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TERMINAL VRAC ET MARCHANDISES DIVERSES

Dans le document TARIFS D USAGE CAHIER TARIFAIRE 2022 (Page 35-42)

À primeira vista caótico, o romance de Renato Pompeu revela-se aos poucos uma hábil orquestração de estilo e estrutura narrativa, embora sejam cabíveis restrições a certas idiossincrasias do autor no tocante, por exemplo, à excessiva economia de vírgulas e ao freqüente e perigoso flerte com a escrita de Guimarães Rosa. O livro é dividido em três partes e todas elas dizem respeito à estada do protagonista no hospício, tratada diretamente na segunda parte e tendo seu caráter alegórico explicitado, por espelhamento, na primeira e na terceira. A relação dialética entre a primeira e a segunda parte evidencia-se pelos títulos “Dentro” e “Fora”: o primeiro quer dizer “dentro da sociedade” e o segundo, o contrário - ainda que signifique também “dentro do hospício”. O título da terceira parte, composta de apenas quatro páginas e que funciona como conclusão do relato e das reflexões do protagonista-narrador, é “De volta” – Quatro Olhos, saindo do hospício, está retornando ao convívio social, ao “dentro” no qual jamais se sentirá integrado.

Ocupando aproximadamente três quartos dos total de páginas, a primeira parte estende-se como tecitura da memória do narrador, compondo-se à medida que este se lembra de sua vida fora do hospício e do manuscrito perdido de um livro, a princípio recordado vaga e contraditoriamente. Além do livro, a relação de Quatro-Olhos com sua esposa é o principal objeto de interesse dessas memórias, vindas a sua mente de maneira fragmentária, sem nenhuma ordem que não o ritmo da recordação. Aos poucos, o livro perdido passa de vaga evocação a dado da memória, e também a autobiografia de Quatro-Olhos vai ficando mais ordenada. O estilo da narração acompanha essa clarificação: o narrador demonstra-se cada vez menos confuso e mais lúcido, ao passo que seu estilo se aprimora, chegando mesmo à composição de passagens bastante elaboradas.

É importante adiantar que essa primeira parte é escrita por Quatro-Olhos já depois da internação no hospício, o que o leitor só saberá se ler atentamente a segunda parte. Isso explica o caráter a princípio confuso e contraditório da escrita. No momento em que o narrador atinge certo grau de clareza, enuncia assim a função do livro perdido: “Seria necessário redescobrir a verdadeira história do Brasil para que eu recuperasse a minha identidade perdida, mas como não era capaz de tanto pus- me a inventar histórias.”

O impasse da escrita literária sob censura, o plano das preocupações éticas e estéticas do escritor engajado, ou que gostaria de sê-lo, é transferido para o plano ficcional do livro perdido:

Mastigava assim o mundo e o digeria com estômago suave, encantado por dispor de dinheiro mágico, que apagava o clangor melancólico da vida fora de mim. No livro, é claro, eu defendia os trabalhadores, calculava denúncias, dedilhava manifestos, mas isso era perícia de artista.148

Quatro-Olhos confessa ter sido cooptado pelo emprego rendoso que conseguira, depois disso transformando-se de “índio” (contestador) em consumidor típico e voraz. Mas a mudança não pudera apagar de todo sua consciência crítica e seu ímpeto de analisar o absurdo das relações sociais. Então, transferia seu ser para o livro, visto como instrumento evasivo e socialmente inócuo. É claro que se pode vislumbrar em passagens desse tipo uma teorização das possibilidades e limitações da ficção brasileira sob o golpe militar.

A busca do livro perdido se dá em dois níveis, o narrativo e o estilístico. Isso porque, ao mesmo tempo em que procura recompor a memória do manuscrito, o narrador utiliza as recordações para compor o livro atual. Daí a feição de pesquisa dessa primeira parte de Quatro-Olhos, em que os registros de linguagem são bastante variados, como se o narrador estivesse experimentando vários tons narrativos. Como não sabe exatamente o que vai narrar, o tom varia da imitação do discurso da loucura aos floreios verbais à Guimarães Rosa, passando pela ironia tipicamente machadiana. Em todo esse percurso sinuoso e assimétrico, a procura do livro perdido permite ao ficcionista expor a incoerência do modo de vida consumista assumido no passado. No final dessa primeira parte o narrador dirá que as mudanças em sua vida (especialmente no plano conjugal) foram marcadas pelos anos de 1964 e 1968, ou seja, o do golpe e o do AI-5. A procura, portanto, não é apenas do livro perdido (memória), mas também do livro que Quatro-Olhos está escrevendo à vista do leitor (teorização estético-política).

O lugar onde se encontra o narrador no momento da escrita é mencionado apenas de passagem, numa referência à “piscina de onde estou”. Na segunda parte se poderá concluir que esse “onde estou” significa hospício e que, nem por ser uma instituição asilar mais confortável, a ponto de contar com uma piscina, deixará de ser um espaço opressivo e injusto. Afinal, ali há internos “indigentes” e outros que gozam de “grande prestígio” junto à direção, além de o choque elétrico ser aplicado como medida punitiva disfarçada de terapia.

Nas memórias sobre o casamento, o narrador expõe sua relação conflituosa com a mulher. Ele, de origem modesta; ela, “filha do comércio e da indústria”. A diferença de classe tornará inviável o

amor quando se transforma em inversão de papéis ideológicos: a mulher, assumindo a condição de militante política, renegará sua classe no plano do discurso e da ação, enquanto Quatro-Olhos, ascendendo socialmente, assumirá o papel do típico burguês, embora cheio de má consciência. Mas o narrador também deixa claro o quanto o projeto político esquerdista da esposa e de seus amigos (os quais gostavam de consumir vinhos e queijos importados) era inviável e contraditório. Ela é o estereótipo da esquerda brasileira que embarcou na aventura da luta armada; seus companheiros militantes aparecem sob o manto do ridículo, representam a análise equivocada da situação política a partir de “evangelhos” estrangeiros, da inconsistência ideológica que se transforma, no momento azado, em oportunismo explícito. Para o narrador, a maioria dos militantes clandestinos eram “coiós” de quem “os exploradores do povo não tinham nada a temer”.149 Somam-se duas incompreensões, portanto: o Brasil sob a modernização autoritária na qual Quatro-Olhos não consegue sentir-se à vontade, embora bem situado economicamente; e a mulher, que se vai tornando uma estranha e, em certos aspectos, uma adversária do narrador. Ele não ousava, por exemplo, comentar com ela o livro que vinha escrevendo, pois imaginava que a obra seria considerada uma infantilidade diante das exigências do momento político. Então, desenha-se a crise do protagonista pelo autofechamento cada vez maior, em si mesmo e nas páginas de sua obra.

Nesse ponto da narrativa, a memória individual de Quatro-Olhos já se transformou em memorialismo histórico: fala-se, e não há como interpretar de outra maneira, do impasse da sociedade brasileira sob o golpe militar. A matéria política transita para dentro do livro rememorado, e então as personagens evocadas passam a ser espécimes típicos do momento histórico:

Mas divago e esqueço o livro. Nele, pouco a pouco, se recortava a imagem de um liberal esquerdista. Manco, no ginásio ficara fora das lides esportivas e se metera a ler, alimentando-se de vulgarizações marxistas para esquecer o defeito físico. (...) Na escola, ligara-se a professores esquerdistas, aos quais porém desprezava por causa da vida deles pouco viril; chamava-os “marxólogos”. Crítico feroz, não poupava o “reformismo” do Partido Comunista nem o “revisionismo” da União Soviética; acabou por unir-se a um grupo de estudantes mais velhos, que tinham fundado seu próprio partido.150

A lucidez da análise política é acompanhada por lembranças mais antigas. Quatro-Olhos traz à escrita episódios da infância e da juventude que esclarecem sua personalidade propensa constantemente à crise e ao desajustamento. Revela, por exemplo, como aos 16 anos começara a

148

Q-O, p. 65.

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A crônica armada mostra que realmente os guerrilheiros, na maioria das vezes, tinham reduzidíssima capacidade de ação e só puderam promover ações espetaculares enquanto contavam com a desinformação do aparato repressivo. Ver GASPARI, E. (2002)

escrever o livro afinal perdido, “para criar um mundo correto em meio ao mundo falso em que vivia”. Na escrita, os “pedaços significativos do que estava em volta” obedeciam à sua “lei interna”, e por isso o adolescente ignorava como irreal “todo o resto do mundo externo”, só admitindo em seu mundo particular “o que estivesse de acordo com a minha lógica”.

Trata-se, é claro, de uma concepção da escrita como formação reativa que bem explica por que um dia aquele rapaz seria considerado louco. Quatro-Olhos trazia em si, desde menino, o albatroz baudelareano, o esquisito que só se sente bem nas alturas do pensamento. Ou pelo menos é essa a imagem de si mesmo que prefere recordar. A gestação do livro perdido, portanto, revela-se contemporânea das inquietações adolescentes, traduzidas numa sensação de estranhamento frente à realidade que jamais abandonou Quatro-Olhos na idade adulta. O protagonista, afinal, nunca deixaria de ser aquele rapaz que “não percebia mecanismos por trás daquele monte de gente que via no caminho de casa à escola” e preferia fechar-se ao mundo incompreensível, ficando em casa para ouvir Mozart ou indo à Biblioteca Municipal ler livros latinos − dois universos em tudo opostos ao cotidiano automatizado e amorfo das outras pessoas. Enquanto seus colegas trabalhavam em escritórios ou eram balconistas, Quatro-Olhos “tinha orgulho de dedicar-me às letras, no meio daquelas cabeças perdidas em receitas e despesas”. E ao mesmo tempo que era capaz de, espertamente, resolver com uma única frase o impasse lógico de um texto no exame de História, o rapaz dava-se a devaneios que chegavam à vizinhança do delírio:

Percebi que todos aqueles que dançavam haviam de morrer e pus-me a imaginá-los mortos. Um morto com um copo de cuba-libre passou atabalhoado por mim e me deu um empurrão; uma morta de vestido vaporoso deixou a garganta exposta ao lançar a cabeça para trás numa gargalhada lúbrica. A irmã de minha madrinha, de nariz levantado, negou parceria a um mulato, mas estavam os dois mortos. Anos mais tarde usei isso no livro.151

Existia, portanto, uma incompatibilidade visceral entre o protagonista e o mundo das pessoas “normais”. No fundo, Quatro-Olhos sempre viverá fora da realidade comum, tendo sido o casamento e o trabalho incursões mal-sucedidas para além do seu casulo egocêntrico. A inadaptação e a fuga para dentro do livro, que já vinham da juventude, acabavam por radicalizar-se por ocasião da crise existencial do narrador. Era momento em que ele voltava a imaginar as pessoas a sua volta como cadáveres:

Eu de minha parte me perdia ouvindo música ou aspirando o doce perfume da coxa de minha mulher, imaginando-lhe as veias e as camadas de gordura e pensando que um dia ela ia morrer. Aliás todo mundo

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com quem eu conversava estava fadado a morrer e eu de certa forma me sentia conversando com fantasmas. Sentia que estava apertando a mão de esqueletos e oferecendo uísque e salgadinho a cadáveres. “Esse aí vai morrer”, pensava eu ao abrir a porta do apartamento para mais um participante das reuniões promovidas por minha mulher. Também via na televisão futuros cadáveres jogando futebol.

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No ponto em que a crise de Quatro-Olhos se torna mais aguda, também entra em colapso a lembrança do manuscrito. O memorialista manifesta cansaço e torna a não ter certeza das próprias lembranças: “novelos confusos formam-se em minha mente e não consigo recompor meu escrito”. Enquanto sua mulher o acusa de não se importar com a situação política, o próprio valor do escrito, jamais anteriormente posto em questão, passa a ser negado pelo narrador. Quatro-Olhos já havia qualificado o manuscrito perdido como obra-prima, mas agora admite: “A bem dizer todo o livro não valia um caracol mas eu me reservava o direito de escrevê-lo.” Cada vez mais enclausurado e propenso ao devaneio, ele

descortinava entre as nervuras das folhas de alface mundos indefiníveis. Ali, naquelas linhas verde- alvacentas, podiam notar-se planetas de sonhos, os mistérios das andanças existenciais. Dito o que a alface era comida por um teólogo de guardanapo sobre o ventre. Por que se protegem os teólogos? Por que fazem ginástica de manhã ao levantar e cuidam de não engordar? Que necessidade tem um teólogo de engraxar os sapatos? Por que exigem os teólogos roupa íntima limpa? Como os teólogos têm coragem de exercer esse ato animal que é comer? Essas perguntas não ficavam sem resposta no meu manuscrito.153

O estranhamento diante do mundo se estende ao caráter incompreensível das relações de trabalho, por isso o narrador se lembra da história de um rapaz, “lhano de maneiras e pudico no trato”, incapaz de compreender por que razão era obrigado a trabalhar. Não era preguiça, era uma “visão do mundo”: “Quem eram aqueles estranhos que lhe impunham horários e tarefas?” Para esse rapaz, a vinculação entre o trabalho realizado e o dinheiro recebido não se justificava, e então ele terminara “em casa, fazendo pequenos serviços para pessoas conhecidas ou de quem gostava e elas davam-lhe alguns trocados”.

O momento em que a crise do protagonista se torna insustentável anuncia o desfecho dessa primeira parte de Quatro-Olhos. Encerrando um casamento que já não existia senão formalmente, sua mulher um dia lhe anunciou que iria embora, pois estava sendo perseguida pela polícia. “Eu não quero ser torturada.” – disse, recusando-se a revelar para onde ia. Quatro-Olhos não tivera muito tempo para 151 Idem, p. 117. 152 Idem, p. 129. 153 Idem, p. 132.

refletir, pois logo chegara a polícia. Ao atender a campainha, fora “atropelado por um brutamontes de metralhadora” seguido por um bando que entrara no apartamento quebrando tudo que encontrava. É então que, procurando pistas que levassem ao grupo esquerdista a que pertencia a mulher de Quatro- Olhos, os agentes da repressão encontram seu manuscrito, o qual, se continha as passagens críticas mencionadas na primeira parte do romance, terá sido mais do que suficiente para vincular o protagonista a um pensamento anticapitalista e antimilitarista – de maneira que chega a ser injusta, pois o leitor é testemunha de que ele em tudo se mantivera afastado das procupações políticas do grupo clandestino da consorte. Seja como for, a última frase desta parte informa que alguns meses depois Quatro-Olhos se viu internado num hospital psiquiátrico.

Na passagem para a segunda parte do romance, existe um duplo hiato narrativo. Primeiro, porque agora a narração é em terceira pessoa; mostra Quatro-Olhos já no hospício. Segundo, porque a época em que se inicia esse novo segmento narrativo representa um salto temporal em relação ao momento da prisão; o narrador não deixa claro se o protagonista foi preso, nem quanto tempo passara na prisão, nem se fora torturado. Considerando a realidade histórica a que se refere a obra, a passagem de Quatro-Olhos pela tortura seria praticamente inevitável.

Não há na estrutura do romance uma justificativa clara para esses dois hiatos, mas pode-se formular algumas hipóteses. No caso da mudança de foco, ela é acompanhada de um alto grau de organização da lógica narrativa; o retrato da vida no hospício é extremamente coerente e verossímil, sem as indecisões e tergiversações da primeira parte. O narrador seria, então, um interno totalmente lúcido? Neste caso, o que estaria fazendo dentro do hospício? Não poderia ser um médico ou enfermeiro, pois inclui-se entre os internos referindo-se a eles como “nós”. É possível imaginar que esse narrador seja o próprio Quatro-Olhos, até porque o protagonista é apresentado quase como herói, de maneira idealizada. Mas por que o escritor teria escolhido esse artifício? Primeiro porque seria difícil acreditar num Quatro-Olhos lúcido e organizado: seria o mesmo que dizer que ele de fato fora louco e havia sido curado pela estada no manicômio, aliás, sempre mencionado como “hospital” – do qual está prestes a sair. Como o livro não pretende ser um elogio da instituição psiquiátrica, essa alternativa não é cabível. Ao contrário, é perfeitamente verossímil que Quatro-Olhos, passado o mergulho no inferno dos medicamentos pesados e choques elétricos, tenha voltado à tona da consciência e resolvido observar analiticamente o pequeno mundo em que se encontrava.

Por que se teria Quatro-Olhos decidido a fazer a espécie de sociologia do hospício que compõe a segunda parte do romance? Antes de mais nada, certamente, por uma questão de hábito: se no

mundo exterior ele não achava nenhuma ocupação mais atraente que a escrita, como o faria no hospício, caracterizado pela vida ociosa? Mas o próprio retrato da instituição faz supor que o protagonista enxergou ali uma versão mais nítida do mundo exterior, uma redução em escala onde se tornavam mais compreensíveis as relações sociais – o que, de resto, é enunciado com todas as letras no final dessa segunda parte. Talvez por isso o narrador de “Fora” tenha optado por acrescentar à redução espacial uma redução temporal, pois quase toda essa parte da narrativa se restringe a um dia na vida dos internos; ela começa com os gritos do louco apelidado Bastiana ao amanhecer e termina quando ele, no final do mesmo dia, inicia sua ronda noturna. Quanto à parte da história que não é narrada (provavelmente: a tortura do tratamento psiquiátrico), é cabível imaginar que o relato não ocorre porque o narrador não seria capaz de fazê-lo, achando-se física e mentalmente debilitado; ou então, devido ao caráter violento do tratamentos a que fora submetido154, tivesse perdido parte da memória dos fatos recentes; ou, ainda, porque recusasse essas lembranças excessivamente dolorosas, preferindo falar do momento presente, em que vivia de maneira relativamente plácida.

Um dia no hospício é o suficiente para mostrar quanto esse pequeno mundo é regido por leis muito semelhantes àquelas que vigoram lá fora, “dentro” da sociedade. Por exemplo, a organização das pessoas em filas, que tanto incomodara o protagonista antes, no interior da instituição asilar é ainda mais importante. A rigidez das normas desse pequeno mundo é maior, começando pela divisão dos pacientes em ala masculina e ala feminina. A privação da liberdade faz com que se instituam regras como a utilização dos cigarros a título de moeda e a supervalorização do jogo de baralho, considerado verdadeiramente sagrado pelos internos.

Bastiana é o primeiro louco da galeria que será apresentada ao leitor, relativamente extensa e composta por tipos comuns em qualquer hospício, com sua carga de ridículo e patético, mas também por outros nitidamente representativos de comportamentos políticos, dos quais o mais importante é Opontolegário, antagonista de Quatro-Olhos. Logo se nota que apenas duas mulheres são relevantes nos acontecimentos desse dia no hospício; elas se chamam Xírlei e Domitila, tendo a primeira algumas semelhanças com esposa que Quatro- Olhos perdera: Xírlei é inteligente e ativa, arranja o tempo todo algum trabalho para fazer. Domitila é simplesmente bela, ou assim considerada pela maioria dos internos.

Vejamos como são apresentados alguns moradores do hospício:

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Bastiana – Seu apelido deriva do nome que ele chama todas as noites. “Baba facilitada por

labial e sibilante, espalhada entre os dentes pela dental, escorregando fora pelo anasalamento, descendo o pescoço, aninhando-se na camisa de cor irreconhecível, tão cheia de restos de vagas refeições”. Mas o interno tem alguma capacidade de raciocínio: quando alguém o chama de Bastiana, intervém o discurso indireto livre para revelar o que ele pensa: “Mas essa gente não sabe? Bastiana é nome de mulher, não de homem que procura por ela. Estão loucos, pensando isso.”

Onestaldo – Capaz de atitudes agressivas, tem no entanto uma “polícia interna” que o leva a

punir-se com uma bola de bocha, “especificamente castigando a cabeça doente, responsável pelo desvario” de bater em um colega que lhe obstara a passagem para a ala central do hospício.

O Assassino – Vive em “escorreita modorra”, só comendo e bebendo o suficiente para manter-

se vivo na cama. Havia matado a mulher porque não conseguia compreender suas constantes mudanças de atitude; resolvera “pregá-la num ponto do tempo” a fim de “deixá-la sempre igual a si

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