1.4 Validation par calculs de champ
1.4.5 Tentative d’application ` a une barre d’un moteur industriel
desnecessário é ausente
Quando uma pessoa consegue organizar um Sinthoma, construiu para si um modo de amarração tal que a deixa livre do peso das expectativas do outro. Por essa razão, todo sofrimento que advém daquilo que pensa que os outros esperariam dela, é inexistente. Calcada no seu Sinthoma, a pessoa passa viver e a pensar de modo mais leve.
O conceito de Sinthoma foi trabalhado por Lacan no seu Seminário XXIII. Lacan (1975-76) postulou que a escrita pode ser o instrumento por meio do qual um corpo desencontrado com sua sexualidade, um sujeito cindido pela linguagem, pode fundar um “si mesmo”, um traço distintivo, um Sinthoma. Sinthoma, portanto, é a invenção singular de um si. Está ligado a um modo de expressão único e a um nome de autor para assiná-lo (consiste no objetivo último de uma análise levada a um bom termo). Lacan, ao final de seu ensino, avança com relação à função que o escrito tem na vida de um sujeito. Nesse Seminário, o psicanalista postulou a existência de duas acepções distintas para o termo "escrita".
A primeira refere-se às construções lógico-matemáticas que dão suporte ao pensamento sem o apoio das palavras. Trata-se, por exemplo, dos esquemas e diagramas utilizados para dar a ver o funcionamento de algo, as relações de causa e consequência. A segunda acepção seria aquela que, nas palavras do psicanalista, é “resultado do que poderia ser chamado de uma precipitação do significante” (LACAN, 1975-1976, p. 140), entendida como as formalizações gráficas que, em cada cultura, representam as palavras. Por exemplo, em português, as combinações entre as letras do alfabeto que formam o nosso sistema de escrita.
Lacan interessou-se particularmente pela primeira acepção de escrita. Na mesma lição, ele afirmou que “a escrita em questão vem de um lugar diferente daquele do significante” (1975-76, p. 140). Isso porque a escrita ligada ao suporte do pensamento está relacionada ao nível da "diz-mensão" – a mensão do dito. Podemos entender que, nessa visada, existe um sujeito que enuncia, sem saber de si.
Conclui-se, portanto, que Lacan está considerando duas instâncias diferentes ao pensar a escrita. A primeira é a da pessoa que, deliberadamente, realiza ações para escrever. A segunda é a do enunciador que é falado por ela.
Nessa segunda instância, ocorre o que, no princípio anterior, destacamos como a “instalação do trabalho da escrita” (RIOLFI, 2011), fase em que a pessoa, livre das expectativas do outro, entrega-se ao não saber, tornando-se permeável, ao escrever, à sua ação.
Lacan, nesse Seminário, tomou como exemplo o caso do contista, romancista e poeta irlandês James Joyce (1882-1941). O psicanalista, a partir da obra de Joyce, elaborou o conceito de Sinthoma como um artifício, no sentido clássico de “modo engenhoso”, de “exercício de arte”. Segundo o psicanalista, a escrita de Joyce forneceu “o aparelho, a essência, a abstração” do sintoma. Quem lê Finnegans Wake defronta-se com a pura trama literária da linguagem e com o trabalho do escritor que torna o gozo opaco. É um trabalho de pura poesia em que o que se destaca não é o sentido dos enunciados, mas, sim, os efeitos que o escrito provoca no leitor.
Como discutido por Geneviève Morel (2009), Lacan, ao elaborar o conceito de Sinthoma, “não busca explicar psicanaliticamente a função do objeto de arte como ele tinha feito quinze anos antes com a sublimação16” (tradução de Suelen Igreja). Lacan sustenta que o que torna Joyce diferente das demais pessoas é que ele pôde transformar em arte os cacos de sua existência e de sua infância. Ele, ao inventar-se como escritor (ao construir um Sinthoma), conseguiu fazer uma amarração entre seu corpo e a linguagem. Assim, para além de um modo inventivo da ficção da fantasia de alguém, o Sinthoma é um modo de gozar singular, que ressoa nas demais pessoas.
Para nós, a explicação de Morel (2009) a respeito do estatuto conferido por Lacan à elaboração de Joyce vale a citação:
Sinthoma é concebido como a reparação ou a correção de uma falta estrutural primordial, atribuída aqui à carência paterna [...]. O sinthoma consiste no modo singular que Joyce teve de tratar, por meio da escrita, um sintoma de saída/inicial. Lacan afirma que a obra de Joyce testemunha que a arte pode procurar o que se apresenta inicialmente como um sintoma, “contrariar/evitar/contornar o que se impõe do sintoma”. [...]
A tese de Lacan é que a partir desse núcleo sintomático inicial das palavras impostas, ele, por meio da escrita, decompôs a língua inglesa, deixando-a se impor a ele. Sua arte não foi apenas uma defesa contra a fala imposta: ao
16No original: “Avec le sinthome, Lacan ne cherche plus à expliquer psychanalytiquement la fonction de
contrário, a fala se impõe mais e mais a ele em seu caráter fonêmico, a ponto de “destruir” a língua inglesa, após ter sido transcrita na escrita17. (Tradução
de Andreza Rocha)
Como vimos desenvolvendo neste capítulo, a articulação entre a linguagem e o corpo próprio não é dada a priori. Para entrarmos no mundo da linguagem, tivemos de abrir mão da satisfação inicial e aceitar as palavras impostas pelo outro. Como colocado por Morel (2009), para Joyce, a escrita excedeu à sublimação. Ela não apenas funcionou como vazão de sua sexualidade ou modo de defesa das palavras impostas pelo outro, ao contrário, o fazer de modo engenhoso se impôs com tanta intensidade que funcionou como o próprio meio para que ele pudesse construir um “si”. Esclarecemos. O Sinthoma excede à sublimação porque quem chega a construir um Sinthoma visitou de tal modo os cacos de sua existência que fez dele material para construir algo inédito no mundo.
Chegar a construir um Sinthoma, por meio da escrita, não é uma conquista fácil. No contexto da formação de pesquisadores, entendemos que o desejo de desgrudar-se das palavras desgastadas do outro e elaborar algo singular pode ser transmitido, tal como desenvolvemos no princípio a respeito da transmissão do amor pelo Real. Lacan (1966, p. 11), inclusive, na abertura dos seus Escritos, declara o seu desejo de que os ensinamentos colocados por ele, nos textos ali reunidos, pudessem convocar o leitor a “colocar algo de si”.
Posto isso, tendo delimitado os dez princípios retirados da psicanálise de orientação lacaniana que sustentam o que aqui estamos defendendo com relação à formação do pesquisador, fechamos esta primeira parte da tese e, na sequência, buscaremos mobilizá-los a partir do exame mais detido dos dados que compõem esta tese.
17 No original: “Sinthome est conçu comme la réparation ou la correction d'une faute structurale
primordiale, due ici à la carence paternelle [...] Le sinthome consiste en la façon singulière qu'a Joyce de traiter par l'écriture un symptôme de départ. Lacan affirme que l'œuvre de Joyce témoigne de ce que l'art peut viser ce qui se présente d'abord comme un symptôme [...].
La thèse de Lacan est qu'à partir de ce noyau symptomatique initial des paroles imposées, il a, par l'intermédiaire de l'écriture, décomposé la langue anglaise en la laissant s'imposer à lui. Son art n'est pas seulement une défense contre la parole imposée: au contraire, la parole s'impose de plus en plus à lui dans son caractère phonématique, au point de « détruire » la langue anglaise, après avoir été transcrite dans l'écriture.”