No intuito de melhor situar nosso leitor, antes de iniciarmos o trabalho sobre a compreensão de Pierre Janet sobre a dissociação, consideramos importante oferecer um pouco mais de detalhes sobre as produções desse autor nesse segundo período, enfatizando a importância da dissociação nessas produções.
Conforme mencionamos na introdução, a segunda fase das obras de Janet é composta por três livros e 23 artigos. Nela está contida a sua primeira teoria sobre o funcionamento psíquico, assim como sua primeira explicação sobre a origem das doenças mentais, em especial sobre a histeria (Nicolas, 2003). É também nessa fase, que apareceu pela primeira
vez, em 1887, o conceito de dissociação (Leblanc, 2001) e que encontramos os artigos e livros cruciais para a compreensão da visão de Janet sobre esse tema (de Brown & Edward 2003, Dorahy & Van der Hart, 2006; Nicolas, 2003, Putanan, 1989; Roback, 1961; Van der Hart & Horst, 1989).
A segunda fase dos trabalhos de Pierre Janet (1859-1947), iniciou-se no ano de 1885, período este em que ele lecionava filosofia no Lycée du Havre25. Nessa época conheceu Joseph Gilbert (1829-1899) que lhe orientou em um estudo sobre os fenômenos de sonambulismo, hipnose e sugestão, e também começou seu trabalho clínico no hospital dessa instituição com pacientes histéricas, dentre as quais se destacam Léonide, Lucie, Marie e Rose. Com base nesse trabalho, Janet publicou uma série de artigos entre 1885 e 1889 pela
Revue philosophique de Ribot e pela Revue de La Societé de Psychologie Physiologique,
dirigida por Charcot, dentre os quais se inclui o texto L’anesthesie systématisée et La
dissociaion des phénomènes psychologiques (1887), citado anteriormente. 26 Suas investigações desse período culminaram com a tese L’automatisme psychologique. Essai de
psychologie expérimentale sur les formes inférieures de l'activité humaine, defendida por
Janet no ano de 1889 no Collège de France, juntamente coma tese latina, Baco verulamius
alchemicis philosophis quid debuerit como pré-requisito para a obtenção doctorat ès lettres.
(Nicolas, 2003) 27
Nesse mesmo ano da publicação da tese, Janet iniciou também seu estudo de medicina, o qual durou por mais quatro anos. Um ano após o início de seus estudos médicos, foi convidado por Jean Maritn Charcot para dirigir o laboratório de psicologia clínica da Salpêtrière. Nesta instituição, realizou sua pesquisa clínica com os pacientes Madame D, Marcelle, Isabelle e Achille, os quais são também citados inúmeras vezes em seus escritos. (Ellenberger, 1970) Após dois anos de trabalho, em 1892, Janet foi chamado a dar uma série de conferências na própria Salpêtrière, sobre as investigações que estava realizando. Estas conferências, com algumas alterações, tornaram-se, posteriormente, parte de seu segundo livro, L'État mental des hystériques: Les stigmates mentaux (1893), o qual foi seguido de outro volume, L'État mental des hystériques: Les accidents mentaux (1894), que continha a
25
Janet trabalhou nessa instituição de 1883 a 1889.
26 Esses primeiros artigos versavam principalmente sobre a descrição do que Janet chamou de formas inferiores da vida mental (a catalepsia, o sonambulismo, a sugestão, as práticas espíritas, o instinto, o hábito e a paixão), atividades estas que apresentam, para Janet, a característica comum de escapar mais ou menos do controle da vontade e se desenvolverem automaticamente.
27 Nesta época, para a obtenção do título, os alunos tinham que apresentar uma tese em latim e uma em francês para obter o doutorado em “letras”.
tese apresentada em 1893, quando o autor completou seus estudos de medicina. (Nicolas, 2003)
No primeiro de seus livros, L’automatisme psychologique (1889), Janet apresentou em mais detalhes a sua tese de que existem dois níveis da vida psíquica, o automatismo e a síntese, e defendeu que tanto os sintomas histéricos quanto a duplicação da personalidade e os fenômenos do sonambulismo estavam associados a um problema na síntese psicológica que acarretava a dissociação (desagregação)28 da consciência (Nicolas, 2003). Quatro anos mais tarde, em L’État metal des hystériques: les stigmates mentaux (1893), Janet resumiu e completou seus estudos sobre os sintomas mentais da histeria, focando, principalmente nas anestesias, amnésias, abulias, em alguns problemas do movimento e nas alterações de caráter. Estes estudos foram complementados por uma segunda obra, L'État mental des hystériques:
Les accidents mentaux (1894), na qual Janet tratava dos acidentes mentais das histéricas, os
quais incluíam as ideias fixas, os ataques, o sonambulismo e os delírios. Em ambos os tomos, Janet chegou à conclusão que a histeria era caracterizada essencialmente pela fraqueza de síntese, ou seja, pela fraqueza do sujeito de reunir, condensar seus fenômenos psicológicos e assimilá-los à personalidade, levando a uma dissociação deste grupo de fenômenos da consciência (Nicolas, 2003). A centralidade das ideias de dissociação, síntese psicológica e automatismo na formulação das explicações de Janet para suas observações tanto relacionadas à histeria quanto ao hipnotismo fica, portanto, patente nessas três obras.
Além de serem obras importantes por conterem a primeira teoria de Janet sobre o funcionamento psíquico e sobre as doenças mentais (teorias estas em que a dissociação tem um papel central), esses volumes, em especial a obra L’automatisme psychologique, foram bem recebidos tanto por filósofos, quanto por médicos e psicólogos da época. Para os adeptos da “nova psicologia” e para os médicos, eles se mostravam como um bom trabalho de Psicologia experimental, uma vez que neles Janet utilizava principalmente o método psicopatológico, partindo de observações sobre quadros de histeria e dos fenômenos hipnóticos para concluir sobre o funcionamento mental, não apenas das pacientes histéricas, como também de sujeitos normais.29 Para os filósofos, a obra também se apresentava interessante, uma vez que a noção de uma atividade subconsciente apresentada por Janet tornava possível uma síntese entre a antiga e a nova psicologia preservando a unidade do eu. (Nicolas, 2003). Será, portanto, devido às razões supracitadas, que nos dedicaremos nos
28
Explicaremos a seguir esta questão conceitual.
29 É muito importante que tenhamos em mente essa característica das obras de Janet desse período porque como veremos, todas as suas explicações e teorizações se voltarão para a histeria e para o hipnotismo.
capítulos seguintes ao estudo da dissociação especificamente na segunda fase das obras de Pierre Janet.
2.2 O SURGIMENTO E O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE DISSOCIAÇÃO