Murilo Sérgio Valente-Aguiar1,2*, Ana Cecilia
Guedes Pereira Falcão3, Itajane Silvestre4,
Ricardo Jorge Dinis-Oliveira1,5,6
1Department of Public Health and Forensic
Sciences, and Medical Education, Faculty of Medicine, University of Porto, Porto, Portugal.
2Legal Medical Institute of Porto Velho, Civil
Police of the State of Rondônia, Brazil.
3Faculdades Integradas Aparício de Carvalho
- FIMCA, Porto Velho - RO, Brazil
4Centro Universitário São Lucas, Porto Velho -
RO, Brazil
5IINFACTS - Institute of Research and
Advanced Training in Health Sciences and Technologies, Department of Sciences, University Institute of Health Sciences (IUCS), CESPU, CRL, Gandra, Portugal.
6UCIBIO-REQUIMTE, Laboratory of
Toxicology, Department of Biological Sciences, Faculty of Pharmacy, University of Porto, Porto, Portugal.
Email: medicolegista-murilo@valente- aguiar.med.br
Introdução: No rio Madeira, um rio de águas
turvas, que banha a cidade de Porto Velho, capital do estado de Rondônia, Brasil, vivem cerca de 1.165 espécies1. Os nativos da
Amazónia usam o termo genérico “Candiru” para vários bagres com comportamentos
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temidos na cultura popular: devorar corpos humanos ou entrar na uretra quando o indivíduo, estando sem roupas, urinar dentro do rio. Porém várias espécies de peixes de diferentes famílias são os responsáveis por tais eventos, sendo estas mais abundantes nas margens do rio próximas às populações ribeirinhas, pois alimentam-se dos resíduos sólidos dos humanos. As lesões apresentadas são diferentes para cada espécie que se alimentou do cadáver, possibilitando a identificação da espécie de peixe responsável.
Objetivos: Apresentar e diferenciar as
espéceis responsáveis pelo maior número de ataques a cadáveres na região de Porto Velho - Rondônia, no Brasil e descrever as estratégias alimentares e os tipos de lesões causadas por cada uma das espécies.
Métodos: Foi realizado um estudo
retrospetivo baseado na análise dos relatórios de autópsia forense, elaborados no Instituto de Medicina Legal de Porto Velho- RO, Brasil (IML/PVH/RO), entre 01 de janeiro 2014 e 31 de dezembro de 2018 tendo, como critério de inclusão, afogamento. Foi realizada uma revisão bibliográfica de estudos relacionados a ictiofauna local e de peixes detritívoros, além de consulta a pesquisadores de ictiofauna e de populações ribeirinhas para verificar o status do conhecimento sobre a participação destas espécies nos ataques a cadáveres.
Resultados: No período analisado, foram
realizadas 100 autópsias forenses no IML/PVH/RO em corpos afogados. Todos os casos de ataques da ictiofauna ocorreram em reservatórios hídricos naturais, representando 21% das autópsias. Peixes de duas famílias distintas foram identificados como os responsáveis pela ação necrófaga: a) Família Cetopsidae: Corpo completamente liso, desprovido de placas ósseas ou espinhos e não há barbilhões nasais. A cabeça tem um aspeto globoso resultante da robusta musculatura cefálica, que cobre parte ou todo o teto do crânio e que garante uma poderosa operação do arsenal dentário especializado, que constitui um aparelho cortante eficiente, em que as margens dos
dentes incisiformes são alinhadas, formando uma superfície afiada quase contínua2.
Cetopsis candiru: Comprimento varia de 1,8-
26,3cm3. Tem ampla distribuição na Bacia
Amazónica e é abundante às margens da cidade de Porto Velho no rio Madeira. Este peixe é um dos bem conhecidos carniceiros da Amazónia, atacando os cadáveres em grandes números e devorando-os de dentro para fora2.
Cetopsis coecutiens: Comprimento varia de
2,3-26,4cm3. Ampla distribuição pelas bacias
dos rios Amazonas e Orinoco. No rio Madeira, foi registrado em todas as áreas, sendo a espécie com a maior distribuição geográfica da família. Esta espécie é conhecida como Candiru-açu e participa do frenesi alimentar junto com o C. candiru mas não permanece no interior do cadáver2.
b) Família Pimelodidae: Representam um modelo quase arquetípico de um bagre: apresentam corpo nu (sem placas ósseas externas), com uma nadadeira adiposa relativamente grande e três pares de barbilhões longos (um par maxilar e dois mentonianos). O colorido do corpo pode variar de cinza uniforme até padrões bastante elaborados de listras, pintas e manchas escuras e claras2.
Calophysus macropterus: Comprimento varia
de 19-71cm4. Tem distribuição nas bacias dos
rios Amazonas e Orinoco2. Esta espécie é
conhecida como piracatinga, pintadinho, ou urubu d’água, este último nome em referência clara à voracidade desses peixes, que consomem diversos tipos de alimentos, mas são fortemente necrófagos (consomem carcaças de animais mortos)2.
Discussão e Conclusão: Os membros da
família Cetopsidae são conhecidos pelas populações ribeirinhas como os peixes que comem carniça, e a eles são atribuídos os ataques a corpos encontrados submersos nas águas do rio Madeira. Possuem hábitos alimentares vorazes e atacam não somente carniça como também peixes presos em anzóis e redes de espera3, diferindo apenas
nas estratégias de ataque e alimentação. O C.
candiru devora os tecidos por meio de um
veloz movimento giratório semelhante a um berbequim. Um ou poucos pequenos orifícios
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na superfície externa (às vezes efetuado pelo próprio peixe) é utilizado como porta de entrada no interior da carcaça, que é frequentemente devorada por dentro. Pode permanecer longo tempo no interior do cadáver, em um frenesi alimentar que pode reunir dezenas a centenas de indivíduos e às vezes preenche totalmente o interior das cavidades com uma massa fervilhante de peixes vermiformes. O C. coecutiens (Candiru- açu) realiza ataques rápidos sobre a presa, distanciando-se imediatamente com o tecido arrebatado, podendo voltar a seguir para outro ataque, mas não permanecendo no interior do cadáver como C. candiru2. É
apresentada neste trabalho, outra espécie, a
C. macropterus (Piracatinga) que está
presente nas águas do rio Madeira e também contribui para a deterioração dos cadáveres. O que caracteriza a sua ação é a esqueletização do corpo, preservando as cartilagens, os globos oculares, couro cabeludo e as extremidades dos membros. Indivíduos desta espécie costumam, mais facilmente, ser encontrados sob as vestes dos cadáveres durante as autópsias forenses. A outra espécie que os nativos da Amazónia também denominam de Candiru, é um peixe pequeno e transparente, com cerca de 3-5 cm de comprimento, pertence a família dos
Tricomicterídeos, sendo a espécie mais
conhecida a Vandellia cirrhosa. Por serem hematófagos e alimentarem-se de sangue das brânquias de peixes maiores são conhecidos como “peixes-vampiro”. São atraídos pela amônia eliminada na água durante a respiração dos peixes. Foram documentados raros acidentes com a penetração do peixe na uretra, vagina ou ânus das pessoas que se banham nuas nos rios da Amazônia5-7, e estes não tem
participação nos casos de ataques de fauna nos cadáveres submersos.
Referências:
1. Ohara WM. Endemismo e análise biogeográfica dos peixes da bacia do rio Madeira. [Programa de Pós Graduação em Sistemática, Taxonomia e Biodiverisidade]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2018. 2. Queiroz LJd, Torrente-Vilara G, Ohara WM,
Pires THdS, Zuanon J, Doria CRdC. Peixes do rio madeira. 1 ed. São Paulo - Brasil: Dialeto Latin American Documentary; 2013.
3. Vari RP, Jr. CJF, Pinna MCCd. The Neotropical whale catfishes (Siluriformes: Cetopsidae: Cetopsinae),
a revisionary study. Neotropical Ichthyology. 2005;3(2):127-238.
4. Doria CRdC, Lima MAL. RIO MADEIRA: SEUS PEIXES E SUA PESCA. Porto Velho/R): EDUFRO, Co-edição: RiMa Editora; 2015. 5. Barthem R, Goulding M. The catfish connection. Ecology, migration and conservation of Amazonian predators. New York: Columbia University Press; 1997. 144 p. 6. Bauer IL. Candiru--a little fish with bad habits: need travel health professionals worry? A review. Journal of travel medicine. 2013 Mar-Apr;20(2):119-24.
7. Herman JR. Candiru: urinophilic catfish. Its gift to urology. Urology. 1973 Mar;1(3):265-7.
POSTER 8
AVALIAÇÃO IN VITRO DA CAPACIDADE