antiga musicologia” (Cook 2006).

Seguindo Cook (2006), numa perspectiva crítica de ruptura com os pressupostos conservadores em musicologia, a tradição musical “artística” ocidental deixa de ser compreendida como algo que transcende o social – tal como se encontra em Cecília, “ou você toca instrumento dentro do cânone europeu, ou você pertence à cultura”. Ao contrário, refuta-se a possibilidade mesma de tal autonomia; e toda e qualquer prática musical – inclusive a de tradição artística ocidental – passa a ser compreendida também e primordialmente em função dos diversos contextos sociais, históricos e culturais em que se inscreve.

No entanto, ainda que atento aos riscos de ceder à tentação simplificatória que enxergaria na musicologia histórica tradicional uma tendência marcadamente positivista, cultivadora da figura do “gênio” criador, individual e autônomo, reificadora na noção

dead-white-male tão firmemente atada à tradição musical “artística” ocidental (se é que é possível tratar qualquer campo de saber com um enorme guarda-chuva genérico sob o qual se abrigariam apenas as mesmas tendências e pressupostos teóricos e epistemológicos); e, concomitantemente, à tendência similar em se enxergar a etnomusicologia como a única detentora de um discurso relativista e de crítica a tais etnocentrismos – o que para Cook (2006) resultaria numa dupla injustiça, tanto por desconsiderar a própria revisão crítica, feita por musicólogos eminentes, do cariz positivista que domina(va) este campo de saber, quanto para a própria trajetória, de certo modo errática, da etnomusicologia –, o fato é que o discurso da professora Cecília mais reforça o estereótipo positivista da musicologia histórica do que reflete outras nuances e possibilidades heurísticas deste campo de estudo.

A este respeito, e a despeito de que tanto a musicologia histórica quanto a etnomusicologia tenham se modificado em seus percursos metodológicos, tendo ambas ampliado o campo possível de seus interesses investigativos; mas também que a musicologia, particularmente, em decorrência da “virada culturalista”, a partir da década de

94 1970, tenha sido conduzida em direção aos métodos etnográficos e a uma crescente ênfase “na interpretação como uma dimensão fundamental da existência da música” (Cook 2006, 19), não podemos deixar de evidenciar, no discurso de Cecília, a familiar caracterização que muitos de nós ainda fazemos da musicologia histórica e de seu escopo:

... tradicionalmente uma disciplina retrospectiva: o acadêmico trabalha de encontro à maré da história, por assim dizer, voltando-se no tempo para chegar ao Urtext, ao conceito original do compositor sem os acréscimos subseqüentes. E a concepção da música, essencialmente como um texto notado [grafado], transforma a execução na reprodução de um significado que já estava nas notas lá colocadas pelo compositor e recapturadas – pode-se dizer decodificadas – pelo intérprete ou pelo musicólogo (Cook, 2006, 19).

Questões de diversidade: a Lei 11.645

É, pois, tal caráter retrospectivo, idealmente baseado na positividade de fontes “concretas” – primordialmente, fontes musicais “notadas” – que se reafirma no longo diálogo, a seguir, no qual tratávamos das questões que a diversidade cultural coloca à educação escolar e à formação acadêmica em música.

L.: [...] A gente tem uma lei chamada de 11.645, que faz uma emenda à LDB. Ela já

foi a 10.639, que estabelecia a obrigatoriedade do estudo da história e da cultura afro- brasileira. Ela foi modificada, agora, em 2008, para incluir também o estudo da cultura e história dos povos indígenas brasileiros. [...] como seria uma aula de história da música preocupada em atender à obrigatoriedade da lei 11.645?

Cecília: isso aí é meio complicado... Por exemplo, na minha cabeça, quando a gente

estuda história da música ocidental, você vem desde aquele momento da Antiguidade, da Idade Média, aí você descobre que havia muito a questão da tradição oral. Aí chega a Igreja e dá um passo adiante com relação à questão da teoricidade em termos de música, não é? O próprio Guido D’Arezzo, Gregório Magno... quer dizer, você vai começar a ter um percurso de historiografia que vai lidar com a questão da escrita musical... quer dizer, ao longo de muitos séculos e de materiais que foram achados, que foram relegados, muitos que foram perdidos... natural, né? [...]

Então, quando eu penso assim “história dos povos indígenas”, eu quero saber: desde que época? Como isso acontece? Por exemplo, na história do Brasil, você sabe o seguinte, não se editava nada no Brasil, até 1808, quando a Família Real veio pra cá. [...]

[...] a partir de 1808, é que se cria a imprensa nacional, é que se pensa em acumular papel. Então, o que é que acontece? Do passado, [há] pouco material para você chamar de história. Do passado, das contribuições, pouco ou nada existe. O que é que existe, por exemplo, de música indígena no Brasil? O que eu historicamente conheço é o Jean de Léry, o “canto do pássaro amarelo”, que data, sei lá, de 1555, que é de

quando ele esteve aqui; e Jean de Léry, ele era um sapateiro, uma pessoa simples que veio e que tinha um conhecimento musical e que escreveu, ouviu, achou interessante e escreveu, tá entendendo? Quer dizer, uma primeira fonte de uma possibilidade de transcrição, certamente errada [...] Então, eu vou ter uma coisa, um caminho para dizer que é provável que aquela música tenha soado dessa maneira – é provável, porque eu estou tendo similaridades de configurações de notas, ou o que seja, e obedecendo um critério “x”, e dizendo “é possível que tenha sido assim”.

L.: mas de que maneira, então, nós poderíamos discutir...

Documents relatifs