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Temps de vie de la lamelle

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 140-143)

4.3 Couronnes

4.3.4 Temps de vie de la lamelle

As investigações de Adorno e Horkheimer (1985) sobre a Indústria Cultural tomam como ponto de partida a noção de Capitalismo de Estado de Pollock (1982), porém, segundo este último, apenas duas formas dessa “modalidade” de capitalismo são concebíveis. Ou trata-se de uma forma democrática, como é possível ver no New Deal, norte-americano, ou de uma forma totalitária (observável no nazifacismo alemão e italiano).

6 Se uma coisa como capitalismo de Estado existe ou pode existir esta sujeito a sérias dúvidas. O que esta referido aqui é um modelo que pode ser construído a partir de elementos a existentes na Europa e, até, em um certo grau, nos Estados Unidos. O desenvolvimento social e econômico na Europa desde o fim da primeira guerra mundial é interpretado como um processo de transição e de transformação do capitalismo privado em capitalismo de Estado. (Tradução nossa).

Após a segunda guerra, porém a noção de “capitalismo de Estado” oferecida por Pollock tornou-se insuficiente para abarcar a nova geopolítica da economia global. O caráter do Estado como agente de planejamento se manteve, por outro lado esse planejamento tornou- se mais sofisticado a partir da inserção do capitalismo no campo dos bens culturais. A administração política e econômica do mundo, para Adorno e Horkheimer (1985), encontra na indústria cultural seu grande acólito.

Segundo Gatti (2013) Adorno e Horkheimer (1985), em sua Dialética do Esclarecimento, dedicaram-se a investigar formas de dominação social e controle enxergando formas de totalitarismo existentes dentro da democracia. Diferente do que é descrito por Pollock (1982) em que o “Capitalismo de Estado” é uma sistematização de traços gerais da administração capitalista, mas não uma pratica de governo efetiva.

Nobre (2008) aponta que Adorno e Horkheimer (1985) identificaram nas formas democráticas características totalitárias o que, em ampla medida, contestam as teses de Pollock (1982) de que esses modelos são mutuamente excludentes. Apesar de no “prefácio” e no “prefácio para edição alemã” os autores dedicarem a “Dialética do Esclarecimento” a Pollock quem, segundo eles, encontrou as primeiras pistas sobre o modelo capitalista do começo do século XX, ao longo do texto suas teses são contestadas.

A própria expressão “capitalismo de Estado” é substituída por “capitalismo tardio” ou “sociedade industrial”. É verdade, porém, que não há uma explicação no texto sobre o significa explicito desses dois conceitos. Estes são melhores sistematizados por Adorno (1994b) em uma conferência em Frankfurt, em 1968, para o 16° congresso de sociólogos alemães, denominada “Capitalismo tardio ou Sociedade industrial”.

Segundo Adorno (1994b) devemos entender por capitalismo tardio ou sociedade industrial, uma sociedade em que o modo de produção industrial tornou-se o modelo padrão das relações que extrapolam as relações de produção.

Por toda parte e para além de todas as fronteiras dos sistemas políticos, o trabalho industrial tornou-se o modelo de sociedade. Evolui para uma totalidade, porque modos de procedimento que se assemelham ao modo industrial necessariamente se expandem, por exigência econômica, também para setores da produção material, para a administração, para as esferas de distribuição e para aquela que se denomina cultura. (ADORNO, 1994b, p.68)

O elemento aglutinador dessas práticas de administração da vida, identificado por Adorno e Horkheimer, é a indústria cultural. Para Matos (2010), a expressão Indústria Cultura indica que os bens culturais perdem sua dimensão autônoma se inscrevendo no processo de

produção em larga escala comum a dinâmica das grandes indústrias. Como escreve Freitag (1986, p. 72)

A “indústria cultural” é a forma sui generis pela qual a produção artística e cultural é organizada no contexto das relações capitalistas de produção, lançada no mercado e por este consumida. Numa sociedade em que todas as relações sociais são mediatizadas pela mercadoria, também a obra de arte, ideias, valores espirituais se transforma em mercadoria, relacionando entre si artistas, pensadores, moralistas através do valor de troca do produto. Este deixa de ter o caráter único, singular, deixa de ser a expressão da generalidade, do sofrimento, da angustia de um produtor (artista, poeta, escritor) para ser um bem de consumo coletivo, destinado desde início a venda, sendo avaliado segundo sua lucratividade ou aceitação de mercado e não pelo seu valor estético, filosófico ou literário intrínseco.

Trata-se de uma massificação da cultura que destitui, desta, seu valor cultural. Não se trata de uma democratização da cultura, como uma analise apressada pode levar a crer, pois sua finalidade é bem específica. Uma confusão comum precisa, então ser diluída aqui antes de continuarmos. É comum a utilização do termo cultura de massa para referir-se a processo de industrialização da cultura, uma vez que esse processo também passa por suma massificação.

Adorno (1994a) rejeita essa sinonímia, uma vez que a expressão cultura de massa pode denotar um tipo de produção cultural oriunda das massas, uma arte popular.

Em nossos esboços tratava-se do problema da cultura de massas. Abandonamos esse última expressão para substituí-la por “indústria cultural”, a fim de excluir, de antemão, a interpretação que agrada aos advogados das coisas; estes pretendem, com efeito, que se trate de algo como uma cultura surgindo espontaneamente das próprias massas, em suma, da forma contemporânea da arte popular. Ora, dessa arte a indústria cultura se distingue radicalmente. Ao juntar elementos de há muitos correntes, ela atribui-lhes uma nova qualidade. Em todos os seus ramos fazem-se, mais ou menos segundo um plano, produtos adaptados ao consumo das massas e, em grande medida, determinam esse consumo.

Gatti (2013, p. 77) explica essa citação escrevendo que

Os fenômenos compreendidos sob o conceito de indústria cultural tinham um outro significado: não uma cultura que surge de baixo para cima, mas uma outra, imposta de cima para baixo, com o intuito de adaptar e integrar as massas a ordem social vigente. Em todos os setores da indústria cultural, diz Adorno, fabricavam-se, de modo mais ou menos planejado, produtos talhados para o consumo das massas, sendo que esse consumo já era determinado em grande medida por esses mesmos produtos.

Logo, a Indústria Cultural ocupa uma função administrativa. Não é uma mera indústria do entretenimento, ainda que, segundo Adorno e Horkheimer (1985) este seja vital a sua existência, e sim de uma forma de gestão da vida que transforma em produto elementos

que pertencem a esfera da experiência de existir. Em outras palavras, a Indústria Cultural vende modos de experienciar o mundo sob a forma de estilo de vida.

A nova produção cultural tem a função de ocupar o espaço do lazer que resta ao operário e ao trabalhador assalariado que depois de um longo dia de trabalho, afim de recompor suas forças para voltar ao trabalho no dia seguinte, sem lhe dar trégua para pensar sobre a realidade miserável em que vive. A indústria cultural, alem disso, cria a ilusão de que a felicidade não precisa ser adiada para o futuro, por já estar concretizada no presente [...] ( FREITAG, 1986 p. 71)

Desta maneira a ideia de felicidade transmitida não pode pertencer a um grau complexo de discursividade. Não deve ser passiva de abstração. Pela Indústria Cultural é veiculado todo um sistema de estereótipos que deve ser imediatamente compreendido por todos. Ela passa a ser a grande fonte de informação do capitalismo tardio.

Para Matos (2006, p. 46)

O espírito e a prática da mídia tem sua lei: a da novidade, mas de modo a não perturbar hábitos e expectativas, de ser imediatamente legível e compreensível pelo maior numero de expectadores e leitores. Evita a complexidade, oferecendo produtos a interpretação literal, ou melhor, minimal. Espécie de caça a polissemia ela se impõe na demagogia da felicidade – fundamento do sistema midiático de comunicação. Portadora de dogmatismo e preconceito, a indústria cultural veicula uma servidão que se desconhece a si mesma, pois submete o leitor ou espectador a hábitos preestabelecidos reforçando-os.

Ocorre no capitalismo tardio uma perda da experiência própria e é através desta que a vida se torna adminstrável. A esse processo Benjamim (1994) chamou de pobreza de experiência. O homem moderno torna-se incapaz de ser afetado por experiências outras que não seja as veiculadas e vendidas pelo mercado da cultura. Como aponta Matos (2006, p. 77) “A linguagem do mundo totalmente administrado é a da mídia e sua cultura é a indústria cultural.”.

Torna-se, assim, impossível a elaboração, a escolha de aceitação ou recusa do conteúdo midiatizado. “A cultura da sociedade de massa impede o exercício da faculdade de julgar, pois este levaria a pensar o mercado, a ciência, a técnica para o homem e não homem para a ciência, para a técnica e para o mercado” (MATOS, 2006 p. 80).

Através da Indústria Cultural, portanto, a administração da vida e das experiências do homem extrapolam os limites do corpo e as paredes das fábricas. Limites esses comuns no Capitalismo Industrial. A vida torna-se, assim, objeto de administração pelo capitalismo. Os modos de viver e existir passam a ser então determinados pela mídia aprisionando os consumidores de informação em um processo cíclico que visa a manutenção da ordem vigente.

Como escrevem Adorno e Horkheimer (1985, p. 122)

A indústria cultural tem a tendência de se transformar num conjunto de proposições protocolares e, por isso mesmo, no profeta irrefutável da ordem existente. Ela se esgueira com mestria entre os escolhos da informação ostensivamente falsa e da verdade manifesta, reproduzindo com fidelidade o fenômeno cuja opacidade bloqueia o discernimento e erige em ideal o fenômeno onipresente.

O que está fundamentado diante disto é uma nova concepção de ideologia que nós dedicaremos a analisar no capitulo III, por agora apresentamos um esboço geral do conceito de Indústria Cultural que mais tarde será aprofundado em sua dimensão ideológica. Cabe, então, nos debruçarmos sobre as consequências da administração da vida através do conceito de unidimensionalidade do filósofo Herbert Marcuse, para continuar nossa reconstrução dos passos do capitalismo no século XX.

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