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Na Bahia, o desenvolvimento do Programa de Popularização da Ciência (Popciências) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado Bahia (Fapesb) está vinculado à demanda crescente de instituições e atores interessados em participar das atividades da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) ao longo dos anos. Este evento, desde os primeiros momentos de sua realização, ficou submetido à coordenação da Secretaria de Ciência e Tecnologia (Secti) e com apoio financeiro da Fapesb, situação que permanece até os dias de hoje. Como será visto adiante, a cada ano, as ações da Fapesb voltadas para popularização da ciência e tecnologia foram tomando novas configurações e dimensões, com variações de aspectos relativos aos tipos de eventos realizados, cidades abrangidas, parcerias institucionais, diversificação do número e perfil dos atores envolvidos na popularização da ciência, criação de editais específicos com linhas de fomento diferenciadas, dentre outros.

Ressalta-se a iniciativa da Fapesb de apresentar, a partir de 2006, uma linha extraordinária de fomento a eventos para a SNCT, na modalidade fluxo contínuo, e, a partir de 2007, de lançar editais específicos para a SNCT, que institucionalizaram o Popciências na modalidade Apoio Científico. Em 2008, 2009 e 2010, fruto da cooperação entre Secti, Fapesb e apoio da Secretaria de Educação (SEC), foram criados editais com possibilidade de realizar pesquisa e/ou extensão na área de popularização da ciência e tecnologia. Foi permitida a participação, como proponentes dos projetos, de graduados, especialistas, mestres e doutores oriundos de instituições de ensino superior, instituições científico-tecnológicas, públicas ou privadas, escolas da rede pública de ensino ou administradas em consórcios público-privados, ONGs, associações, cooperativas e demais órgãos públicos. Ainda no âmbito deste programa foram lançados outros editais para conceder ajuda financeira a espaços científico-culturais, como os museus, e ao desenvolvimento de projetos de infraestrutura e/ou extensão com foco na Astronomia e ciências afins.

Para compreender o histórico da criação e ampliação dos recursos e ações do Popciências, faz-se necessário a elaboração de uma Linha do Tempo para associar uma breve retrospectiva da história política da ciência e tecnologia na Bahia tomando como ponto de partida as primeiras ações da Secti e Fapesb voltadas para a popularização da ciência e tecnologia, no que diz respeito ao apoio a eventos na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, bem como criação de editais para a realização de pesquisas e/ou extensão, dentre outros. Vale lembrar que de 2003 a 2006 a Secti estava sob a liderança de Rafael Lucchesi e a Fapesb dirigida por Alexandre Pauperio. Estes dois atores permaneceram em seus cargos durante todos os anos de governo de Paulo Souto (2003 a 2006). De acordo com os entrevistados desta pesquisa, a estabilidade dos gestores nas respectivas pastas permitiu que toda ação empreendida por um gestor da Secti tivesse a contrapartida de um gestor na Fapesb.

Com a entrada de Jaques Wagner no governo do estado, em 2007, percebe-se uma verdadeira “dança das cadeiras” nos cargos de gestão destas duas instituições, tendo a secretaria sofrido de forma mais abrupta com as constantes mudanças do que a fundação. Só para constar, no primeiro mandato de Wagner (2007-2010) ocorreram três nomeações para ocupar o cargo de secretário: Ildes Ferreira (2007-2009), Eduardo Ramos (2009-2010) e Feliciano Tavares Monteiro (2010). O rodízio de cargos na Secti só parou com a ocupação desta pasta pelo deputado estadual do PDT, Paulo Câmera, que segue como secretário até os dias atuais. Já na Fapesb, passaram pelo cargo de Diretor Geral a professora Dora Leal Rosa (2007-2009) e Roberto Paulo Machado Lopes (2009-atual). Este último, uma indicação do PDT, partido coligado ao PT de Wagner na eleição de 2006. Logo adiante, é possível visualizar uma Linha do Tempo que mostra a trajetória do Popciências no contexto histórico-político da ciência e tecnologia na Bahia.

É com base nessa Linha do Tempo que será exposto o contexto sócio-político- acadêmico do Popciências. A seguir, será realizada uma retrospectiva da inserção deste programa nos âmbitos institucionais da Secti e da Fapesb, sob o ponto de vista dos gestores, bem como uma breve descrição das principais ações concretas de popularização da ciência e tecnologia que ocorreram na Bahia sob a tutela dos governos Paulo Souto (2004 a 2006) e Jaques Wagner (2007-2010) e primeiro ano do 2º mandato de Wagner (2011).

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Desde 2003, a mobilização em torno do mote “popularização da ciência e inclusão social” tomou conta das discussões da recém-criada Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (Secis), órgão específico do MCT, que originou o Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia (DEPDI). Esta ação inseriu definitivamente a temática na agenda política do país. Na Bahia, é possível encontrar uma breve afinidade com esta tendência pulverizada no documento Política de Ciência, Tecnologia e Inovação para o

Estado da Bahia – Versão Completa (SECTI, 2004)16. Este documento apresenta os quatro

Eixos Temáticos definidos para compor a política de CT&I do estado, a seguir: 1) Tecnologias da Informação e Comunicação; 2) Fortalecimento da Base Científica e Tecnológica; 3) Tecnologia para o Desenvolvimento Produtivo e Empresarial e 4) Tecnologia para Áreas Sociais e Ambientais. Para interesse desta pesquisa, destacam-se duas das onze linhas de ação do Eixo nº 4:

Apoio a centros e museus de C&T que desenvolvam atividades interativas de aprendizagem científica e tecnológica, despertando a curiosidade, o senso de observação, a criatividade e o interesse pela ciência;

Realização de eventos voltados à promoção e à divulgação do saber científico e tecnológico, direcionados ao público infantil e juvenil, a exemplo de feiras de ciências, olimpíadas de matemática e concursos de redação, dentre outros. (SECTI, 2004, p. 81).

A popularização da ciência aparece como um foco dessas linhas de ação, não se configurando como eixo de um plano de governo para a área, sendo que o volume de recursos aplicados em centros e museus de C&T e número de feiras e eventos de popularização da ciência aparecem como indicadores preliminares para direcionar a política estadual de CT&I no que diz respeito à melhoria do ensino, tendo a incorporação da curiosidade científica como elemento propulsor de uma evolução cultural, como está descrito oficialmente:

O foco das linhas de ação deste eixo é o desenvolvimento do capital humano e social, fomentado através de incentivo à pesquisa e extensão nas áreas de ciências sociais e meio ambiente, popularização da ciência e melhoria na gestão pública. Tal processo induz a uma evolução cultural, potencializada pela incorporação da curiosidade científica na formação educacional básica e por uma educação superior de qualidade. (SECTI, 2004, p. 79).

Ainda segundo o documento, a popularização da ciência está contemplada em um Projeto Estratégico denominado A Ciência é de Todos, no qual todos os esforços nesta área

16 Em 2004, o governador da Bahia era Paulo Souto, o secretário da Secti, Rafael Lucchesi, e diretor geral da

estão interligados a um projeto maior idealizado pelo MCT que leva o mesmo nome17. Neste sentido, projetos de feiras de ciências, olimpíadas de matemática, kits de ciência, revitalização de museus/centros de tecnologia, dentre outras ações relacionadas com a alfabetização científica prática da população, sobretudo das crianças, deveria ter o envolvimento direto da Secretaria de Educação e Cultura (SEC) e da Secretaria de Combate à Pobreza (Secomp). (SECTI, 2004). Já na seção que diz respeito à Fapesb, surge uma proposta de Edital Temático com o tema Teatro e Popularização da Ciência, que figurava como uma das possibilidades para maximizar o retorno social dos investimentos em CT&I. No entanto, grande parte destas ações nunca saiu do papel. (PEVERATI, 2012).

Em afinidade com o emergente discurso do MCT sobre a necessidade de popularizar a ciência como uma ferramenta de inclusão social, liderada por Ildeu de Castro Moreira, havia na Secti de Rafael Lucchesi o cargo de Coordenador de Popularização da Ciência, ocupado por Alberto Peverati Filho, que dialogava com Fábio Teixeira, Coordenador Técnico da Fapesb, no que diz respeito aos assuntos de popularização da ciência, como a organização da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. De 2004 a meados de 2006, estes dois atores trabalharam juntos na mobilização e sensibilização de professores de universidades, de instituições científico-tecnológicas e de escolas públicas frente à necessidade de divulgar a ciência para grandes públicos.

A seguir, são pontuadas as principais ações voltadas para a popularização da ciência e tecnologia durante o governo Paulo Souto, consideradas por esta pesquisa como sendo o berço do Programa Popciências da Fapesb.

 Criação do Comitê Ciência e Educação na Bahia

De acordo com o Coordenador de Popularização da Ciência da Secti, Alberto Peverati, este comitê foi idealizado pela Secti a partir da necessidade de estruturação e inclusão da popularização da ciência no organograma da instituição. “Em 2003, o Ministério da Ciência e Tecnologia havia criado o Departamento de Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia, porém, não havia nenhum documento formal que detalhasse os principais objetivos da área” (PEVERATI, 2012). O comitê, que era liderado por este gestor, tinha o objetivo de reunir

17 Ciência é de Todos – Projeto idealizado pela Secretaria para Inclusão Social do Ministério da Ciência e

Tecnologia (MCT), cujo objetivo foi é financiar ideias inovadoras que pudessem contribuir para a melhoria do processo de aprendizagem de ciências em escolas de nível médio e profissionalizante.

especialistas para discutir políticas públicas voltadas para as áreas de educação e ciência, contemplando as áreas de ensino de ciências e matemática, capacitação de professores, e revitalização de museus e centros educativos. Um dos produtos deste comitê foi a elaboração de um projeto para o Museu de Ciência e Tecnologia, localizado no bairro do Imbuí, em Salvador, que foi submetido ao edital do CNPq direcionado para Museus e Centros de Ciências, em 2004. A iniciativa, apesar de receber elogios por parte da comunidade científica, não foi adiante após a saída de Peverati da Secti, em 2006.

 Realização da I Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (2004). Tema: Brasil, Olhe para o Céu!

Na Bahia, para a organização da I SNCT, cujo tema foi “Brasil, Olhe para o Céu!”, a Secti e a Fapesb contaram como o apoio da Secretaria de Educação (SEC) e a Agência Espacial Brasileira (AEB). Apesar de não existir nenhuma referência a este evento no Relatório Anual de Atividades da Fapesb de 200418, é possível resgatar a memória desta ação em reportagens publicadas no Jornal da Ciência (2004)19, onde são identificadas as primeiras declarações de integrantes do governo do estado sobre o tema à época, como a do secretário Rafael Lucchesi:

A ciência e a tecnologia são elementos estratégicos para o desenvolvimento econômico-social. É importante que a sociedade compreenda esse valor e perceba o impacto deles nas diversas áreas das atividades humanas, como saúde, segurança e meio ambiente. Este é um assunto de interesse de todos. Um maior conhecimento de ciência e tecnologia favorece ao crescimento sustentável. (LUCCHESI, 2004).

Ainda na reportagem, intitulada “Bahia participa da Semana Nacional de C&T”, encontra-se uma justificativa para legitimar a realização do evento no Brasil, que consistia em “criar e consolidar no país um mecanismo que já vinha sendo usado com êxito em vários países como Inglaterra, Espanha, França, Chile e África do Sul, possibilitando que jovens percebam desde cedo a importância da C&T para uma melhor qualidade de vida”. (JORNAL DA CIÊNCIA, 2004).

Segundo a reportagem, foram promovidas em Salvador as seguintes atividades de popularização da ciência na SNCT 2004 organizada pela Secti com apoio financeiro da Fapesb:

18 Todos os Relatórios Técnicos Anuais da Fapesb, de 2003 a 2011, encontram-se disponíveis no portal da

instituição no seguinte endereço: http://www.fapesb.ba.gov.br/?page_id=288.

19 As reportagens originais produzidas pelas Assessorias de Comunicação da Secti e Fapesb não são mais

encontradas nas novas versões dos seus portais. No entanto, é possível encontrar matérias enviadas pelos jornalistas destas instituições nas edições antigas do Jornal da Ciência, veículo especializado em jornalismo científico de abrangência nacional e reconhecido pela comunidade científica. Além disto, na seção do Popciências no portal da Fapesb também não se encontra disponível a memória dos eventos e editais anteriores a 2009.

instalação de um Parque Científico no Shopping Iguatemi, um laboratório interativo com equipamentos levados pela Universidade da Criança e do Adolescente (Unica), que contou com a presença do primeiro astronauta brasileiro Marcos César Pontes; a circulação do ônibus espacial da Agência Espacial Brasileira pelos bairros e demais atividades realizadas no Shopping Aeroclube Plaza, localizado na Boca do Rio. De acordo com o gestor do Popciências da Fapesb, Edísio Brandão (2012), a organização da primeira Semana Nacional de C&T na Bahia pelos órgãos estaduais competentes foi baseada num modelo de convênios. “A Fapesb liberava os recursos para que a Secti20 firmasse um convênio com a Organização do Auxílio Fraterno (OAF), entidade responsável pela administração da Unica e que gerenciava os projetos desenvolvidos na Semana”.

Importante ressaltar que o físico Ildeu de Castro, que estava à frente do DEPDI do MCT, realizou em 2004 visitas em todos os estados brasileiros para promover a recém-criada Semana Nacional de Ciência e Tecnologia junto a setores sociais como centros e museus de ciência, universidades, instituições de pesquisa, entidades científicas, profissionais e sindicais, órgãos governamentais, mídia impressa e televisiva, empresas, dentre outros. Ainda neste ano, no Congresso Nacional, foi instalada a Subcomissão Permanente de C&T no Senado e criada a Frente Plurissetorial em defesa da CT&I.

Sensibilizados pelo movimento nacional em torno da popularização da ciência e independente da organização do evento pela Secti e Fapesb, outras instituições de ensino superior e centros de pesquisa, que já estavam acostumados a desenvolver atividades extensionistas, também se mobilizaram para a SNCT 2004. A Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós- Graduação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), por exemplo, organizou o evento “Ufba de portas abertas”. De acordo com a professora do Instituto de Biologia da Ufba e uma das pioneiras na realização da SNCT na Bahia, Rejâne Lira-da-Silva (2012), para executar as atividades da Semana, a Ufba recebeu recursos no valor de R$ 80 mil provenientes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Além do apoio financeiro para instituições, a SBPC também fomentou projetos individuais, onde professores que já trabalhavam com divulgação científica puderam desenvolver atividades integradas à programação da SNCT. (LIRA-DA-SILVA, 2012).

20 O modelo de convênios foi uma prática adotada por Alberto PEVERATI, coordenador de Popularização da

Além da Ufba, outras universidades baianas, como a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), motivada pelo tema da SNCT 2004, também realizou atividades no Observatório Astronômico Antares, que abriu suas portas para a observação do eclipse lunar com telescópios. (JORNAL DA CIÊNCIA, 2004). Visitas guiadas e palestras de astrônomos esclareceram muitos estudantes e demais curiosos que puderam conhecer um pouco mais sobre a estrutura do universo, as constelações, os satélites e os planetas. Além da capital e de Feira de Santana, a programação da SNCT 2004 aconteceu também nos municípios de Ilhéus, Cruz das Almas e Juazeiro. Nestas localidades, as universidades figuravam entre os principais anfitriões. (JORNAL DA CIÊNCIA, 2004).

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